terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Ferreira Drummond (1796-1858)


Edificada em 1455

FRANCISCO FERREIRA DRUMMOND


Brasão de Armas
da família Drummond
Francisco Ferreira Drummond nasceu na vila de S. Sebastião (Terceira), a 21 de Janeiro de 1796, tendo sido baptizado, na respectiva Matriz, a 27 desse mesmo mês.

Era filho de Tomé Ferreira Drumond, lavrador abastado, e Rita de Cássia, ambos residentes na Vila de S. Sebastião, em cuja Matriz foram também baptizados.


A família Drumond estava, então, intimamente ligada ao magistério primário e à governança da Vila de S. Sebastião, tendo a presidência da Câmara sido ocupada por seu pai (em 1821). O seu irmão, o capitão de ordenanças José Ferreira Drumond, dominou a vida política local durante várias décadas.



Ferreira Drumond desde a infância que revelou decidida vocação para as letras e para a música. Depois da instrução primária, estudou latim, lógica e retórica (disciplinas próprias do ensino da mocidade culta de então e as únicas disponíveis na sua vila natal). Muito estudioso, procurou constantemente aumentar a sua instrução literária e artística, o que lhe foi facilitado pelo meio familiar em que viveu.







Com apenas 15 anos, foi nomeado para o cargo de organista da Matriz da Praia.
Cedo aderiu à causa liberal, tendo sido eleito pelo novo sistema constitucional, em 1822, secretário da Câmara Municipal de S. Sebastião. Tal eleição valeu-lhe grandes dissabores, tendo, para escapar às perseguições dos absolutistas, fugido da Terceira, durante a noite, numa embarcação que o levou à ilha de Santa Maria, de onde passou a Ponta Delgada, dali partindo, com passagem pela Madeira, para Lisboa.

Depois de um ano de exílio voltou à Terceira, tendo participado activamente em todo o desenrolar da guerra civil nesta ilha, que depois tão bem descreveu nos seus Anais da Ilha Terceira.

Desempenhou, ainda em S. Sebastião, os cargos de escrivão dos órfãos, secretário da Administração do Concelho, e tabelião. Em 1836 foi eleito Presidente da referida Câmara, tendo desempenhado essas funções até 1839. Nesse ano foi eleito Procurador à Junta Geral.

Exerceu também, durante vários anos, o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Distinguiu-se na luta contra a extinção do concelho de S. Sebastião, extinção que, em boa parte graças à sua actividade, apenas se consumou em 1 de Abril de 1870, apesar de decretada em 24 de Outubro de 1855.

Algumas das mais importantes obras da antiga Câmara de S. Sebastião foram iniciativa sua, nomeadamente a captação das nascentes do Cabrito e o seu aproveitamento para moagem, naquela época a maior obra hidráulica da Terceira e uma das maiores dos Açores.

Monumento no Rossio
Vila de São Sebastião




Faleceu em 11 de Setembro 1858, contando 63 anos incompletos de idade, na casa que tinha aforado da Santa Casa da Misericórdia, na Travessa da Misericórdia, onde hoje está a lápide comemorativa. 

Francisco Ferreira Drumond foi homenageado em 1951 com um pequeno monumento localizado no Rossio, Vila de S. Sebastião.

O seu trabalho histórico ocupa um lugar cimeiro na historiografia açoriana, sendo a base de boa parte das obras sobre a história dos Açores, em particular sobre a história da ilha Terceira.







Obras publicadas



Memória Histórica da Capitania da Praia da VitóriaEditado pela Câmara Municipal da Praia da Vitória em 1846, Praia da Vitória. A obra foi reeditada inserta na colectânea Memória Histórica do Horrível Terramoto de 15.VI.1841 que Assolou a Vila da Praia da Vitória, edição e da Câmara Municipal da Praia da Vitória, 1983.

Anais da Ilha Terceiraobra escrita segundo o critério cronológico típico dos Anais, cobrindo o período desde a descoberta e povoamento da ilha até 1850. Foi oferecida à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que a editou em 4 volumes, contendo 510 de documentos. O volume I foi publicado em 1850; o vol. II em 1856; o III em 1859; e o IV, póstumo, em 1864. Reeditado, em fac-símile da edição original, pela Secretaria Regional da Educação e Cultura, Angra do Heroísmo, 1981.

Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Eclesiásticos, para a História das Nove Ilhas dos Açores - obra inacabada deixada em manuscrito. Após um conturbado percurso, a obra foi editada em 1990 pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo.






A ascendência de Drummond
Visite em: Drummond



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O Castelo de São Sebastião


O CASTELO DE SÃO SEBASTIÃO
 DE ANGRA DO HEROÍSMO


Castelo de São Sebastião
(Castelinho)
A pirataria aparece nos mares dos Açores logo nas primeiras décadas do século XVI, mas só pelos anos cinquenta surgiu fundado receio de que as acções de pilhagem pudessem atingir o próprio porto de Angra, na Ilha Terceira, então escala obrigatória nas viagens de retorno das Índias.

1881 - Planta do Castelinho (Damião Pego)
Simultaneamente com o artilhamento do Castelo de São Cristóvão (Memória), manifestamente inócuo na perspectiva defensiva da baía, Tomasso Benadetto, de Pesaro, traça, em 1567, o plano defensivo da ilha Terceira, nomeadamente da nóvel cidade de Angra. Peça fundamental desse plano, foi o Castelo de São Sebastião, vulgo Castelinho, cuja construção se terá iniciado em 1572, mas cujas obras já estariam suficientemente adiantadas em 1576 para ser-lhe atribuída alcaidaria.


