sábado, 28 de março de 2026

Alexandre Herculano (1810-1877)





Alexandre Herculano



Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo  nasceu em Lisboa a 28 de Março de 1810 e faleceu em Santarém, Quinta de Vale de Lobos,  a 18 de Setembro de 1877.
Foi um escritor, historiador, jornalista e poeta português da era do romantismo.
Como liberal que era, teve como preocupação maior, estabelecida nas suas ações políticas e seus escritos, sobretudo em condenar o absolutismo e a intolerância da coroa no século XIX para denunciar o perigo do retorno a um centralismo da monarquia em Portugal.


A 18 de março de 1832, Alexandre Herculano chegava à Ilha Terceira. Herculano passou 18 dias em solo terceirense, onde completou os seus 22 anos, tendo depois embarcado, a 6 de abril, para S. Miguel, onde esteve 82 dias. Durante 100 dias, esteve nos Açores, lutando pelo Liberalismo e pelos ideais que acreditava. Alexandre Herculano foi um historiador, escritor e político do século XIX. Figura indelével do liberalismo e do romantismo português.

Cedo demonstrou a sua aptidão pelas letras. Estudou Humanidades no colégio dos Oratorianos S. Filipe de Néry, instalado no Convento das Necessidades. O pai ficou cego e Herculano teve de desistir de entrar na Universidade, fazendo um curso prático de Comércio, estudos de Diplomática (Paleografia) e de Línguas, como o inglês, o francês, o italiano e o alemão, ou seja, uma formação mais clássica. Assim, entrou em contacto com escritores românticos, que leu, admirou e traduziu. Com inspiração no estilo romântico, começou a escrever poesia e frequentou os salões da Marquesa de Alorna. Acabou por conhecer António Feliciano de Castilho, inventor do Método Castilho de Leitura e responsável pela criação das escolas gratuitas, umas de instrução primária, outras de instrução secundária.





O sangue da juventude fervilhava e o sentimento pelos ideais da revolução francesa cresciam e consolidavam-se em Herculano. Em 1831, com apenas 20 anos, participou na tentativa falhada de derrube do regime absolutista de D. Miguel. Acabou por exilar-se em Inglaterra e depois em França, dedicando-se ao estudo na Biblioteca de Rennes, entrando em contacto com os autores franceses Thierry, Guizot, Victor Hugo e Lamennais, que fortemente o influenciaram. A sua personalidade literária começava a formar-se.

Em março de 1832, Herculano entusiasmado com a oposição absolutista na Ilha Terceira, onde na cidade de Angra se tinha criado um Conselho de Regência Liberal do Reino, embarcou para os Açores. Queria apoiar os militares e, sobretudo, restaurar o trono para D. Maria II. Partindo de Belle-Isle-en-Mer, integrado numa divisão de emigrados políticos portugueses, da qual fazia ainda parte Almeida Garrett, chegou à Terceira a 18 de março, poucos dias depois de D. Pedro IV (que chegara a 3 de março). Herculano, em Scenas de um ano da minha vida e apontamentos de viagem, chegou a apelidar a Ilha de "rochedo da salvação", tamanha importância que tinha para o Liberalismo português.





No dia de 6 de abril, Alexandre Herculano partia da Ilha Terceira, tendo depois embarcado para S. Miguel. Durante 100 dias, esteve nos Açores, lutando pelo Liberalismo e pelos ideais que acreditava. Herculano foi um dos 7 500 “Bravos do Mindelo”, que desembarcaram na praia de Arnosa de Pampelido. Participou, assim, no cerco do Porto. Em recompensa pelo seu empenho como soldado, foi nomeado, em 1833, em 2º bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto, procedendo à sua organização.

