sábado, 18 de julho de 2026

Padre António Vieira (1608-1697)


Séc. XVII - Retrato de Arnold Van Westerhout
Padre António Vieira
Nasceu a 6 de Fevereiro de 1608 em Lisboa
Faleceu a 18 de Julho de 1697 em Salvador (Brasil)


História de um Naufrágio nos Açores


Em 1654, o célebre orador jesuíta, Pe António Vieira, sofre um naufrágio junto da ilha do Corvo, sendo salvo in extremis por corsários holandeses. É graças a este naufrágio que a devoção do terço se inicia nas ilhas dos Açores.

Logo após a sua subida ao trono, aquando da restauração de 1640, D. João IV encontra um Império Português em franca decadência. Com efeito, um mês e meio depois da conjura de 1 de Dezembro, Malaca cai em poder dos Holandeses. Mesmo após a celebração do Tratado de Aliança de 12 de Junho de 1641, os Estados Gerais das Províncias Unidas teimam em consolidar as suas posições em território português, conquistando Luanda a 24 de Agosto do mesmo ano e o forte de Achém, em Março de 1642.


Na mesma altura, o Pe António Vieira era enviado em missões diplomáticas a Haia e a Paris de modo a tentar obter o apoio de Mazarino para o resgate das terras brasileiras ocupadas pelos Holandeses. É também nesta altura que este clérigo propõe várias medidas revolucionárias que visavam combater o miserável estado do Reino, tais como o retorno dos judeus mercadores que se encontravam exilados pela Europa e a não confiscação, pela Inquisição, dos bens dos sentenciados.

FDC comemorativo do 300º aniversário da sua morte
Ao mesmo tempo que tentavam conquistar o Brasil pela força das armas, os Holandeses implementaram um formidável esquema de corso naval tendo aprisionado, só no ano de 1648, 249 navios dos 300 que normalmente percorriam anualmente o Atlântico. Como resposta a esta acção é criada, a 10 de Março de 1650, a Companhia Geral de Comércio para o Brasil que tinha como incumbência a protecção armada dos navios mercantes detentores do monopólio do trato do bacalhau, da farinha, do azeite, do vinho e do pau-brasil.

Será só em Janeiro de 1654 que se obtém a capitulação dos Holandeses residentes no Brasil, o que marcará a reconstituição do Brasil português tal como ele existia antes da junção das duas coroas ibéricas.

É também no ano de 1654, logo após a célebre Pregação aos Peixes - por falta de ouvidos da parte dos habitantes do Maranhão - que o Pe António Vieira parte para Lisboa, juntamente com dois companheiros, a bordo de um navio da Companhia Geral carregado de açúcar. Partia para, mais uma vez, defender junto do monarca os direitos dos índios escravizados contra a cobiça dos colonos.

Como era habitual nos navios ibéricos, a vida quotidiana a bordo era regida pelas práticas religiosas, conduzidas neste caso pelo Pe António Vieira, grande partidário da reza pública do terço do Rosário. Esta monotonia foi intempestivamente quebrada por uma tormenta desfeita que se abateu sobre o navio cerca de 2 meses após a sua partida do Brasil, já à vista da ilha do Corvo.

Subitamente, as vagas tornaram-se excepcionalmente altas; o mar ficou completamente coberto de espuma e a visibilidade ficou reduzida ao mínimo. Como única salvação, o piloto mandou arriar todas as velas, à excepção da do traquete e deixou o navio correr com o tempo, à capa. De repente, uma rajada mais forte arrancou a vela e fez adornar a embarcação, ficando o seu bordo direito sob as ondas. Imediatamente, os passageiros em pânico correram para o costado oposto em tropel confuso.


O Pe António Vieira, depois de a todos dar a absolvição geral, levantou a voz aos elementos e, bradou aos “Anjos da guarda das almas do Maranhão, lembrai-vos que vai este navio buscar o remédio e salvação delas. Fazei agora o que podeis e deveis, não a nós, que o não merecemos, mas àquelas tão desamparadas almas, que tendes a vosso cargo; olhai que aqui se perdem connosco.”

Após tal exclamação, fez com que todos fizessem voto à Rainha dos Anjos de lhe rezarem um terço todos os dias se, porventura, conseguissem escapar das garras da morte. Um quarto de hora esteve o navio adornado sob as ondas, até que os mastros se partiram. Com a sua quebra e com o peso da carga de açúcar que se encontrava estivada até ás escotilhas, o navio girou sobre si próprio e retomou a sua posição natural. Todos se apressaram a recolher ao convés e, de joelhos, prestaram graças à Soberana Mãe de Deus.


No entanto, sem mastros, sem velas, sem enxárcia e ao sabor dos elementos em fúria, a sua perdição tinha sido apenas adiada. Eis senão quando, ao longe, aparece outra nau que também corria com o tempo. Um nova esperança se levantava nos náufragos, esperança esta que depressa morreu com o afastamento do navio desconhecido. Este, cego ao navio destroçado e raso com o mar, acabou por mais tarde milagrosamente seguir uma derrota que o fez atravessar directamente a embarcação portuguesa a meio da noite.

Esta embarcação era um dos tais famosos corsários holandeses que cruzavam o Atlântico embusca de presas. Recolheram os náufragos a bordo, pilharam o que puderam do navio à deriva - que acabaria por ir a pique - e fizeram desembarcar os portugueses na ilha Graciosa após os terem despojado de todos os seus pertences pessoais.

Ermida da Boa Nova 
Para acudir à miséria dos seus quarenta e um companheiros de infortúnio, o Pe António Vieira valeu-se da sua Companhia de Jesus e do seu nome. Tudo fez para lhes providenciar roupa, calçado e dinheiro durante os dois meses em que permaneceu na ilha Graciosa. Foi também a partir da Graciosa que o Pe António Vieira creditou Jerónimo Nunes da Costa para que este fosse a Amsterdão resgatar os papéis e livros que lhe haviam sido tomados pelo corsário, tarefa esta que, ao que tudo indica, se cumpriu visto dispormos hoje de cerca de 200 sermões - um dos quais, o vigésimo sexto, relata este naufrágio - e 500 cartas deste autor, muitas delas anteriores ao naufrágio.


Quando conseguiu passar à ilha Terceira, a sua acção determinou também o aprestamento de uma embarcação para que todos os seus outros colegas de infortúnio pudessem tomar o porto de Lisboa.