Séc. XIX - Castelinho

Torna-se o Castelo de São Sebastião, a partir dessa data, não apenas num reforço substancial do sistema defensivo anterior, mas no garante efectivo da segurança do porto oceânico de escala obrigatória das rotas marítimas intercontinentais. Graças a ele, a cidade pôde desenvolver-se e prosperar. Defesa tão eficaz que afasta a esquadra de D. Pedro de Valdez, em 1581, levando-o ao malogrado desembarque na Salga. Em 1582, chegado vencedor da batalha naval de Vila Franca do Campo contra a esquadra francesa enviada aos Açores em apoio da causa do Prior do Crato, o Marquês de Santa Cruz, ao serviço de Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, não se atreve a acometer a cidade (nem a Ilha); e, no ano seguinte, é na baía das Mós que desembarca vitorioso, entrando em Angra pelo portão de São Bento, vedado que lhe fora o acesso por mar, pelo poder de fogo do Castelo de São Sebastião -agora já secundado pelo forte de Santo António que Ciprião de Figueiredo mandara construir na ponta sudeste do Monte Brasil -.E no Castelo de São Sebastião receberá a rendição formal das tropas francesas.
Séc. XX - Castelinho

Já sob o governo de espanhol João de Horbina, em 1589, o corsário inglês Francis Drake -ascendido a sir pelas suas vitórias contra o império de Filipe II, nomeadamente, sobre a Armada Invencível -vê frustrada a sua tentativa de saquear os navios carregados de importantes drogas, vindas das possessões ultramarinas surtos no porto de Angra, face à ameaça que o Castelo de São Sebastião representava. Em 1597, idêntico episódio acontece com o conde de Essex que sulca as nossas águas com cerca de 140 velas, e que impusera pesado saque à ilha do Faial.

O estabelecimento em Angra de uma guarnição espanhola se, como se vê, concitou maiores perigos para a cidade, reforçou, também, o valor estratégico da sua fortaleza. Logo nesse mesmo ano de 1583 se iniciam obras de melhoramento na Castelo de São Sebastião, com especial destaque para algumas instalações para homens e materiais, e para o reforço da frente voltada a terra onde a muralha era baixa e desprovida de qualquer sistema protector. Com efeito, a construção do Castelo de São Filipe do Monte Brasil nasce, essencialmente, da incapacidade fisica do Castelinho, desde o início vocacionado para a defesa marítima, de albergar e proteger os homens e os armamentos que o rei de Espanha queria colocar estrategicamente a meio caminho entre a Europa e as Américas. Mas a defesa específica do porto de Angra, essa continua confiada ao Castelo de São Sebastião, tal como reconhece um século depois o Padre Maldonado: este castelo é de notável importância, e tanto que dele depende a segurança da cidade enquanto ao mar. E como confirmam os acontecimentos ocorridos e 1641 e 1642. Perante os fundados receios de que, da parte dos terceirenses, pudesse vir um movimento restaurador com o consequente ataque ao Castelo de São Filipe, o governador espanhol diligenciou para que o Castelo de São Sebastião fosse demolido. Por temer que daí fosse atacado o Castelo de São Filipe? A questão estava - foi - no controlo do porto de Angra. Primeiro, o curioso episódio da conquista do Castelinho pela companhia e pelas mulheres da Ribeirinha, com a ajudinha traiçoeira do artilheiro português ao serviço dos espanhóis, Caldeirão. Depois, as tentativas frustradas do governador estrangeiro, D. Álvaro de Viveiros, para enviar ao seu rei pedido de auxílio a partir do porto de Angra, e o desembarque aqui negado a reforços espanhóis, vindos em apoio dos citiados no Castelo de São Filipe. Com o Castelo de São Sebastião no centro de tudo isso!

Século XIX - Planta do Castelinho
A partir daí o Castelinho entra em declínio? Seguramente, não! (Ou tão só na medida em que o porto de Angra perde importância estratégica.) No reinado de D. Pedro II, em 1698, importantes obras são efectuadas na Castelo de São Sebastião. Tão importantes que na lápide evocativa dessas obras, colocada sobre o portão, é usado o termo reedificaram.


Em 1767, João Júdice, na revista que fez a todos os fortes da ilha, regista alguma ruína na fortaleza, não mais do que no Castelo de São João Baptista. É o reflexo do abandono a que a defesa militar dos Açores fora votada há muitas décadas. Como naquela data regista João Júdice, a artilharia que então por cá existia era exactamente a mesma e apenas a que os espanhóis haviam deixado em 1641. A guarnição do Castelo de São Sebastião era, então, dada pelo Castelo de São João Baptista, sob o comando de um capitão. Isto é, continuava a ter guarnição permanente. E o cargo de Capitão do Castelo era disputado, movendo influências na corte. Por este tempo o Castelo de São Sebastião terá sido objecto dos necessários melhoramentos, tal como parte da restante fortificação da ilha.

 Séc. XX - Castelinho (Tourada no Porto de Pipas)
No final do século, a partir de 1797, é grande o temor de que os Açores possam ser atacados pelas tropas francesas. Numa situação de penúria extrema de armas e munições, o armamento do Castelo de São Sebastião sempre esteve nas preocupações dos responsáveis pela defesa da ilha. Ele continuava imprescindível para a defesa da cidade. Como imprescindível se mantinha em 1822, a crer na planta do sistema defensivo da baía de Angra, desenhada por José Carlos de Figueiredo.

