Qual foi o caminho até ao lançamento deste livro?
Este livro foi escrito durante esta pandemia, por isso teve um processo de desenvolvimento diferente. Depois do convite da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, comecei a ler a bibliografia sobre o tema do liberalismo em Portugal e depois bibliografia sobre o levantamento liberal em Angra do Heroísmo. Li e pesquisei com especial atenção os Anais da Ilha Terceira de Ferreira Drumond e o Arquivo dos Açores de Ernesto do Canto. Depois fui para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, procurando investigar e pesquisar no fundo da Capitania-Geral e do Fundo Teotónio Ornelas Bruges. Felizmente, os funcionários foram excelentes para fazer pesquisa em um momento tão complicado como este da pandemia. Depois de compilada a informação, foi escrever, buscando um fio condutor para contar a História do Levantamento e todas as estórias que o rodeiam, de forma simples e acessível a todos os leitores. Depois de escrito, foram as leituras e releituras e inserção das fotografias, com a colaboração do Rúben Quadro Ramos, o responsável pela paginação. A interação com a Câmara Municipal foi sempre fácil e de total apoio. No início deste mês, ao ver o livro em minhas mãos, foi um gosto inenarrável. Já antes tinha sido coautor de dois livros, mas ter este escrito somente por mim, pela minha pesquisa e investigação, é algo indescritível.
O que se pode contar sobre este episódio histórico?
Este episódio é muito interessante e precisa ser mais conhecido entre os terceirenses, sobretudo neste momento, em que celebraremos, no fim-de-semana da Páscoa, os 200 anos sobre o levantamento liberal de dois de abril. É interessante pensarmos que um acontecimento como este que dura pouco mais de 48h tem momentos tão intensos e com vários episódios tão fortes e mesmo violentos, com voltas e reviravoltas inesquecíveis. A obra embora seja sobre o levantamento liberal de dois de abril, acaba por ter dois principais protagonistas, os rivais Francisco António de Araújo e Azevedo, o 7º Capitão-General dos Açores, e Francisco de Borja Garção Stockler, o 8º Capitão-General dos Açores. A rivalidade destes dois homens que governaram os Açores foi essencial em todo o desenvolvimento dos acontecimentos, com aliados de parte a parte a serem essenciais no desenrolar dos acontecimentos da revolta. O livro não procura criar a imagem do herói e do vilão, embora que ao contar-se a História pode parecer que se penda para o lado de um dos capitães-generais em uma parte da obra, e para o outro, noutra parte. Porém a ideia é que o leitor conheça bem o que se passou e quem foram estes homens e o porquê da sua mentalidade ser importante para muita da ação de ambos e, com isso, para muitas decisões contraditórias que vão tomando. Só para abrir o interesse na leitura do livro, posso contar que mesmo com Araújo a ter chefiado o levantamento e ter criado a Junta Provisória do Governo Supremo dos Açores, nunca vai conseguir tirar o real poder de Stockler, que mesmo deposto, vai preparar uma contrarrevolução, com apoio dos locais.
Que histórias de Angra do Heroísmo e da Terceira nos faltam conhecer?
Há muitas histórias ainda por conhecer sobre Angra do Heroísmo e sobre a Praia da Vitória e mesmo as que se conhecem deviam ser mais bem divulgadas. Basta dizer que Mateus Álvares, um praiense, muito esquecido pela nossa terra, foi "Rei de Portugal", porque foi visto pelo povo da Ericeira como o regressado D. Sebastião. Era tão importante que o exército espanhol entrou na Ericeira, foi então feito prisioneiro a 12 de junho, sujeito a tortura, foi levado à presença de D. Filipe II, que mandou cortarem-lhe a mão direita, pela qual assinara alvarás reais. Tantas e tantas histórias por contar por estas freguesias fora. Nós que estamos a entrar num ciclo comemorativo de 2º centenário de vários acontecimentos liberais, devemos aproveitar estes próximos anos, para contar e divulgar estes eventos que marcaram não só a História da Terceira, como a de Portugal.
Como podemos tornar essas histórias mais "visíveis"?
Estas histórias precisam de ser divulgadas, através de eventos, de textos, de recriações históricas. Devemos aproximar os locais da sua História, por exemplo, com a criação de espaços que nos façam viajar no tempo. Há já algum tempo que se fala na necessidade da transformação da Casa da Salga num Centro de Interpretação, onde as pessoas possam conhecer mais da Batalha da Salga, da Brianda Pereira, da Violante do Canto e do Ciprião de Figueiredo, ou seja, conhecer um pouco mais da sua História, dos seus antepassados e da Memória Coletiva da Terceira. A recriação histórica é algo muito utilizado no norte da Europa e que devia ser mais recorrente na nossa Ilha.
O que pensa do ensino da nossa história nas escolas açorianas?