O Pe António Vieira permaneceu na Terceira durante mais algum tempo, iniciando também aqui a devoção do terço, que pela primeira vez foi cantado na igreja da Boa Nova.

Da Terceira passou a São Miguel e daqui embarcou a bordo de um navio inglês para Lisboa, a 24 de Outubro de 1654. Quis a Providência que, mais uma vez, a sua viagem fosse marcada por um temporal que afligiu sobremaneira os passageiros portugueses - que se entregaram como de costume às habituais ladainhas em que como Católicos, como quem cria na outra vida, repetidamente se confessavam para morrer - mas que em nada preocupou os marinheiros ingleses que, talvez por serem hereges ou talvez por serem mais confiantes na sua embarcação do que os seus passageiros, se limitaram a comer como se nada fosse, embalados que estavam pelo canto dos canários-da-terra que levavam a bordo.

1685 - A Inquisição em Portugal


E foi assim que, em Novembro de 1654, aportou ao Tejo o homem que acabaria por falecer na Baía, cego e surdo, a 18 de Julho de 1697. Durante a sua vida passara mais de 10 anos a lutar pela independência de Portugal, outros tantos a lutar pelos direitos dos índios da Amazónia e outros sem fim a combater os inquisidores de Coimbra. Estes, que o fizeram encarcerar de Fevereiro de 1663 a Outubro de 1665 e que o forçaram a ouvir durante duas horas, de joelhos, a enumeração das suas culpas e que o proibiram de sair do reino e de usar de voz activa e passiva, viram a sua Inquisição suspensa durante 27 meses graças à acção do Pe António Vieira. Este feito único só não se prolongou por mais tempo e conduziu à extinção da Inquisição em Portugal porque os bispos portugueses ameaçaram a Santa Sé com um cisma da igreja nacional.




Foi também assim que este grande orador - a quem Fernando Pessoa apelidou de Imperador da Língua Portuguesa - e verdadeiro Homem de Deus escapou (por milagre divino?) da morte ao largo dos Açores.

 Autor do texto: Paulo Monteiro






Nova Portugalidade (11-06-2020)



Terroristas infamam o Padre António Vieira

Alertados por um seu associado, dois membros da direcção da Nova Portugalidade deslocaram-se há poucos minutos ao Largo da Misericórdia para confirmar um acto de vandalismo, cobarde e infame, perpetrado contra a estátua do Padre António Vieira. O crime foi cometido um dia após o 10 de Junho, nossa festa nacional. Tal não é coincidência. Tem a Nova Portugalidade seguido atentamente o trajecto e manifestações de ódio contra a presença desta evocação do Imperador da Língua Portuguesa e Apóstolo do Brasil, podendo sem dificuldade e erro saber quem são os inspiradores, mandantes e executores deste acto de terrorismo cultural. Perante a maré de banditismo cultural que se espraia pelo Ocidente, tudo faremos para prestar todo o apoio às autoridades na localização dos inimigos da paz social que elementos extremistas, colonizados mentais por algumas universidades americanas e inimigos da cultura, querem perturbar.











ENSAIO EM DEFESA DE VIEIRA

Neste tempo em que informação corre em um instante de uma ponta à outra do mundo, a estupidez e a ignorância continuam a propagar-se mais ligeiras do que a inteligência e o conhecimento. Descontando o meio como causa desta desgraça, posto que é eficacíssimo, forçado sou a culpar os humanos, cujo intelecto é naturalmente indolente e predisposto a aderir com toda a força da sua convicção a proposições pouco fundadas. Como aplicação particular desta tendência universal, algum dia teria que ser dobrada em português a fúria que nos Estados Unidos da América se devota a estátuas erguidas em honra dos heróis da Confederação, contanto não se verifiquem na sociedade portuguesas as fundas linhas de divisão que a História ali sulcou.

É um princípio de ética filosófica que ninguém deve ser julgado e muito menos condenado pela aplicação de uma lei que não estava promulgada ao tempo da prática dos actos julgados. Seria tão ridículo e injusto como se algum dos nossos contemporâneos fosse sentenciado à morte por visitadores do futuro, em estrita aplicação de uma lei dos vindouros, que não conheceria, que não compreenderia e que, provavelmente, reputaria como absurda. É provável que a posteridade, se entretanto não crescer em inteligência, nos venha também a condenar inapelavelmente como bárbaros por práticas que se nos afiguram como perfeitamente lícitas. É possível, se é que não é inevitável, que no futuro nos cubram de opróbrio por nos alimentarmos de bife da vazia, por conduzirmos carros a gasolina ou por consentirmos no trabalho assalariado. Um dia, a estátua a derrubar será a nossa. Mas a repetição do erro não o converte num acerto. Continuará a ser, como o é agora, um absurdo moral. Mantendo os olhos fixos nesta premissa de sã filosofia, convém agora explicar qual é o contexto histórico, económico e moral da instituição esclavagista na época em que António Vieira viveu.

Durante milénios, a escravatura era tida como necessária e legítima, quando não uma condição natural e congénita da humanidade, não apenas na Europa, mas na África e na Ásia. Esta atitude era determinada por aquilo que podemos designar, numa expressão com sabor marxista, como condições materiais de base. Antes do advento da máquina, a força motora da actividade produtiva residia nos músculos de humanos e animais. A escravatura apresentava-se, mesmo aos mais esclarecidos, não raras vezes, como um mal, mas como um mal necessário. Para os que não chegaram a conhecer as maravilhas da mecânica, do vapor e da electricidade, que uma parte da humanidade que trabalhar forçadamente para benefício de todos deveria parecer, deveras, como uma ordem inalterável do universo. Pelo menos, aparentaria ser um alicerce da estrutura económica da sociedade.