Castelinho (Vista aérea)
Extraordinária relevância foi dada pelos liberais no sistema defensivo mantido para contrariar qualquer tentativa de desembarque das forças absolutistas (1828-1832).

Foram executadas importantes obras na frente voltada ao mar com a construção da bateria da heroicidade; o Castelo teve governador próprio.

Com a saída das tropas liberais, ter-se-á dado início a um processo de degradação da fortaleza. Pelos anos cinquenta são propostas obras de restauro, mas uma relação de 1862 já o dá em bom estado de conservação, o que significa que ainda valia como posição estratégica a contar na defesa do porto de Angra. E um relatório do Corpo de Engenharia, datado de 1868, informa que ele estava guarnecido, tal como o Castelo de São João Baptista, de que dependeria.

Castelinho (ao fundo)
lnsubstituível na defesa da baía de Angra durante três séculos, agente do desenvolvimento da cidade cosmopolita, o Castelinho foi, entretanto, testemunha e espaço de muitos episódios da vida social e política local e regional, servindo, nomeadamente de prisão a perseguidos pela justiça ou pelos poderes públicos, e de depósito de recrutas vindos das diversas ilhas do Arquipélago nas frequentes levas, nomeadamente, do século XVIII, enquanto aguardavam embarque para o Reino, para o Brasil ou para outras paragens lusas.


Castelinho - Portão de Armas
Quando em 1885 grassou em Espanha uma epidemia de cho/era morbus e se receou, com justos motivos, que ela invadisse Portugal e pudesse chegar aos Açores, o Governo Civil do Distrito de Angra do Heroísmo pediu ao Ministério do Reino que obtivesse do Ministério da Guerra autorização para construir, no Castelo de São Sebastião, um lazareto, a fim de ali serem tratados, vigiados e saneados todos os indivíduos que chegassem à Ilha, vindos de portos suspeitos de tal epidemia. Não havendo razões que contrariassem esta pretensão, face ao clima de segurança militar que então se vivia no Arquipélago, foi ela satisfeita, e instalado o lazareto no terrapleno baixo -Bateria da Heroicidade -, com trânsito directo para o Porto das Pipas por uma pequena porta aberta na muralha.

Um relatório de 1887 regista o mau estado de conservação da fortaleza, propondo e seu encascamento e a reposição de pedras em falta nas raízes das muralhas.

1942 - Carta censurada e perfurada  (para ser desinfectada)
 expedida de Londres para Angra
Nos primeiros anos do passado século, a Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo satisfazendo a uma necessidade há muito reclamada pelos povos deste distrito encomendou um projecto (1902) e deu início à construção (1904) de um Posto de Desinfecção Terrestre e Marítimo no Castelo de São Sebastião.





A localização deste posto no Castelinho foi bem escolhida. Destinado à desinfecção de pessoas, roupas, bagagens e mercadorias que por mar chegassem, ficava mesmo ali à mão, à saída do cais do Porto das Pipas; mas concebido, também, para responder ao frequente aparecimento e desenvolvimento na Terceira de doenças de carácter classificado de epidémico, tais como febre tifóide, meningite cérebro-espinal, difterias, varíola, tuberculose, escarlatina, carbúnculo, sarampo, situava-se à distância de isolamento necessária, relativamente ao aglomerado urbano de então.

Castelinho - Brasão de Armas
Não foram, porém, pacíficas estas obras. Do projecto constava o rasgamento da muralha a Oeste, para acesso ao interior do forte, o que levou o Exército a pedir o embargo das obras. Reconhecendo que o Posto de Desinfecção era indispensável para a cidade e que o forte era o local adequado para a sua instalação enquanto razões de ordem defensiva não se sobrepusessem, o Exército opôs-se a alterações na estrutura arquitectónica, pelo seu grande valor como monumento histórico, valor este proveniente da sua antiguidade e dos feitos heroicos que a ele estão ligados.

De forma diversa se pronunciou o Presidente da Junta Geral de Angra do Heroísmo para quem o Castelo de São Sebastião [...] Como monumento histórico ou de arte é também de pouco valor, pois não possue obras de arquitectura que o recomendem, nem a ele se acham ligados factos da nossa história militar ou política que lho avolumem. E para acabar com as disputas, propunha a cedência definitiva da propriedade à Junta Geral.

Castelinho - Ponte sobre o fosso (Acesso)
A postura esclarecida e o prestígio do Exército venceram, e, por auto de cedência precária, de 10 de Julho de 1905, o Castelinho foi entregue à Junta Geral para conclusão das infraestruturas do Posto de Desinfecção, obras a todo o tempo removíveis, com reserva absoluta de intervenção nas muralhas ou outras obras defensivas sem prévia autorização do Exército.

Só em 1935 o castelo de São Sebastião voltou à posse do Exército.


Castelinho - Vigia
Por entretanto o Posto de Desinfecção ter sido transferido para outro local da cidade? Por necessidade de instalações do Exército na previsão de novo conflito armado? O estado lamentável em que se encontravam as instalações do Posto de Desinfecção, paralelamente com a construção de novas instalações algures na cidade sugere que, se tratou da dispensa do Castelo para esse fim, por falta de condições. Não só, aliás, as instalações do Posto de Desinfecção estavam degradadas, mas toda a estrutura defensiva se encontrava profundamente arruinada, passado que fora mais de meio século sem que obras de manutenção fossem feitas.

Castelinho - Vista sobre os ilhéus
Veio o Castelo de São Sebastião a acolher, sucessivamente, a Bateria de Artilharia de Defesa Móvel de Costa n.O 2, Depósito de Presos da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, Quartel das Forças Britânicas, 3.0 BE do GACA n.o 1 da Base Aérea n.o 4, Serviço de Obras de Engenharia do Comando Militar da Terceira, e Capitania do Porto de Angra do Heroísmo, ocupante até há pouco.