Após o fim da Guerra Civil, Herculano colaborou no Repositório Literário (1834-1835) com vários artigos, em que teorizava o romantismo. Em 1836, seguiu-se a primeira série de A Voz do Profeta e no ano seguinte, fundou a revista O Panorama, que dirigiu (1837-1839), com o objetivo de divulgar a estética romântica, publicando as suas primeiras narrativas históricas. Em 1839, Herculano saiu d’O Panorama e foi nomeado bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda, tendo iniciado uma profunda pesquisa de fontes históricas, que resultou nas Cartas sobre a História de Portugal, e, mais tarde, os 4 volumes da História de Portugal, onde negou o “milagre de Ourique” (segundo o qual Deus tinha aparecido a D. Afonso Henriques, incentivando-o a vencer a Batalha de Ourique). Em 1844, publicou uma das suas obras de referência, o romance histórico Eurico, o Presbítero, onde falava da história dos amores entre Eurico e Hermengarda, na Península Ibérica do século VIII.












Alexandre Herculano chegou a ser eleito deputado pelo Porto em 1840, mas desiludido com a vida política, retirou-se para uma quinta em Vale de Lobos, nos arredores de Santarém, onde exerceu um autêntico magistério moral sobre o País, sobretudo devido ao carácter e aos valores que sempre defendeu ao longo da vida.





Alexandre Herculano em Vale de Lobos,
 sentado numa das cestas da apanha de azeitona.



D. Pedro II, imperador do Brasil, filho de D. Pedro IV, chegou a visitar Herculano na sua casa em Vale de Lobos, mostrando a importância simbólica do antigo soldado do pai. Alexandre Herculano morreu a 13 de setembro de 1877 e foi sepultado no Mosteiro dos Jerónimos. Deixou-nos vastíssima obra, essencial para o estudo do romantismo e do século XIX. Herculano foi um dos heróis do Liberalismo, e com o companheiro de viagem para a Terceira Almeida Garrett, foi uma das figuras fundadoras do romantismo em Portugal e um dos poucos que soube levar uma vida digna do estilo literário que tanto amava.


Texto de: Francisco Miguel Nogueira






Obras principais

Poesia

Teatro

  • A Crente na Liberdade - 1860
Drama histórico português em 3 atos.
Representou-se em Lisboa, em 1838, no teatro do Salitre.
Foi editado no Rio de Janeiro em 1862
  • Os Infantes em Ceuta – 1842

Romance

  • O Pároco de Aldeia (1825) - 1851
  • O Galego: Vida, ditos e feitos de Lázaro Tomé

Romance histórico

  • O Bobo (1128) – 1843 (eBook)
  • O Monasticon
  • Lendas e narrativas - 1851
    • 1.º tomo: (eBook)
      • O Alcaide de Santarém (950-961)
      • Arras por Foro de Espanha (1371-2)
      • O Castelo de Faria (1373)
      • A Abóbada (1401)
    • 2.º tomo: (eBook)
      • Destruição de Áuria: Lendas Espanholas (século VIII)
      • A Dama Pé de Cabra: Romance de um Jogral (Século XI)
      • O Bispo Negro (1130)[
      • A Morte do Lidador (1170)
      • O Emprazado: Crónica de Espanha (1312)
      • O Mestre Assassinado: Crónica dos Templários (1320)]
      • Mestre Gil: Crónica (Século XV)
      • Três Meses em Calecut: Primeira Crónica dos Estados da Índia (1498)]
      • O Cronista: Viver e Crer de Outro Tempo[