Não faltaram teorizadores cristãos que reconheceram a miséria da instituição esclavagista e que tentaram, não tanto justificar a sua existência, como compreendê-la à luz da revelação cristã. Comenta-se, não raro, que São Paulo, com as carta aos Efésios aprovou a escravatura, conquanto com a carta a Filémon tenha instruído os senhores na docilidade para com os servos. Mas, na verdade, São Paulo nunca aprovou a escravatura, porque São Paulo, salvo melhor opinião, nunca se colocou a questão de optar entre a sua continuidade ou a sua abolição. Paulo de Tarso, como toda a sua geração, como toda a Antiguidade, aceitava a escravatura como uma inevitabilidade. Três séculos mais tarde, Santo Agostinho, que se apercebeu vividamente da contradição entre o dogma da bondade da criação divina e a infeliz condição dos escravizados, não se esforçou por justificar a existência da escravatura, mas por resolver satisfatoriamente a aporia em que essa existência enredava a teologia. É sugestivo que Agostinho considere a escravatura como salário do pecado - à semelhança da morte, da doença ou das dores de parto, outros tantos factos inelutáveis da existência humana. Quando o mundo acabara de sair das mãos do seu Artífice, sem a mácula original, tal como esses males, a escravatura não poderia existir. A escravatura é uma consequência e um sinal do naufrágio da humanidade no pecado. Também Agostinho, como Paulo antes dele, não concebe que possa haver mundo sem escravatura, e, portanto, não se põe a si mesmo a questão da sua aprovação ou desaprovação; encara-a, sim, como mais um afloramento do Problema do Mal. Paulo e Agostinho não eram revolucionários, com todo o peso que a palavra assume para os nossos contemporâneos: não se propunham abolir a escravidão por decreto; não desejavam transformar radicalmente as relações de produção; não queriam conspirar uma revolta espartaquiana. Como essas são as únicas revoluções que os nossos conhecem e reconhecem, necessário é que se quedem num desapontamento ou numa censura perante a posição cristã. Mas Paulo e Agostinho não eram materialistas, como nós o somos; eram espiritualistas. O seu interesse era outro, não terrenal, mas espiritual: o da conversão ao evangelho. Para este efeito, não conta tanto a liberdade de corpo, como a liberdade de alma; e, para este efeito, não há judeu nem grego, nem escravo nem senhor. Deus, declara Paulo, não faz acepção de pessoas. Esta afirmação, que é das principais da doutrina cristã, é revolucionária. Antes, os judeus criam que Deus fazia acepção entre povos: entre o povo eleito e os gentios. Criam, também, que fazia acepção entre pessoas: os que eram abençoados pela fortuna, eram abençoados pelo próprio Deus, e os que eram por ela abandonados, eram por Ele amaldiçoados. Por esta razão é que os discípulos perguntam a Jesus, ao aproximarem-se do cego de nascença, quem é que tinha pecado para que acontecesse aquela cegueira, o cego ou os seus pais. Cristo recusa a assunção em que assenta a pergunta: nem ele nem os pais. A maior ou menor miséria temporal dos homens não os diminuía diante de Deus. O escravo e o senhor eram iguais ante o Senhor dos senhores. É possível, até, que os primeiros gozassem de alguma vantagem.

Na Europa, a escravatura antiga foi progressivamente substituída pela servidão feudal. Nesta morosa mas inexorável extinção, teve parte, como causa, a doutrina cristã da fundamental igualdade de todos os homens e a prática eclesial que a todos, senhores e escravos, acolhia nos sacramentos, como reconhece o insuspeito historiador francês Pierre Bonnassie, na senda que franquearam as incontornáveis investigações de Marc Bloch. A prática da escravatura, particularmente, a escravidão dos negros, é reanimada no contexto singular e especialmente complexo do conflito da Cristandade com o Islão na Península Ibérica e no Mediterrâneo. A guerra com o muçulmano travou-se por séculos e induziu à formação de uma doutrina generalizada da licitude da guerra contra o infiel invasor. A legislação do século XV reconhecia a legitimidade dessa guerra e, por consequência, a licitude da redução à escravidão dos prisioneiros feitos em combate. Apenas tendo em vista a atmosfera de cruzada da época se pode compreender a permissão conferida pela bula de Nicolau V, “Romanus Pontifex”, de 8 de Janeiro de 1455, para a submissão à escravatura dos sarracenos combatidos pelos Portugueses em África. Ordenação de tal espécie é o fruto de uma Europa encarniçada por séculos de incessante luta, tida como justa, contra o Crescente. Se, porém, o raciocínio em que se fundavam tais leis se podiam aplicar aos muçulmanos, por conta da guerra, não se podiam aplicar aos gentios com que os cristãos se depararam nas suas aventuras ultramarinas. Por esta razão, o Papa Eugénio IV, na bula “Sicut dudum”, de 13 de Janeiro de 1435, proíbe a escravidão dos nativos das Canárias e ordena a libertação imediata daqueles que já haviam sido subjugados pelos colonos europeus. Pela aplicação do mesmo princípio, o Papa Paulo III, com a bula “Sublimus Dei”, de 29 de Maio de 1537, depois de rejeitar em termos peremptórios a pretensão de que os indígenas das Américas eram mais brutos do que homens e incapazes de receber a fé católica, proíbe que sejam privados da sua liberdade e dos seus bens. Este circunstancialismo jurídico não deve ser perdido de vista quando se procura a causa da ambivalência da atitude dos colonizadores perante africanos e índios em tudo quanto concerne à escravatura. Mas, a estas razões, devem acrescentar-se outras, de facto, como o sejam o da escravatura estar disseminada em todo o continente africano, estando amplamente difundida e sendo activamente organizada dentro do mundo islâmico e o de existirem significativas redes de escravização e tráfico organizadas por nativos e contra nativos em África, o que, certamente, não sucedia com as Américas.

Vieira, que nasceu em 1608 e não morre verdadeiramente, inseriu-se num tempo em que a escravatura era vista como um expediente legítimo e em que a escravatura negra se encontrava amplamente disseminada. Quando desembarcou nas Américas, os escravos constituíam o alicerce da sociedade colonial, porque eram mão-de-obra imprescindível na exploração económica do território. É pueril reclamar-se de um homem imerso nas circunstâncias materiais e nas ideias comummente aceites e em nenhuma parte disputadas no seu tempo que se destaque delas como se tivesse tido a oportunidade de mergulhar por um momento a cabeça no nosso iluminado século. A atitude de Vieira é a de um depositário da tradição cristã inaugurada com Paulo e prosseguida por Agostinho. Se não disputa a escravatura, também não a apoia propriamente - aceita-a, como um facto dado. Mas os olhos com que olha o escravo são aqueles da universal fraternidade cristã, pois escreve no Sermão da Epifânia: «As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol. E pode haver a maior inconsideração do entendimento, nem maior erro do juízo entre homens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor, porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto? Dos Magos, que hoje vieram ao presépio, dois eram brancos e um preto, como diz a tradição; e seria justo que mandasse Cristo que Gaspar e Baltasar, porque eram brancos, tornassem livres para o Oriente, e Belchior, porque era pretinho, ficasse em Belém por escravo, ainda que fosse de S. José? Bem o pudera fazer Cristo, que é Senhor dos senhores; mas quis-nos ensinar que os homens de qualquer cor todos são iguais por natureza, e mais iguais ainda por fé, se crêem e adoram a Cristo, como os Magos.» Diferentes no corpo, e na condição, mas radicalmente iguais na alma. E para Vieira, que era um espiritualista, e um católico, que podia haver de maior do que a saúde das almas? Hoje, não há quem entenda bem isto, porque são poucos os espiritualistas e ainda menos os católicos. Mas houve poucos que, como Vieira, se tenham batido pela liberdade dos índios. Vieira é, certamente, filho do seu tempo no que concerne à atitude perante a escravatura negra, nos exactos termos que expliquei atrás. Mas nunca isentou os negros, como não isentou os índios, daquela fundamental igualdade por natureza e pelo evangelho, que para ele era a principal.