Penso que as coisas melhoraram nos últimos anos, mas o ensino da História precisa de professores que saibam cativar os seus alunos. Não devemos ter medo de ser criativos ao ensinarmos, sobretudo História, disciplina que os alunos têm maior dificuldade de perceber a sua relevância. Devemos mostrar-lhes que conhecer o passado, não é só essencial para o nosso conhecimento, mas primordial para a nossa construção enquanto cidadãos. É essencial que os professores aproximem os conteúdos a realidades que os jovens conheçam. Os professores devem levar os alunos aos monumentos e incentivá-los a fazerem trabalhos sobre o património regional, aproximando-os do meio onde vivem.
in, Diário Insular, 26 de Março / 2021
Há exatos 15 anos, a 14 de julho de 2011, publicava o meu 1º artigo num jornal terceirense e começava, assim, a minha participação ativa em imprensa local, nacional e internacional de uma forma recorrente, com mais de 675 crónicas publicadas ao longo destes anos. Dia simbólico, mas que foi um daqueles acasos do destino, visto que o 14 de julho é uma data ligada à tomada da Bastilha, em 1789, ou seja, ao princípio da Revolução Francesa e, por isso, o acontecimento que marca o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea.
O meu percurso nestas lides começou quando foi preciso escrever um artigo sobre o período pós-25 de abril de 1974 na Terceira, numa revista preparada por alunos do 12º ano da Escola Jerónimo Emiliano de Andrade, que procurava dar uma visão do século XX terceirense. Já tinha feito umas pequenas participações em alguns artigos e apoio na investigação de 2 livros e da minha tese de mestrado. Após a publicação do texto, o Mário Leandro, um homem do jornalismo, com quem muito aprendi, desafiou-me para escrever para a imprensa local. Assim, começou a minha colaboração com o extinto diário A União.
O convite seria para escrever quinzenalmente por 6 meses, achava-se que a História iria cansar o público e não ia ter a adesão de outras crónicas, com muitos leitores. Aceitei de imediato o desafio. Este apelo que tenho por voltar sempre às minhas raízes, de fazer pesquisa e investigação, sempre na busca por saber mais e poder divulgar o que aprendi de forma isenta e correta, são os garantes da minha qualidade enquanto Historiador.
Ao fim daquele semestre de 2011, tinha cada vez mais interessados nas minhas crónicas, que comentavam os textos no Facebook e no Instagram, enviavam e-mails, pediam informações e até davam sugestões. Existiam cada vez mais temas que me motivavam a pesquisar e a investigar mais. Pouco tempo depois, a minha colaboração passou a outros meios da imprensa escrita. Recebia imensas críticas favoráveis aos meus textos, jovens que não liam e não queriam saber de História, diziam que adoravam os meus textos, que chegavam a fazer pesquisa na internet para saber mais. Era este o meu objetivo. A recetividade do público foi muito boa. Ficava muito contente com esta reação. Fazer com que houvesse mais curiosidade sobre as estórias, os acontecimentos, as pessoas, o meio onde vivemos, era este o meu propósito.
Os meus textos procuravam contar a História real, de forma simples e acessível a todos, sem nunca descontextualizar, usando termos mais científicos, com outros mais simples. Queria, assim, ensinar e mostrar a todos que a História é mais interessante do que pensavam. A História à nossa volta pode ser usada como um ponto para incentivar os jovens a se interessar pela História nacional e universal. É importante fazer todos sentirem que fazem parte de algo maior do que eles, que o pequeno pedaço de terra onde moram é importante. Conhecermos o que nos rodeia, é saber um pouco mais sobre quem somos.
Fui procurando conhecer e investigar estórias menos conhecidas da nossa História e mostrar que há muito mais do que aquilo que se ensina. Daí achar importante que se conheça a História de onde vivemos. Fui, portanto, criando uma rede de leitores.
A minha participação ativa nas redes sociais, na busca pelo conhecimento da nossa História, foi então ganhando força. Passei a colaborar com mais jornais, a fazer palestras, a dar entrevistas e a ter rúbricas nas rádios, tudo isso em nome da divulgação da nossa História e na procura de manter vivo o património dos nossos antepassados.
Ao longo destes 15 anos, aprendi imenso, não só pelo que investiguei e pesquisei, mas por tudo o que os leitores me deram, desde informação, conhecimento, passando por críticas, elogios, ideias, etc. Tudo isso ajudou-me a fazer mais e melhor. A ser quem sou hoje!
Com mais de 675 crónicas publicadas, espero que continue a haver esta ligação entre mim e o leitor, e que venham mais 5, mais 10, mais 15 anos, etc. E que as pessoas percebam que a História tem muito a ensinar e a dizer a todos, que não é algo só do passado, é uma área que nos ensina o porquê do agora e que devia também servir de lição para não cometermos os mesmos erros.
A História de um povo é a sua maior riqueza, pois não pode ser roubada. Manter viva a memória do passado, o nosso património, as nossas ações, os nossos feitos, as nossas raízes, é manter vivo o nosso ADN e orgulharmo-nos do que fomos, do que somos e do que seremos. Não se esqueçam, a nossa História é feita por mim, por ti, por todos! A sociedade atual clama por uma união de todos em busca de um caminho para a saída deste marasmo e crise que entramos, não critiquemos os outros, tenhamos ideias e busquemos o apoio e envolvimentos dos demais. É o nosso futuro que está em jogo.
Eu tenho feito a minha parte e espero contribuir com mais trabalho e mais projetos, desde que haja financiamento e apoios neste sentido. Espero que surjam mais oportunidades para fazermos “realçar” a nossa grandeza, o nosso ADN, trazendo o ontem para hoje.
A pesquisa, a investigação, a salvaguarda e a preservação do Património, assim como a divulgação da nossa História, são lemas da minha vida.
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