História

Opúsculos

  • Opúsculos I: Questões Públicas, Tomo I (eBook)
    • A Voz do Profeta (1836) (edição digital em Bibliotrónica Portuguesa)]
    • Teatro, Moral, Censura (1841)
    • Os Egressos (1842)
    • Da Instituição das Caixas Económicas (1844)
    • As Freiras de Lorvão (1853)
    • Do Estado dos Arquivos Eclesiásticos do Reino (1857)
    • A Supressão das Conferências do Casino (1871)
  • Opúsculos II: Questões Públicas, Tomo II (eBook)
    • Monumentos Pátrios (1838)
    • Da Propriedade Literária (1851-2)
    • Carta à Academia das Ciências (1856)
    • Mousinho da Silveira (1856)
    • Carta aos Eleitores do Círculo de Cintra (1858)
    • Manifesto da Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino (1858)
  • Opúsculos III: Controvérsias e Estudos Históricos, Tomo I (eBook)
    • A Batalha de Ourique:
      • I. Eu e o Clero (1850)
      • II. Considerações Pacificas (1850)
      • III. Solemnia Verba (1850)
      • IV. Solemnia Verba (1850)
      • V. A Ciência Arábico-Académica (1851)
    • Do estado das classes servas na Península, desde o VIII até o XII Século (1858)
  • Opúsculos IV: Questões Públicas, Tomo III (eBook)
    • Os Vínculos (1856)
    • A Emigração (1870-1875)
  • Opúsculos V: Controvérsias e Estudos Históricos, Tomo II (eBook)
    • Historiadores portugueses (1839-1840):
      • Fernão Lopes
      • Gomes Eanes de Azurara
      • Vasco Fernandes de Lucena - Rui de Pina
      • Garcia de Resende
    • Cartas Sobre a História de Portugal (1842)
    • Resposta às Censuras de Vilhena Saldanha (1846)
    • Da Existência e não Existência do Feudalismo em Portugal (1875-1877)
    • Esclarecimentos:
      • A. Sortes Góticas
      • B. Feudo
  • Opúsculos VI: Controvérsias e Estudos Históricos, Tomo IV (eBook)
    • Uma Vila-Nova Antiga (1843)
    • Cogitações Soltas de um Homem Obscuro (1846)
    • Arqueologia Portuguesa (1841-1843)
      • Viagem de Cardeal Alexandrino;
      • Aspecto de Lisboa;
      • Viagem dos Cavaleiros Tron e Lippomani
    • Pouca luz em muitas trevas (1844)
    • Apontamentos para a história dos bens da coroa (1843-44)
  • Opúsculos VII: Questões Públicas, Tomo IV (eBook)
    • Duas Épocas e Dois Monumentos ou a Granja Real de Mafra (1843)
    • Breves Reflexões Sobre Alguns Pontos de Economia Agrícola (1849)
    • A Granja do Calhariz (1851)
    • Projecto de Decreto (1851)
    • O País e a Nação (1851) [artigos publicados no jornal O Paiz]
    • Representação da Câmara Municipal de Belém ao Governo (1854)
    • Representação da Câmara Municipal de Belém ao Parlamento (1854)
    • Projecto de Caixa de Socorros Agrícolas (1855)
    • Sobre a Questão dos Forais (1858)
  • Opúsculos VIII (eBook)
    • Da Pena de Morte (1838)
    • A Imprensa (1838)
    • Da Escola Politécnica ao Colégio dos Nobres (1841)
    • Instrução Pública (1841)
    • Uma Sentença sobre Bens Reguengos (1842)
    • A Escola Politécnica e o Monumento (1843)
    • Um Livro de V. F. Netto de Paiva (1843)
  • Opúsculos IX: Literatura (eBook)
    • Qual é o Estado da Nossa Literatura? Qual é o Trilho que Ela Hoje Tem a Seguir? (1834)
    • Poesia: Imitação—Belo—Unidade (1835)
    • Origens do Teatro Moderno: Teatro Português até aos Fins do Século XVI (1837)
    • Novelas de Cavalaria Portuguesas (1838-40)
    • Historia do Teatro Moderno: Teatro Espanhol (1839)
    • Crenças Populares Portuguesas ou Superstições Populares (1840)
    • A Casa de Gonçalo, Comédia em Cinco Actos: Parecer (1840)
    • Elogio Histórico de Sebastião Xavier Botelho (1842)
    • D. Maria Teles, Drama em Cinco Actos: Parecer (1842)
    • D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna (1844)
  • Opúsculos X, Questões Públicas, Tomo VI
    • A Reação Ultramontana em Portugal ou A Concordata de 21 de Fevereiro (1857)
    • Análise da Sentença dada na Primeira Instância da Vila de Santarém acerca da Herança de Maria da Conceição (1860)
    • As Heranças e os Institutos Pios (s.d.)