Não é concorde com o mais elementar raciocínio ético condenar o Padre António Vieira em razão de uma lei moral condenatória da escravatura em absoluto que não foi promulgada na consciência social no tempo da sua vida. Mas não é somente esta a fragilidade do argumento dos seus actuais detractores. Na verdade, pode ser que o seu maior erro seja o de tentar reduzir o Padre à pequenez das categorias pelas quais avaliam o mundo e a história. Nelas só pode caber um Vieira mutilado, não o homem inteiro. Através desse buraco de fechadura, os organizadores do protesto apenas podem ver o clérigo que consentia na escravatura dos africanos, como se o jesuíta não tivesse nascido num mundo que pensava da mesma forma e não tivesse sido senão isso. Esse ponto de vista é tão unilateral como qualquer outro. Porque não veremos em Vieira, antes, o homem que, contra inúmeras resistências e com grande dose de coragem pessoal, se opôs publicamente à redução dos indígenas à escravatura? Porque não veremos, antes, o sacerdote católico que, arriscando-se a acordar ânimos de suspeição junto do Santo Ofício, se propôs a defesa pública dos cristãos-novos? Porque não veremos, antes, o genial homem de letras, que como ninguém, na língua portuguesa ou em qualquer outra língua, falou da virtude, da morte e de Deus? Apenas um retrato que contenha todos esses elementos pode ser uma imagem fiel do Padre António Vieira. Já a efígie que os organizadores do protesto querem oferecer às chamas é falsa, porque é desfocada, parcial e imprecisa. Aliás, se julgássemos todas as personalidades históricas com o rigorismo com que o faz a organização «Descolonizando» em relação ao Padre, teríamos, praticamente, de derribar todas as estátuas que se erguem em Lisboa e em qualquer outra das nossas cidades, porque não há nenhum grande homem, como nenhum grande empreendimento humano, que não possa ser observado de modo a encontrar-lhe qualquer mácula.

Talvez os membros da organização «Descolonizando» já saibam estas coisas. Porque se há algo de certo neste caso é que a finalidade da polémica contra o Padre António Vieira não tem tanto a ver com o Padre António Vieira, nem esta guerrilha contra o passado tem tanto a ver com o passado, como têm a ver com os vivos e com o presente. Tem a ver com um golpe publicitário, com uma iniciativa de mobilização, como uma tentativa de radicalização, com uma campanha, mais uma, de descrédito da pátria e da Igreja Católica, mas muito pouco a ver com o estudo diligente e a interpretação racional da História.

Para a Nova Portugalidade o Padre António Vieira é um grande português. Penso que é uma dessas afirmações que merece ser sucedida por um decidido ponto final.

Hugo Dantas





terça-feira, 14 de julho de 2026

Francisco Nogueira (Historiador)


 

FRANCISCO MIGUEL NOGUEIRA



Francisco Miguel Nogueira nasceu a 8 de agosto de 1985, na Ilha Terceira. É Historiador e Investigador.


Licenciado em História pelo ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa), tornou-se Mestre em História Moderna e Contemporânea, com especialidade em Relações Internacionais com tese intitulada



 O impacto da presença britânica na Ilha Terceira (1943-1946)




pela mesma universidade. Realizou diversos cursos através do Centro de Conhecimentos dos Açores da Direcção Regional da Cultura em colaboração com o Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores, entre os quais, “História da Arte e do Património Construído nos Açores” e “Portugal, os Açores e o domínio filipino”. Foi auditor no II Curso Intensivo de Segurança e Defesa do Instituto de Defesa Nacional.


É Historiador do Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Património (CECHAP), entre outros, onde apoia no ensino e em pesquisas nas áreas da História dos Açores, da História Moderna e da História Contemporânea.



É sócio do Instituto Açoriano de Cultura e Sócio Correspondente do Instituto Histórico da Ilha Terceira (IHIT).


Consulte todas as suas crónicas em:


Clicar --> CRÓNICAS


É Palestrante em diversas apresentações, tanto ligadas a História Militar, como religiosa, como social, tendo um papel ativo em termos socioculturais como cronista regular em vários meios de comunicação social, tanto regional, como nacional e até internacional.


Foi Prémio Revelação na 1ª Gala do Jornal da Praia/Vitec, a 9 de maio de 2014, pelo seu contributo na divulgação da História dos Açores.


O seu 1º livro.

"O livro não cria a imagem do herói e do vilão"