Para além do Castelo de São Sebastião ter sido uma presença constante e interveniente em mais de quatro séculos de vida de Angra do Heroísmo, importante é, também, no plano arquitectónico, pela sua tipologia.

Castelinho - Bateria baixa
De que há conhecimento, a primeira fortificação erguida em Angra (e nos Açores), data da segunda metade do século XV: o Castelo dos Moinhos ou de São Cristóvão. 

Necessariamente ainda de concepção medieval, pouco conhecemos da sua arquitectura, por falta de representações iconográficas credíveis. Dos pequenos fortes que se lhe seguiram no perímetro da baía de Angra, também pouco sabemos, embora, aqui, estejamos em crer que as construções já seriam muito mais adequadas às necessidades defensivas contra o poder de fogo da artilharia dos navios hostis. Mas é com a construção do Castelo de São Sebastião que Angra é dotada de uma moderna fortificação, à altura das necessidades defensivas de uma cidade que passara a estar na confluência das grandes rotas marítimas intercontinentais. Para o projectar, veio a Angra, como se disse, Tomaso Benedetto, engenheiro italiano, da pátria de Leonardo da Vinci e dos mestres construtores de fortificações no século XVI, nomeadamente Tiburcio Spanochi, o projectista do Castelo de São João Baptista do Monte Brasil.


1941 - Cartografia da Baía de Angra
As muralhas perdem a altura do castelo medieval e ganham a robustez necessária para contrariar o poder destrutivo da artilharia; as torres dão lugar a dois baluartes virados a terra, desenvolvendo-se duas ordens de baterias para o lado do mar. O interior é espaçoso, nele se erguendo até inícios do século passado, praticamente apenas a casa do Governador e a cisterna; ficando os alojamentos para o ajudante e a guarnição adossados aos baluartes; os próprios paios abriam-se sob o terrapleno dos baluartes.


1870 - Cartografia de Angra
Com objectivos exclusivamente estratégicos, quanto menos edificios comportasse, menor seria, logicamente, a destruição, em caso de ataque. Para além de ter sido concebido para ser guarnecido por ordenanças, gente do povo, com suas casas e família na cidade, que apenas ali permanecia o tempo necessário para prestar serviço. Um exemplar de excepção, pela tipologia e pelas ressonâncias históricas e sociais, do primeiro abaluartado nacional e da fortificação defensiva destas Ilhas.






Obras empreendidas pelos Monumentos Nacionais em meados dos anos noventa últimos, vieram reabilitar a antigo casa do governador e, parcialmente, o quartel do ajudante e caserna das praças. Por outras palavras, foram criadas as condições que permitiam o alojamento da Marinha nos edificios tradicionais do forte, e a remoção das construções recentes, sem qualidade estética, e perturbadores da harmonia arquitectónica e funcional do sistema defensivo. O Castelinho podia assumir plenamente a sua natural função cultural e pedagógica. Só que, pela mão do Governo da Região Autónoma dos Açores e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, no interior é construída uma Pousada de Portugal, ficando do sistema defensivo do mais antigo edifício da cidade património mundial, referência monumental estruturante no processo da sua inclusão na lista de classificação da UNESCO, apenas as muralhas e os modestos alojamentos castrenses, transformados em mais valia ornamental do empreendimento turístico.

Texto de : Manuel Faria 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Peter Francisco (1760-1831)



Peter Francisco

(Pedro Francisco Machado)


Nasceu no Porto Judeu, Concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, a 9 de Julho de 1790 e faleceu em Richmon, Estados Unidos da América, a 16 de Janeiro de 1831. Referido como Peter Francisco nos EUA, destacou-se como herói na Guerra da Independência dos EUA.

Conhecido como "O Gigante da Virgínia", o "Gigante da Revolução" e, ocasionalmente, como o "Hércules da Virgínia", é homenageado pela comunidade portuguesa em New Bedford (Massachusetts) a 15 de Março.


Lutou ao lado de George Washington e do marquês de Lafayette, tendo sofrido numerosos ferimentos em combate, em defesa da independência de sua pátria de adopção.





A sua biografia está cercada de uma aura de lenda, sendo-lhe atribuídos feitos extraordinários. As suas origens são relativamente obscuras. Foi encontrado em tenra idade (presumivelmente cinco anos), uma tarde em 23 de Junho de 1765, a chorar, nas docas de City Point, na Virgínia. Quando se acalmou o suficiente para falar, percebeu-se que não falava o inglês e sim uma língua parecida com o português. Embora nada possuísse que o identificasse, as suas roupas eram de boa qualidade e, na fivela do cinto, liam-se as iniciais "P.F.".
Eventualmente foi capaz de contar a sua história: afirmou que "estava num local lindo com palmeiras, a brincar com a sua pequena irmã, quando dois homens grandes apanharam ambos. A irmã conseguiu libertar-se dos captores mas o menino não, e foi levado para um navio grande que acabou por conduzí-lo a City Point.