Outras obras

  • De Jersey a Granville - 1831
  • Estudos sobre o casamento civil: por occasião do opusculo do sr. Visconde de Seabra sobre este assumpto - 1866 (Digitalizado em Google)





quinta-feira, 26 de março de 2026

Gervásio Lima (1876-1945)

Gervásio Lima


Gervásio da Silva Lima, escritor açoriano, com uma vasta obra em prosa e em verso que inclui contos, peças de teatro e ensaios de etnografia e de história, nasceu na Praia da Vitória em 26 de Março de 1876. Morreu em Angra do Heroísmo no dia 24 de Fevereiro de 1945.


1876 - 26 de Março - 2026
Bilhete-postal comemorativo
dos 150 anos do seu nascimento.










Perdeu o pai aos 5 meses de idade e viu-se forçado a ingressar no mundo do trabalho, logo após a conclusão dos estudos primários. Foi essencialmente um autodidacta, desenvolvendo desde cedo, e sem frequentar mais nenhuma escola, uma escrita cuidada e erudita e um notável acervo de conhecimentos sobre a historiografia local.





Residiu até 1914 na Praia da Vitória, onde fundou e dirigiu os periódicos “Cartão” (1903), “A Primavera” (1905) e “O Imparcial” (1907-1913). 






Com a publicação destes jornais e com o início da sua produção escrita, foi ganhando notoriedade no meio intelectual da ilha, o que lhe valeu ser contratado para a Biblioteca Municipal de Angra.










Fixou-se então em Angra do Heroísmo, onde iniciou uma carreira de 31 anos, como bibliotecário adjunto até 1917 e como bibliotecário de 1917 a 1945, o que lhe permitiu acesso permanente aos arquivos municipais e às obras existentes na Biblioteca Municipal. Naquela biblioteca procedeu à catalogação e ao estudo das mais de 3 000 obras de temática açoriana.







No campo da história não foi um investigador preocupado com o rigor científico dos temas tratados, escrevendo obras de pendor romântico, reveladoras do seu patriotismo e do amor à terra em que nasceu. Deu corpo e alma a heróis terceirenses, transformando-os em verdadeiros mitos populares.







Mantendo a actividade de jornalista, dirigiu os periódicos “O Democrata” (1914-1920), “ABC“ (1920) e “Cantos & Contos” (1935), colaborando igualmente noutros jornais.

Paralelamente estabeleceu uma vasta rede de contactos com academias e instituições científicas, o que o levou a ser sócio da Academia de Cádis, da Academia de Sevilha, da Sociedade de Geografia de Lisboa e das Sociedades de Geografia de Paris, de Genebra e de Itália.




Quando se iniciou o movimento intelectual que pretendia criar academias nas cidades açorianas, foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira.

Também se empenhou na divulgação de factos e personagens ligados à história da Terceira, organizando eventos comemorativos de acontecimentos históricos, jogos florais e homenagens a terceirenses ilustres. Interessado pela etnografia e pelo folclore, recolheu e publicou textos de cantadores populares, contos e tradições orais da ilha.


A sua obra, pela divulgação que teve, foi fundamental para a construção de uma memória histórica terceirense e açoriana.




O seu prestígio era tal que lhe foram prestadas homenagens públicas pelas Câmaras Municipais de Angra do Heroísmo (1928) e da Praia da Vitória (1934), que incluíram a colocação de placas comemorativas nas casas em que viveu em ambas as localidades. Foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago.



Homem generoso, entregava para fins de caridade parte do produto da venda de algumas das suas publicações. Nos finais da década de 1930, viu-se obrigado a pedir uma pensão ao Estado, pois os rendimentos que auferia não eram suficientes para se sustentar a ele e a sua mãe. Faleceu pobre.

As cidades de Angra e Praia recordam Gervásio Lima na sua toponímia.