Qual foi o caminho até ao lançamento deste livro?
Este livro foi escrito durante esta pandemia, por isso teve um processo de desenvolvimento diferente. Depois do convite da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, comecei a ler a bibliografia sobre o tema do liberalismo em Portugal e depois bibliografia sobre o levantamento liberal em Angra do Heroísmo. Li e pesquisei com especial atenção os Anais da Ilha Terceira de Ferreira Drumond e o Arquivo dos Açores de Ernesto do Canto. Depois fui para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, procurando investigar e pesquisar no fundo da Capitania-Geral e do Fundo Teotónio Ornelas Bruges. Felizmente, os funcionários foram excelentes para fazer pesquisa em um momento tão complicado como este da pandemia. Depois de compilada a informação, foi escrever, buscando um fio condutor para contar a História do Levantamento e todas as estórias que o rodeiam, de forma simples e acessível a todos os leitores. Depois de escrito, foram as leituras e releituras e inserção das fotografias, com a colaboração do Rúben Quadro Ramos, o responsável pela paginação. A interação com a Câmara Municipal foi sempre fácil e de total apoio. No início deste mês, ao ver o livro em minhas mãos, foi um gosto inenarrável. Já antes tinha sido coautor de dois livros, mas ter este escrito somente por mim, pela minha pesquisa e investigação, é algo indescritível.
O que se pode contar sobre este episódio histórico?
Este episódio é muito interessante e precisa ser mais conhecido entre os terceirenses, sobretudo neste momento, em que celebraremos, no fim-de-semana da Páscoa, os 200 anos sobre o levantamento liberal de dois de abril. É interessante pensarmos que um acontecimento como este que dura pouco mais de 48h tem momentos tão intensos e com vários episódios tão fortes e mesmo violentos, com voltas e reviravoltas inesquecíveis. A obra embora seja sobre o levantamento liberal de dois de abril, acaba por ter dois principais protagonistas, os rivais Francisco António de Araújo e Azevedo, o 7º Capitão-General dos Açores, e Francisco de Borja Garção Stockler, o 8º Capitão-General dos Açores. A rivalidade destes dois homens que governaram os Açores foi essencial em todo o desenvolvimento dos acontecimentos, com aliados de parte a parte a serem essenciais no desenrolar dos acontecimentos da revolta. O livro não procura criar a imagem do herói e do vilão, embora que ao contar-se a História pode parecer que se penda para o lado de um dos capitães-generais em uma parte da obra, e para o outro, noutra parte. Porém a ideia é que o leitor conheça bem o que se passou e quem foram estes homens e o porquê da sua mentalidade ser importante para muita da ação de ambos e, com isso, para muitas decisões contraditórias que vão tomando. Só para abrir o interesse na leitura do livro, posso contar que mesmo com Araújo a ter chefiado o levantamento e ter criado a Junta Provisória do Governo Supremo dos Açores, nunca vai conseguir tirar o real poder de Stockler, que mesmo deposto, vai preparar uma contrarrevolução, com apoio dos locais.
Que histórias de Angra do Heroísmo e da Terceira nos faltam conhecer?
Há muitas histórias ainda por conhecer sobre Angra do Heroísmo e sobre a Praia da Vitória e mesmo as que se conhecem deviam ser mais bem divulgadas. Basta dizer que Mateus Álvares, um praiense, muito esquecido pela nossa terra, foi "Rei de Portugal", porque foi visto pelo povo da Ericeira como o regressado D. Sebastião. Era tão importante que o exército espanhol entrou na Ericeira, foi então feito prisioneiro a 12 de junho, sujeito a tortura, foi levado à presença de D. Filipe II, que mandou cortarem-lhe a mão direita, pela qual assinara alvarás reais. Tantas e tantas histórias por contar por estas freguesias fora. Nós que estamos a entrar num ciclo comemorativo de 2º centenário de vários acontecimentos liberais, devemos aproveitar estes próximos anos, para contar e divulgar estes eventos que marcaram não só a História da Terceira, como a de Portugal.
Como podemos tornar essas histórias mais "visíveis"?
Estas histórias precisam de ser divulgadas, através de eventos, de textos, de recriações históricas. Devemos aproximar os locais da sua História, por exemplo, com a criação de espaços que nos façam viajar no tempo. Há já algum tempo que se fala na necessidade da transformação da Casa da Salga num Centro de Interpretação, onde as pessoas possam conhecer mais da Batalha da Salga, da Brianda Pereira, da Violante do Canto e do Ciprião de Figueiredo, ou seja, conhecer um pouco mais da sua História, dos seus antepassados e da Memória Coletiva da Terceira. A recriação histórica é algo muito utilizado no norte da Europa e que devia ser mais recorrente na nossa Ilha.
O que pensa do ensino da nossa história nas escolas açorianas?
Penso que as coisas melhoraram nos últimos anos, mas o ensino da História precisa de professores que saibam cativar os seus alunos. Não devemos ter medo de ser criativos ao ensinarmos, sobretudo História, disciplina que os alunos têm maior dificuldade de perceber a sua relevância. Devemos mostrar-lhes que conhecer o passado, não é só essencial para o nosso conhecimento, mas primordial para a nossa construção enquanto cidadãos. É essencial que os professores aproximem os conteúdos a realidades que os jovens conheçam. Os professores devem levar os alunos aos monumentos e incentivá-los a fazerem trabalhos sobre o património regional, aproximando-os do meio onde vivem.
in, Diário Insular, 26 de Março / 2021










Há exatos 15 anos, a 14 de julho de 2011, publicava o meu 1º artigo num jornal terceirense e começava, assim, a minha participação ativa em imprensa local, nacional e internacional de uma forma recorrente, com mais de 675 crónicas publicadas ao longo destes anos. Dia simbólico, mas que foi um daqueles acasos do destino, visto que o 14 de julho é uma data ligada à tomada da Bastilha, em 1789, ou seja, ao princípio da Revolução Francesa e, por isso, o acontecimento que marca o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea.

O meu percurso nestas lides começou quando foi preciso escrever um artigo sobre o período pós-25 de abril de 1974 na Terceira, numa revista preparada por alunos do 12º ano da Escola Jerónimo Emiliano de Andrade, que procurava dar uma visão do século XX terceirense. Já tinha feito umas pequenas participações em alguns artigos e apoio na investigação de 2 livros e da minha tese de mestrado. Após a publicação do texto, o Mário Leandro, um homem do jornalismo, com quem muito aprendi, desafiou-me para escrever para a imprensa local. Assim, começou a minha colaboração com o extinto diário A União.

O convite seria para escrever quinzenalmente por 6 meses, achava-se que a História iria cansar o público e não ia ter a adesão de outras crónicas, com muitos leitores. Aceitei de imediato o desafio. Este apelo que tenho por voltar sempre às minhas raízes, de fazer pesquisa e investigação, sempre na busca por saber mais e poder divulgar o que aprendi de forma isenta e correta, são os garantes da minha qualidade enquanto Historiador.