Certidão de Baptismo


Sobre as suas origens, o investigador John E. Manahan identificou que, nos registos de nascimentos da ilha Terceira, nos Açores, existe um Pedro Francisco nascido em Porto Judeu, a 9 de Julho de 1760.
A criança foi acolhida pelo juiz Anthony Winston, de Buckingham County na Virgínia, um tio de Patrick Henry. Quando atingiu idade suficiente para trabalhar, foi instruído como ferreiro, devido ao seu enorme tamanho e força (ultrapassou os 1,98 metros e pesava cerca de 120 kg). O escritor Samuel Shepard, que observou o jovem no seu trabalho, registou:

"Os seus ombros são como os de uma antiga estátua, como uma figura da imaginação de Miguel Ângelo, como o seu Moisés mas não como David. A sua queixada é longa, forte, o nariz imponente, a inclinação da testa parcialmente ocultada pelo seu cabelo negro de aspecto desgrenhado. A sua voz era suave, surpreendendo-me, como que se um touro ganisse."

Com os rumores de secessão alastrando-se entre a população da Virgínia, Francisco alistou-se aos 16 anos no 10º Regimento da Virgínia. Estava presente, junto à igreja de St. John em Richmond, quando Patrick Henry fez o seu famoso discurso "Liberdade ou Morte". Em Setembro de 1777, serviu sob o comando do general George Washington em Brandywine  na Pensilvânia, onde as forças dos colonos tentaram deter o avanço de 12.500 soldados britânicos que avançavam em direcção à Filadélfia. Não está claro se foi nesse momento que o jovem Francisco salvou a vida a Washington, apesar de se reconhecer que o jovem foi aqui alvejado. Alguns relatos afirmam que ele se tornou guarda-costas pessoal do general, enquanto outros dão conta de que ele era apenas um soldado agressivo e vigoroso, que lutou a seu lado.

Foi Washington quem determinou que uma espada especial, adequada ao seu tamanho, fosse criada para Francisco. Foi esta espada, com 6 pés (1.82m) de comprimento, que aterrorizou os britânicos. Washington terá eventualmente se referido posteriormente a Francisco:

 "Sem ele teríamos perdido duas batalhas cruciais, provavelmente a guerra e, com ela, a nossa liberdade. Ele era verdadeiramente um Exército de um Homem Só."






Após servir nesta comissão por três anos, Francisco realistou-se e combateu numa das maiores derrotas sofridas pelas forças dos colonos no conflito.





Na batalha de Camden (16 de Agosto de 1780), terá realizado um dos seus mais famosos feitos, quando, após os colonos se terem retirado diante dos britânicos, deixando no terreno uma imensa peça de artilharia com aproximadamente 1000 libras, afirma-se que Francisco a colocou às costas e a terá transportado para que não caísse nas mãos do inimigo. Em homenagem a esse feito, os correios dos Estados Unidos emitiram em 1974 um selo comemorativo.
Em pouco tempo, as histórias a respeito de Francisco foram sendo espalhadas e as suas histórias de bravura e vigor foram divulgadas em muitos jornais e romances à época, inspirando ânimo e incentivando a resistência entre as forças dos colonos.
Embora a maior parte dessas histórias careça de fontes documentais, Frances Pollard, da Virginia Historical Society, que apresentou uma exposição sobre o conflito que incluiu uma secção sobre Francisco com o colete gigante que costumava usar, afirmou:

"Acho que uma das coisas que tive dificuldade em documentar foi a sua participação em muitas das batalhas onde realizou feitos históricos. Nunca consegui separar a lenda dos factos, nem encontrar provas da sua participação em algumas destas batalhas. Acho que existe alguma mitologia associada a alguém com aquele tamanho tão fora do vulgar."

Posteriormente, em 1850, o historiador Benson Lossing registou no "Pictorial Field Book of the Revolution" que

 "um bravo virginiano deitou abaixo 11 homens de uma só vez com a sua espada. Um dos soldados prendeu a perna de Francisco ao seu cavalo com uma baioneta. E enquanto o atacante, assistido pelo gigante, puxava pela baioneta, com uma força terrível, Francisco puxou da sua espada e fez uma racha até aos ombros na cabeça do pobre coitado!"

Mais tarde, enquanto se recuperava, Francisco tornou-se amigo de Lafayette.



Francisco sofreu mais seis ferimentos enquanto a serviço do seu país, tendo morto um número incerto de britânicos e sido condecorado ao final do conflito por generais estadunidenses que se certificaram de que ele estava presente na rendição do general Charles Cornwallis e dos britânicos em Yorktown, a 19 de Outubro de 1781.
De acordo com a tradição, após o conflito, devido às lendas criadas em torno de si, muitos aventureiros foram ao seu encontro para testarem a sua força. Neste período foi apelidado de "o homem mais forte da América", enquanto as crianças aprendiam sobre a sua forças e bravura nas escolas primárias do novo país.
Eventualmente tornou-se um homem abastado, sendo nomeado beleguim da Câmara de Representantes da Virgínia, mantendo-se uma figura lendária até à sua morte. Foi sepultado com honras militares no Cemitério Shockoe Hill em Richmond, na Virgínia.
A 18 de Janeiro de 1831, o periódico "Richmond Enquirer", anunciou a sua morte:

 "Exmo. Sr. Peter Francisco, beleguim da Câmara de Representantes e soldado da Guerra da Revolução Americana, enaltecido pela sua coragem intrépida e pelos seus feitos brilhantes."

Uma capa de uma edição de 2006 da "Military History" levantou uma questão de retórica que sugeria que ele poderia ter sido o maior soldado da história americana. A seu respeito, Joseph Gustaitis, na American History Magazine, referiu:

"Um Hércules de 6 pés e meio de altura que empunhava um sabre de seis pés de comprimento, Peter Francisco foi provavelmente o soldado mais extraordinário da Guerra da Revolução Americana".

    quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

    CTT - 500 anos (1520-2020)





    Criados em 1520, os correios foram escrevendo a sua história ao longo de vários séculos, reflectindo o desenvolvimento do país.