Fonte: Blog Topatudo







sábado, 21 de março de 2026

Maria de Lurdes Freitas (Poetisa)




Eng.ª Fátima Amorim, Presidente da CMAH
A poetisa Maria de Lurdes Freitas

Dr. Vítor Rui Dores, Autor do Prefácio e apresentador do livro
Eng.ª Fátima Amorim, Presidente da CMAH
Maria de Lurdes Freitas, a autora


Dr. Vítor Rui Dores
Apresentador do livro e autor do prefácio.





David Freitas
Lendo o poema "Princesa do Mar"


José Duarte Soares
Lendo o poema "Danças da Vida"




António Armindo Couto
Lendo o poema " Angra, Cidade Antiga"

Ana Ormonde
Lendo o poema "Confidências"

Ana Maria Oliveira
Lendo o poema "Saudade"

Carla Félix
Lendo o poema "Apelo"


Atuação de Joel Moura

 O Vídeo => A Alma dos Poetas




Atuação de Evandro Menezes








Oferta da partitura da música para o poema

 "Cravos de Abril (50 anos)"

Música: Evandro Meneses
Intérprete: Sónia Pereira




Clicar no vídeo e ligar o som.











Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo







A autora 
Agradecimento


Ontem (26-11-2025) foi o dia em que o meu novo livro - Outro Canto - viu a luz do dia. Partiu e deixou de ser meu, agora é de quem o quiser ler.

O lançamento aconteceu no salão nobre dos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo e foi presidido pela ilustre presidente da edilidade Engª Fátima Amorim. A apresentação, a todos os títulos brilhante, esteve a cargo do Dr Victor Rui Dores. Leu-se poesia e dois emocionantes momentos musicais embelezaram o acontecimento.

A todos os que me deram a honra de partilhar comigo estes momentos, a minha gratidão


A poetisa recebe das mãos do filho Arnaldo e da nora Sónia
este lindo livro recheado de flores.



Reportagem da VITEC AZORES

Clicar no link: OUTRO CANTO












Maria de Lurdes de Mendonça Ramos de Freitas

nasceu em Fevereiro de 1950, na localidade da Fazenda, concelho de Santa Cruz das Flores. Reside na ilha Terceira desde 1983.

Iniciou a sua vida profissional aos 19 anos e desempenhou diversos cargos de chefia administrativos na administração pública. Aposentada desde 2005, passou a dedicar-se ao coleccionismo e à escrita. Autora de imensos poemas, escritos ao longo da vida.



PREFÁCIO



Os poetas têm razões que a razão desconhece.
Profanadores de todos os saberes, eles sabem que as palavras se corrompem no comércio quotidiano das gentes. Por isso recuperam, transfiguram e subvertem essas palavras. Porque sabem que a poesia não explica, implica; o poema não afirma, sugere. O significado da imagem poética remete-nos sempre para um esfíngico segredo e para uma forte ambiguidade. Nesta perspectiva, a poesia será sempre uma tentativa de compreender o incompreensível.


Bilhete Postal Máximo
Ao leitor é lançado um desafio: o de descortinar o lado de lá da neblina do verso. Isto é, ele terá de ser capaz de decifrar e descodificar o(s) sentido(s) do poema, para que assim aconteça a fruição do texto. Ao poeta cumpre o ofício de lapidar a palavra exacta e essencial, e nela encontrar os ritmos e as pulsações, os silêncios e as sonoridades. Sendo um (incansável) trabalhador da palavra, ele não deixará nunca de observar e dissecar a sua vida (a sua alma) – como Vernet  agarrado ao mastro do navio para estudar a tempestade…
Selo comemorativo
Florentina de há muito radicada na ilha Terceira, Lurdes Freitas é uma “andarilha” contemplativa e impressionista que, qual outro Vernet, empreende neste livro de estreia poética, De basalto e mar (2019), uma viagem interior numa espécie de inquérito ao subconsciente. E, “alma divagante”, colhendo impressões do que vê, sente e pensa, ela procura na viagem não o destino, mas a sua própria natureza. Isto é: a viagem como forma de procura e de descoberta, sendo a errância a busca do sonho e da felicidade possível.
Livro de sonhos e memórias, de olhares e impressões, de entimentos, emoções e estados de alma, estamos perante uma poética da intimidade, da expressão lírica, com versos certeiros e harmoniosos, de boa ressonância musical.