Ao fim daquele semestre de 2011, tinha cada vez mais interessados nas minhas crónicas, que comentavam os textos no Facebook e no Instagram, enviavam e-mails, pediam informações e até davam sugestões. Existiam cada vez mais temas que me motivavam a pesquisar e a investigar mais. Pouco tempo depois, a minha colaboração passou a outros meios da imprensa escrita. Recebia imensas críticas favoráveis aos meus textos, jovens que não liam e não queriam saber de História, diziam que adoravam os meus textos, que chegavam a fazer pesquisa na internet para saber mais. Era este o meu objetivo. A recetividade do público foi muito boa. Ficava muito contente com esta reação. Fazer com que houvesse mais curiosidade sobre as estórias, os acontecimentos, as pessoas, o meio onde vivemos, era este o meu propósito.

Os meus textos procuravam contar a História real, de forma simples e acessível a todos, sem nunca descontextualizar, usando termos mais científicos, com outros mais simples. Queria, assim, ensinar e mostrar a todos que a História é mais interessante do que pensavam. A História à nossa volta pode ser usada como um ponto para incentivar os jovens a se interessar pela História nacional e universal. É importante fazer todos sentirem que fazem parte de algo maior do que eles, que o pequeno pedaço de terra onde moram é importante. Conhecermos o que nos rodeia, é saber um pouco mais sobre quem somos.

Fui procurando conhecer e investigar estórias menos conhecidas da nossa História e mostrar que há muito mais do que aquilo que se ensina. Daí achar importante que se conheça a História de onde vivemos. Fui, portanto, criando uma rede de leitores.

A minha participação ativa nas redes sociais, na busca pelo conhecimento da nossa História, foi então ganhando força. Passei a colaborar com mais jornais, a fazer palestras, a dar entrevistas e a ter rúbricas nas rádios, tudo isso em nome da divulgação da nossa História e na procura de manter vivo o património dos nossos antepassados.

Ao longo destes 15 anos, aprendi imenso, não só pelo que investiguei e pesquisei, mas por tudo o que os leitores me deram, desde informação, conhecimento, passando por críticas, elogios, ideias, etc. Tudo isso ajudou-me a fazer mais e melhor. A ser quem sou hoje!

Com mais de 675 crónicas publicadas, espero que continue a haver esta ligação entre mim e o leitor, e que venham mais 5, mais 10, mais 15 anos, etc. E que as pessoas percebam que a História tem muito a ensinar e a dizer a todos, que não é algo só do passado, é uma área que nos ensina o porquê do agora e que devia também servir de lição para não cometermos os mesmos erros.
A História de um povo é a sua maior riqueza, pois não pode ser roubada. Manter viva a memória do passado, o nosso património, as nossas ações, os nossos feitos, as nossas raízes, é manter vivo o nosso ADN e orgulharmo-nos do que fomos, do que somos e do que seremos. Não se esqueçam, a nossa História é feita por mim, por ti, por todos! A sociedade atual clama por uma união de todos em busca de um caminho para a saída deste marasmo e crise que entramos, não critiquemos os outros, tenhamos ideias e busquemos o apoio e envolvimentos dos demais. É o nosso futuro que está em jogo.

Eu tenho feito a minha parte e espero contribuir com mais trabalho e mais projetos, desde que haja financiamento e apoios neste sentido. Espero que surjam mais oportunidades para fazermos “realçar” a nossa grandeza, o nosso ADN, trazendo o ontem para hoje.

A pesquisa, a investigação, a salvaguarda e a preservação do Património, assim como a divulgação da nossa História, são lemas da minha vida.




sábado, 4 de julho de 2026

Ilha do Faial




1844 - Baía da Horta

1375 /1377- Atlas Catalão

Descoberta e povoamento


Vista da Montanha do Pico
através do Forte de Santa Cruz

Na cartografia do século XIV, a ilha aparece pela primeira vez individualizada no Atlas Catalão (1375-1377) identificada como "Ilha da Ventura". Gonçalo Velho Cabral, em 1432, em 1432, terá achado as ilhas do Grupo Central. Diogo de Teive passa ao largo da Ilha do Faial na sua primeira viagem de exploração para ocidente dos Açores, em 1451.

1905 - Vista da Horta
 Em 1460, no testamento do Infante D. Henrique, encontra-se referida como "ilha de São Luís [de França]". O seu atual nome deve-se à abundância das chamadas faia-das-ilhas (Myrica fava) aquando do seu povoamento.

O historiador padre Gaspar Fruruoso afirma que o primeiro povoador da ilha terá sido um eremita vindo do Reino. Este vivia só apenas com algum gado miúdo que na ilha deitaram os primeiros povoadores (em 1432?), e mais tarde, os moradores da ilha Terceira. "Somente no Verão iam pessoas da Terceira a suas fazendas e visitar seus gados e comunicavam com este ermitão". Ele acabaria por desaparecer ao fazer a travessia do canal do Faial para ir até à ilha do Pico, numa pequena embarcação revestida de couro.

O único relato coevo conhecido da primeira expedição à ilha do Faial é de autoria de Valentim Fernandes da Morávia. Ele informa que o confessor da Rainha de Portugal, Frei Pedro, indo à Flandres, como embaixador junto da Duquesa de Borgonha, Infanta D. Isabel de Portugal, relacionou-se com um nobre flamengo chamado Joss Van Hurtere, ao qual contou "como se acharam as ilhas em tal rota e que havia nelas muita prata e estanho (porque para ele, as ilhas dos Açores eram as supostas ilhas Cassitérides)". Hurtere convenceu 15 homens de bem, trabalhadores, "dando a mesmo a entender, de como lhes faria ricos" caso o acompanhassem.

1905 - Faial - Vista dos Flamengos

Por volta de 1465, Hurtere desembarcou pela primeira vez na ilha, com aqueles 15 flamengos, no areal da enseada da Praia do Almoxarife. Permaneceram na ilha durante 1 ano, na Lomba dos Frades, até que se esgotaram os mantimentos que tinham trazido. Revoltados por não encontrarem nada do que lhes fora prometido, os seus companheiros andaram para o matar, e Hurteve valeu-se de esperteza para escapar da ilha, retornando para a Flandres comparecendo novamente perante a Duquesa da Borgonha. (Frei Agostinho de Monte Alverne. Crónicas da Província de São João Evangelista.)

Por volta de 1467, Hurtere regressou numa nova expedição, organizada sob o patrocínio da Duquesa da Borgonha. Ela mandou homens e mulheres de todas as condições, e bem assim como padres, e tudo quanto convém ao culto religioso, e além de navios carregados de móveis e de utensílios necessários à cultura das terras e à construção de casas, e lhes deu, durante 2 anos, tudo aquilo de que careciam para subsistir, segundo legenda feita pelo geógrafo alemão Martin Behaim no Globo de Nuremberga.