    Em Évora, por carta régia datada de 6 de Novembro de 1520, ordenava D. Manuel: “que havendo nós respeito aos serviços que temos recebidos e ao diante esperamos receber de Luís Homem, Cavaleiro de nossa Casa, e por ser pessoa que no Ofício de Correio-Mor de nossos Reinos nos saberá bem servir e assim a todos mercadores e pessoas que quiserem enviar cartas de umas partes para outras, e com todo recado, fieldade e segredo que para tal caso cumpre, e querendo-lhe fazer graça e mercê: temos por bem e o damos novamente, daqui em diante, por Correio-Mor em nossos Reinos”. Culminava dessa forma o processo iniciado anos antes, quando Luís Homem servira como soldado no Oriente e depois como mensageiro real pela Europa afora, vendo agora os seus serviços recompensados através de um novo estatuto social. Passava não só a ter um título de nobreza, como Cavaleiro da Casa Real, mas recebia ainda um ofício público inédito em Portugal e claramente inspirado no modelo da Família Taxis. Conforme afirmava D. Manuel na mesma carta régia: “queremos e nos praz que ele tenha com o dito ofício, todos os privilégios, graças e liberdades que os Correios-Mores tem nos outros reinos onde os há e soi de haver”.


    O Correio-mor era um ofício postal criado pelo rei de Portugal D. Manuel I em 1520. O cargo esteve sujeito à nomeação do rei até 1606, quando Filipe II, vendeu-o a Luís Gomes da Mata Coronel, primeiro correio-mor das Cartas do Mar, pela quantia de 70.000 cruzados, dando início à primeira dinastia postal do mundo. A família Mata manteve esse monopólio por quase dois séculos, procurando modernizar os serviços. No entanto, somente os mais abastados tinham acesso a este serviço, que era caro e ineficiente. O correio-mor prestava o serviço por encomenda, não constituindo uma actividade regular, devido principalmente à má conservação das estradas e das condições climáticas, uma vez que as cartas e as encomendas eram entregues a pé ou a cavalo. Os destinatários de além-mar, principalmente do Brasil, a mais rica colónia, tinham de se conformar com a morosidade das rotas marítimas e sua fragilidade. A nova conjuntura social portuguesa surgida no final do Séc. XVIII, levou a incorporação do serviço postal pela Coroa , estatizando-o em 1797 por decreto da rainha D. Maria I, com o intuito de tornar tal ofício mais eficiente e público. Desta forma, terminou a actividade postal lucrativa do correio-mor.

    Mensageiro a cavalo (séc. XVI)

    Desde que a ideia de distribuir o correio ao domicílio em Lisboa surgiu pela primeira vez, no início do século XIX, foram precisos 20 anos e um investimento de, pelo menos, 1709$85 réis na “denominação das Ruas de Lisboa e Numeração das Portas em Letras D’Estanho”, como refere o Mapa de Despesas Extraordinárias dos Correios de 1802.

    Distribuição Domiciliária (séc. XIX)

    O que hoje parece óbvio - distritos postais, ruas com casas e prédios organizados e cadastrados, com nome e números - foi uma novidade introduzida pelos Correios em 1802, mas a tarefa revelou-se gigantesca e só em 1821 a distribuição do correio em casa se tornou realidade para os lisboetas. Até essa data, os destinatários das cartas eram divulgados em lista afixada publicamente, que cabia aos interessados consultar. Afinal de contas, mesmo numa cidade pequena como Lisboa, uma carta remetida apenas com o nome do destinatário e a “terra”, como era hábito na época, tornava a sua entrega por mão própria uma missão impossível, segundo explica José Luís Vilela, no artigo “O Correio em Portugal”, publicado em 1993 na “Correios em Directo”.




    Ainda assim, quando a distribuição domiciliária de correio na capital se tornou uma realidade, continuava a caber aos interessados no serviço inscreverem-se previamente no Correio Geral, pagando uma taxa adicional (em cima do custo do serviço postal, que era ainda assegurado pelo destinatário e não pelo remetente).





    D. Manuel I (1520) - Criação do Correio Público
    Apesar deste estado de coisas, a qualidade do serviço postal já estava a anos-luz dos primórdios, quando, em 1520, o Rei D. Manuel I instituiu o ofício de Correio-Mor. Com o país em plena epopeia dos Descobrimentos, fazia falta um sistema de correio público organizado e confiável, que permitisse tratar com celeridade (a possível para a época) de assuntos políticos, militares e comerciais. Coube a Luís Homem, cavaleiro do rei, a honra de inaugurar o ofício, que se manteve de nomeação régia por mais de oitenta anos.



    Foi no domínio Filipino que este foi “privatizado” por 70 mil cruzados, ao marquês Luís Gomes da Mata, como revela o documento “Vencer a Distância – Cinco Séculos dos Correios em Portugal”, da Fundação Portuguesa para as Comunicações (FPC).

    Foi nas mãos dos Gomes da Mata – que tinham o seu quartel-general no Solar dos Matas, ou palácio do Correio-Mor, em Loures – que a exploração do correio do reino se manteve durante dois séculos. Apesar do carácter público, a verdade é que a utilização do serviço restringia-se essencialmente à coroa, à nobreza e aos homens de negócios (a generalidade da população continuava a utilizar os almocreves e recoveiros que andavam de terra em terra), e este  realizava-se à medida das solicitações dos clientes, sem critérios de regularidade. Os envios eram a pé ou a cavalo (uma ligação Lisboa/Braga não demorava menos do que sete dias), ou de barco, se o destino fosse além-mar, pelo que eram demorados (dias, semanas ou meses) e dependiam das condições de segurança e atmosféricas.