Todas as ilustrações são do artista
Helder Tavares
          De resto, a poesia tem, na sua origem, uma vocação cantante. Foi assim com os Gregos. Foi assim com a poesia trovadoresca. E, nesta matéria, carradas de razão tem Paul Eluard: “A poesia é a linguagem que canta”.

Numa escrita insulada e telúrica, De basalto e mar é atravessado por três grandes linhas de força: a ilha (enquanto terra-mater insular), a solidão e o amor.

Espaço imagético e afectivo, a ilha, geradora de mitos, mistérios e fascínios, está sempre presente nos versos desta autora, que estabelece com a ilha uma identidade, uma identificação e uma comunhão. E, através do acto de nomeação, ela dá verdade e simbolismo poético à ilha: “mar”, “maré cheia”, “vazante”, “espuma”, “basalto”, “lava”, “cais”, “praia”, “búzios”, “conchas”, “nuvens”, “gaivota”, “garajau”, “ganhoa”… Todos estes elementos não estão aqui a servir de mero décor – funcionam como uma celebração poética da vida.

Carimbo comemorativo
Para além desta captação sensorial da ilha, há também um sopro de solidão, silêncio e saudade que atravessam as páginas deste livro. À solidão está associada o amor perante o qual o eu poético é um ser solitário. Buscando o inatingível e aspirando ao impossível estado de alma, a poeta idealiza o amor como um sentimento absoluto; depara, porém, com um amor perdido, sempre interiorizado e pressentido…
“À deriva” e a contas com a usura do tempo (cf. o poema “Eternidade”), o sujeito da enunciação fala-nos de uma inquietação metafísica e existencialista, de que é exemplo o poema “Dúvida” e que assim começa: “Hoje dei por mim a pensar/ se existo, como supunha,/ se estou no fim, no início,/ ou no meio de coisa nenhuma” (pág…..). Por outro lado, estamos perante um jogo de máscaras e espelhos em que se questiona o enigma, o mistério e as contradições da existência humana. (Cf. “Circo de fogo”, excelente poema).

De basalto e mar remete-nos para a consciência do próprio acto poético (cf. o poema “Ideal”) em que “Outono” rima com “abandono”, numa poética que dialoga com outros autores (Fernando Pessoa, António Aleixo, Vitorino Nemésio) e se confronta e defronta com as quotidianas vicissitudes do mundo – renúncia às verdades ilusórias, denúncia dos males que nos rodeiam (Cf. o “Poema a uma baleia que comia plástico”).
Bilhete Postal


São versos bem carpinteirados, forjados à luz do real e da fantasia, do vivido e do sentido. Gostei incondicionalmente desta poesia despojada, espontânea e emotiva, iluminada e fascinante, de grande serenidade, sem artifícios e sem desvios, com enorme poder de irradiação e encantamento. Apreciei, como acima referi, a incidência no elemento vocal e sonoro desta linguagem poética (sobretudo a musicalidade das sílabas tónicas). Acima de tudo encontrei, neste livro, o lado silencioso de Lurdes Freitas, que escreve com os cinco sentidos e com os olhos da memória.

Temos Poeta!



Victor Rui Dores




Bilhete Postal comemorativo

Rubricado por:

Dr. Victor Rui Dores - Que prefaciou e foi o apresentador
Sr. José Gaspar de Lima - Vice-presidente da CM de Angra do Heroísmo
Sr. Alcino Meneses - Presidente da Direcção da AHBV de Angra do Heroísmo
Sra. Maria de Lurdes Freitas - autora do livro
António Armindo Couto - Presidente da Direcção do NFAH

















02-02-2020 
(Sessão de Autógrafos)