Valentim Fernandes acrescenta um pormenor, por rogo da dita Senhora, os homens que mereciam morte civil mandou que fossem degredados para esta ilha.

Igreja de Nossa Senhora das Angústias
Não satisfeito com o local original, Hurtere decidiu contornar a Ponta da Espalamaca. Próximo do local de desembarque mandou erguer a Ermida de Santa Cruz (no local onde hoje existe a Igreja de N. Sra. das Angústias). Hurtere regressou a Lisboa e casou-se com D. Beatriz de Macedo, criada da Casa do Duque de Viseu. O Infante D. Fernando, Duque de Viseu e Mestre da Ordem de Cristo, fez-lhe doação da Capitania do Faial, em 21 de Março de 1468. Por volta de 1470, desembarcou Willem Van Der Haegen, que aportuguesou o seu nome para Guilherme da Silveira, liderando uma segunda vaga de povoadores. O rápido crescimento económico da ilha ficou a dever-se à cultura de trigo e do pastel.

Do século XVI aos nossos dias

No contexto da Dinastia Filipina, na sequência da queda da Terceira após o desembarque da Baía das Mós (1583), D. Álvaro de Bazán enviou para o Faial, último território português que ainda recusava, de armas em punho, obediência a Filipe I de Portugal, uma expedição sob o comando de D. Pedro de Toledo.

1804 - Fortificação da Horta
Repelida pelo fogo do Forte de Santa Cruz da Horta, um corpo de homens de armas desembarcou no sítio do Pasteleiro. Após escaramuças, as forças portuguesas, reforçadas por mercenários franceses foram derrotadas. O Capitão-mor do Faial, António Guedes de Sousa, foi executado às portas do forte.

1903 - Baía da Horta
Subjugada a ilha, aqui foi deixada uma guarnição composta por uma companhia de soldados predominantemente espanhóis, sob o comando de D. António de Portugal.

No ano seguinte (1584), incapaz de controlar a insubordinação dos seus soldados, causada principalmente pela falta de pagamento dos soldos este oficial foi substituído no comando pelo capitão Diego Suarez de Salazar (FRUTUOSO, 1998:109-110).

Essa guarnição impediu, em 1587, com o fogo da artilharia do Forte de Santa Cruz, corsários ingleses de apresar um navio oriundo das ilhas de Cabo Verde, fundeado ao abrigo das suas muralhas.

Poucos anos mais tarde, com o aumento da ameaça inglesa nas águas dos Açores, e visando reforçar as defesas concentradas na Terceira, o Mestre-de-Campo Juan de Horbina, governador do terço espanhol sediado em Angra, escreveu ao rei a questioná-lo sobre a eficácia e o perigo da permanência, na Horta, de uma companhia com apenas 168 soldados em um castelo fraco e sem defesa. Em resposta, foi autorizado a que o destacamento na Horta recolhesse a Angra, transportando consigo a artilharia de bronze, o que foi feito em Abril de 1589, tendo a defesa sido deixada a cargo da Câmara Municipal da Horta, a quem foi confiada a artilharia de ferro, arcabuzes e piques, com algumas munições para levantamento e armamento das companhias de Ordenanças.

1869 - Horta - Fayal


Desse modo, em 20 de Setembro daquele mesmo ano, a armada de corsários ingleses sob o comando de Sir George Clifford, Conde de Cumberland, perante a recusa do recém-nomeado alcaide do Forte de Santa Cruz, Gaspar de Lemos Faria, em pacificamente permitir aguada e o reabastecimento de víveres, fez desembarcar trezentos homens na praia da Lagoa. esta força, durante uma semana saqueou o Faial e ocupou o forte, entretanto abandonado pelo alcaide, tendo levado a artilharia ali deixada pelos espanhóis. A vila seria novamente saqueada, em 1597, por Sir Walter Raleigh, da armada sob o comando de Robert Devereux, 2º Conde de Essex.

1833/1983 - Medalha comemorativa do
150º aniversário da Elevação da Horta a Cidade
No século XIX, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), quando da ofensiva liberal do 7º Conde de Vila Flor (1831), ao preparar-se para desembarcar na ilha, surgiu uma corveta miguelista, o que levou o conde de Vila Flor a julgar mais prudente retirar para a Terceira para obter reforços. Retornada a expedição, a ilha foi ocupada pelos liberais. Viria a receber a visita de D. Pedro IV em 1832. Este soberano elevou a então vila da Horta a cidade (a terceira no arquipélago) no ano seguinte (1833).

Nesse período, a sua posição estratégica no oceano Atlântico e a existência de um excelente porto abrigado atraiu, até cerca de 1860, não apenas os navios do comércio da laranja, mas principalmente os baleeiros estadunidentes que aí iam reabastecer-se. Também por essa razão, a ilha tornou-se um centro de ligação dos cabos submarinos que ligavam a Europa à América.

Fonte: Wikipédia




A família Dabney

1859 - Carta expedida de Horta para o Brasil, via Lisboa
(Correio Geral da Corte) por Charles Dabney

Em finais de 1808, John Dabney chegou à Horta com o cargo de primeiro-cônsul para os Açores da jovem república dos Estados Unidos da América. Empresário de visão, em breve criou armazéns que atraíram à Horta navios para abastecimento de mantimentos frescos, reparação de aparelhos e cascos, salientando-se nestes os baleeiros que aqui ficavam um mês para repouso das tripulações e descarga do óleo de baleia.

Ocupava-se também John Dabney, e mais tarde os seus sucessores, da exportação do vinho do Pico, então de grande fama, e da laranja, ao tempo fruto exótico na América, para onde seguiam anualmente milhares de caixas transportadas por navios especialmente fretados.

1855 - Carta expedida em mão a bordo do Vapôr "Açorianno" e franqueada
na Horta (carimbo 49)
A destruição dos vinhedos e laranjais por doenças, na segunda metade do Séc. XIX, e a redução sensível do volume de negócios levaram a que a família Dabney abandonasse a Horta e, portanto, os Açores, em 1892, ficando como vestígios da sua passagem pela cidade as mansões Fredónia e The Cedars e a encanta- dora vivenda Bagatelle, além dos antigos armazéns, situados no istmo que liga o Monte Queimado ao Monte da Guia, no Porto Pim.