    O desempenho dos Gomes da Mata, que já eram uma das famílias mais ricas do reino e mais enriqueceram com a exploração do correio, não satisfazia as exigências de um serviço cujo fluxo não parava de crescer, mesmo em termos internacionais, por força de convénios postais assinados com o Reino Unido e a Espanha. As críticas agudizaram-se e o cargo foi extinto. Mas não sem que antes Manuel José da Maternidade Mata Coutinho, 11º Correio-Mor, se visse compensado com o título de conde, rendas vitalícias para si, para a sua mãe e para cada uma das quatro irmãs e uma pensão ao irmão até que este obtivesse a comenda de graça na Ordem de Malta.


    D. Maria I (1797) - Alvará do Serviço Público de Correio
    Uma vez incorporada a responsabilidade da distribuição postal na Fazenda Real, a rainha D. Maria I nomeou José Diogo Mascarenhas Neto como 1º Superintendente Geral dos Correios da Coroa. E um ano depois, em 1798, publicava-se um documento revolucionário para a época: a “Instrução para o estabelecimento das diligências entre Lisboa e Coimbra”, que deu origem à primeira carreira das carruagens da correspondência em Portugal (e à primeira carreira terrestre para transportes públicos em Portugal). Estavam lançadas as bases para um serviço regular de transporte e entrega de correspondência… mas só às segundas, quartas e sextas. Nesses dias, às cinco da manhã, uma diligência saía de Lisboa, enquanto, à mesma hora, outra partia de Coimbra, num percurso que, com pernoita, só terminava às 21 horas do dia seguinte. Ainda assim, foi preciso mais meio século até que se estabelecessem carreiras regulares da Mala-Posta em todo o país, sendo a mais emblemática a que ligava Lisboa ao Porto, em 34 horas.




    Se a circulação de notícias esteve sempre dependente da evolução das vias de comunicação e dos meios de transporte, o período histórico conhecido como Regeneração foi determinante em todos estes domínios.




     A sua figura mais emblemática, o ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Fontes Pereira de Melo, pôs em marcha um processo de reconstrução das linhas viárias, de construção das linhas de caminhos-de-ferro, das carreiras regulares de barcos a vapor e dos principais portos, e criou a primeira linha telegráfica do país. O país conheceu uma nova fase de desenvolvimento económico, e os Correios um desenvolvimento ímpar.


    D. Maria II (1853) - Os primeiros selos postais

    Um dos primeiros marcos foi, em 1853, no reinado de D. Maria II, a emissão do primeiro selo postal, precisamente com a efígie da rainha. Os trabalhadores dos Correios passaram a ser remunerados pelo Estado, que passou a explorar as estações postais, estabelecendo-se correios diários para as capitais de distrito e para a Europa e envios durante a semana para as sedes de concelho. O quadro de pessoal cresceu rapidamente, recorda José Luís Vilela. Se em 1850 os correios teriam cerca de 151 funcionários, após a reforma de 1852 o número subiu para 267 e foi crescendo consistentemente.


    Na década seguinte, o serviço postal deu novo salto qualitativo com a criação da ambulância-postal ferroviária, que durante mais de um século transportou cartas e volumes para todo o território nacional. Em 1880, o serviço postal viveu uma profunda reorganização com a fusão dos Correios e Telégrafos numa única Direcção-geral, a dos Correios, Telégrafos e Faróis. O prestígio entretanto alcançado pelos correios portugueses permitiu que Lisboa acolhesse, em 1885, o congresso da União Postal Universal (organismo representativo de vários serviços de correios mundiais, com sede na Suíça, criado em 1874 por 22 países, entre os quais Portugal). Já à beira do século XIX - em 1893 – foi criada a Posta Rural, que permitiu que a correspondência passasse a chegar aos locais mais remotos do país, tornando o serviço postal verdadeiramente acessível a toda a população.


    O ano de 1911 ficou marcado pela constituição da Administração-geral dos Correios, Telégrafos e Telefones, com autonomia financeira e administrativa. Um formato que se manteve no Estado Novo, que apostou na criação de estações dos correios em todo o território nacional. Depois da revolução que resultou da introdução do comboio, seguiu-se a flexibilidade proporcionada pelo automóvel. As auto-ambulâncias entraram em funcionamento em 1952, criando-se um modelo de estações itinerantes que perdurou até à década de 80 do século XX. Na década de 60 a troca de correspondência com o estrangeiro, e em particular para África, passou a fazer-se de avião. Foi precisamente nesta década que o número de utentes aumentou vertiginosamente, criando novos graus de exigência. Assim, em 1970 os correios passaram a empresa pública, CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal, que nesta época englobava, além do serviço postal, a actividade telefónica e telegráfica. Nessa época era a terceira maior empresa do país em volume de vendas e a maior empregadora nacional, com mais de 45 mil empregados.


    Nos anos seguintes a empresa viveu outro marco histórico, que foi a introdução, em 1978, do código postal de quatro dígitos (que passariam a sete em 1998) que facilitaram a identificação dos concelhos dos destinatários da correspondência, permitindo ultrapassar problemas de endereçamento e toponímia. Muitos se lembrarão do slogan “Código Postal, Meio Caminho Andado”, mas poucos saberão que essa foi uma das campanhas de comunicação mais caras divulgadas até à data em Portugal.

    Ainda nos anos 80, a empresa inaugurou a sua rede informática e, pouco depois, lançou o serviço de cobranças postais (informatizado), a cargo dos Serviços Financeiros Postais.





    Na década seguinte, os CTT separaram definitivamente as águas entre as Telecomunicações e os Correios e em 1992 converteram-se em sociedade anónima detida pelo Estado. Em 2000 assinaram com o Estado a concessão do serviço universal postal (a obrigatoriedade de assegurar a troca de correspondência em todo o país), e cedo perceberam a necessidade de fazer face aos progressos tecnológicos que começavam a ditar a queda de procura do serviço postal tradicional, além de serem confrontados com a liberalização do sector postal imposta pelas regras comunitárias.





















    Hoje, tal como nos anos 60, a imagem de um mensageiro a cavalo continua a estar presente no logotipo da empresa. 


    Texto (parcial) de: ana.brito@publico.pt










    Os Correios de Portugal (CTT) estão a comemorar, através de emissões filatélicas, os seus 500 anos de existência. As emissões filatélicas que registam a efeméride, começaram em 2016, tendo o 1.º grupo circulado a 10 de Outubro.
    2016 - 1.º grupo

    2017 - 2.º grupo 



    2018 - 3.º grupo 






    A 28 de Setembro de 1898, no reinado de D. Carlos, os CORREIOS E TELEGRAPHOS
     foram homenageados e agraciados com a medalha de
     BOM SERVIÇO E EXEMPLAR COMPORTAMENTO.





    A emissão filatélica de 2019

     (4.º grupo)
    A nova emissão filatélica mostra a evolução dos emblemas dos CTT em 1880, 1936, 1953 e 1964 e um bloco composto por dois selos com os símbolos de 1991 e 2015. Foi distribuída, durante a cerimónia, num folheto que contou com o design do AF Atelier e com a impressão da Duocor – Artes Gráficas.


    selo do logotipo de 1880 a 1936, da Direcção-Geral dos Correios Telégrafos e Faróis é representado por uma carta ao alto, atravessada de ambos os lados por três raios eléctricos, tendo na parte superior a Coroa Real.
    Estes elementos pretendiam simbolizar o Correio, através da carta; a tutela do Estado, através da coroa real; e, finalmente, os Telégrafos, através dos raios representativos da electricidade/telegrafia.
    O logotipo de 1880 mantendo as armas reais, símbolo das instituições públicas, aproximava a marca das duas grandes actividades desenvolvidas pela Direcção-geral: o Correio e os Telégrafo. Neste selo há um desenho, a aguarela, de fardamentos dos funcionários das Ambulâncias Postais Ferroviárias e da Posta Rural e o relatório do Director Geral dos Correios, Telegraphos, Pharoes e Semaphoros, relativo ao ano de 1889. 


    selo do logotipo de 1936, mostra o emblema que foi aprovado na altura e que representava o escudo português, armado lateralmente com os raios que simbolizavam as Comunicações (Telegráficas e Telefónicas) encimando a esfera armilar, onde se destacavam as iniciais CTT; mostra-nos também o Edifício da Estação de Correios de Moura, de 1945.

    selo do logotipo de 1953 é prova da evolução do símbolo, que consideravam na altura estar “ultrapassado pela evolução do gosto”, tendo o anterior sido substituído por um com referência à actividade do Correio, nomeadamente a “imagem equestre de um postilhão, embocando a buzina”, logo da autoria do mestre Jaime Martins Barata, que é conhecido pela população portuguesa e que ainda hoje continua a ser utilizado, há mais de 60 anos. Neste selo está também representada uma auto-ambulância postal Borgward, de 1953.



    selo do logotipo de 1964 surgiu em Janeiro, na edição do Boletim Oficial dos CTT, com um desenho mais moderno, uma imagem do mensageiro a cavalo, em que a postura dos intervenientes resulta numa maior sensação de movimento. Este logo foi utilizado até 1991. Também neste selo podemos ver a imagem de um cartaz publicitário da implementação do Código Postal, de 1978.


    bloco filatélico mostra-nos o logo de 1991, no selo à esquerda. No inicio da década de 1990 houve grandes alterações no Sector da Comunicação, tendo sido separados em 1992, dos ramos de actividade de Correios e Telecomunicações, dando origem a duas empresas: os CTT – Correios de Portugal, S.A. e a Portugal Telecom, S.A.
    José Brandão criou então uma imagem mais actual mantendo os elementos essenciais, o cavalo, o mensageiro a tocar a corneta, a carta na mão e o vermelho. Está também representado no bloco um cartaz publicitário do lançamento do Correio Azul e uma caixa Postal de Correio Azul.


    Ainda no bloco filatélico, à direita o logo actual dos CTT, desde 2015. Este logotipo foi feito após a conclusão total do processo de privatização, tendo por base duas premissas: o respeito pelo património da marca e a sua actualização, mais condizente com a realidade dos dias de hoje. O cavalo deixa de estar a trote e passa a estar a galope e a sigla CTT ganha mais protagonismo e solidez. Neste bloco podemos também ver a imagem da sede do Banco CTT.
    Por fim, o fundo do bloco filatélico é a Carta de Confirmação do Ofício de Correio-Mor, mandada passar por D. José I em 1756 a José António de Sousa Coutinho da Mata com a transcrição dos alvarás anteriores, do mesmo ofício, destruídos pelo terramoto de 1755; e uma corneta de Distribuidor Rural, de 1893.


    Aguardemos o 5.º grupo em Outubro de 2020.