O Forte de Santa Cruz

1583 - Ataque ao Forte de Santa Cruz
Local de fixação de Josse Van Huerter - de quem, provavelmente, se perpetua o nome numa transposição para português - que na área do Porto Pim teve o seu solar, a Horta viveu tranquilamente os seus primeiros anos. Em finais do séc. XV é elevada a vila, e em 1583, com a batalha travada, às portas do Castelo de Santa Cruz, entre portugueses e espanhóis, quebra-se esse viver idílico. As incursões dos corsários no séc. XVI e as lutas políticas levam à construção de fortificações que não evitaram, porém, que em 1589 o conde de Cumberland, comandando treze navios, aprese uma nau espanhola e ataque a vila, que é saqueada. Anos depois, em 1597, Sir Walter Raleigh ocupa a Horta. Dá-se, então, novo e terrível saque e o incêndio dos seus principais edifícios.

Colégio dos Jesuítas (ao fundo)
Os Jesuítas, com uma intensa acção no Brasil e no Oriente, escolhem a Horta como local de repouso dos seus fatigados missionários e nela erguem, no séc. XVII, um amplo e majestoso Colégio. Pela vila passa no, séc. XVIII, o explorador inglês Thomas Cook.

O desenvolvimento da caça da baleia traz à Horta, durante todo o séc. XIX, as frotas baleeiras, que se abrigam em Porto Pim para refrescar as tripulações e engajar arpoadores e remadores açorianos, famosos pela sua coragem e destreza.

1939 - Carta registada expedida do Fayal para a América
Nesse período as ruas eram percorridas por marinheiros que quebravam com os seus berros e cantigas avinhadas a tranquilidade nocturna. A construção do cais, iniciada em 1876, atraiu à cidade os navios a vapor, que nele faziam o reabastecimento de carvão.

Uma nova fase da vida do Faial começa em 1893, com a instalação de um cabo submarino ligando a Horta a Lisboa e, daí, a todo o mundo, a que se segue a montagem de outros cabos, transformando a cidade num dos principais centros das comunicações telegráficas da primeira metade do séc. XX. O primeiro voo transatlântico, em 1919, fez escala na Horta, seguindo-se-lhe, de 1939 a 1945, os majestosos «clippers» da Pan American. Base naval nas duas guerras mundiais, a cidade foi um dos portos utilizados pela frota aliada aquando da invasão da Normandia, em 1944.

O canhão "Long Tom".

O canhão "Long Tom", na Horta, preparando-se
para a sua viagem até à América
Na luta entre o brigue corsário americano "General Armstrong" e a esquadra inglesa na baía da Horta, em 1814, um canhão desempenhou um papel decisivo - o "Long Tom". De origem francesa, datado de 1786, fez parte do armamento do navio "Hoche", aprisionado pelos ingleses nas guerras napoleónicas. Vendido aos Estados Unidos, veio a armar, a meio do tombadilho, o "General Armstrong", e as suas salvas destruidoras repeliram os botes da esquadra inglesa até ao afundamento do brigue.

Recuperado do fundo do porto e depois de dezenas de anos de serviço no Castelo de Santa Cruz, veio a ser cedido, em 1892, aos Estados Unidos, que o expõem, em Washington, no Arsenal da Marinha de Guerra.

Os baleeiros e Moby Dick.

Baleação no Faial
Os cascos eram negros como caixões. Os navios tresandavam a óleo e a morte. Eles eram os caçadores do mar, os baleeiros. E vinham todos os anos à enseada do Porto Pim para repousar as tripulações e deixar os barris de óleo de baleia.

A Horta fazia parte da gesta desses homens rudes que partiam de New Bedford para regressarem, anos depois, cansados, doentes e nem sempre ricos. A Horta figurava, por esse motivo, no ciclo rama pintado sobre pano que era exibido, de cidade em cidade dos Estados Unidos, para mostrar a vida dos baleeiros. os seus portos de escala, a sua dura faina. Eram dezenas os baleeiros que, nos meses de Primavera e Verão, se abrigavam por detrás dos Montes Queimado e da Guia.

Herman Melville - Moby Djck

1900 - Baleeiras americanas no porto da Horta

Todos tinham tripulantes açorianos atraídos pelo risco e pela paga, apreciados pela sua resistência e coragem, como aquele jovem Danil que na célebre obra de Herman Melville participa na implacável perseguição à grande baleia branca, a Moby Djck.

Os cabos telegráficos.

Invocados quase diariamente para justificar o bom e o mau tempo nos boletins meteorológicos da Europa e América do Norte, os Açores constituem uma área, a meio oceano, onde se processam alterações da pressão atmosférica que influenciam as condições climatéricas de uma vasta área geográfica. A importância deste fenómeno foi salientada pelo príncipe Alberto de Mónaco nas diversas campanhas de oceanografia que realizou no arquipélago na segunda metade do séc. XIX, o que levou a serem instalados nos Açores observatórios meteorológicos, sendo dos primeiros e o mais importante o instalado na Horta, no Monte das Moças, cujas observações eram transmitidas por cabo submarino, para Lisboa. Londres, Paris, Hamburgo e Washington.


Com a instalação, em 1893, do primeiro cabo telegráfico ligando a Horta a Carcavelos, Portugal, deu-se o primeiro passo para a sucessão de acontecimentos que fariam da cidade um dos maiores centros mundiais de telecomunicações da primeira metade deste século. Ao cabo inicial, montado sobretudo com o objectivo de serem transmitidas observações meteorológicas necessárias à previsão do tempo nos Açores e sua influência na Europa, vieram juntar-se, em 1900, cabos de companhias alemãs e americanas, completadas por novas amarrações em 1903 e 1904. Terminada a Primeira Guerra Mundial são instalados novos cabos em 1924, 1925, 1926 e 1928. Os 15 cabos, que ligavam a Horta às principais capitais do mundo, exigiam pessoal especializado na sua manutenção e operação, para além de instalações técnicas apropriadas.

Ergue-se, assim, no eixo definido pela Rua Cônsul Dabney, um conjunto de edifícios que vem alterar o perfil da cidade e são o testemunho da atmosfera cosmopolita desse período áureo em que as diversas nacionalidades confraternizavam com a população em festas, provas desportivas, passeios pela ilha. Como testemunho dessa época estão os edifícios da companhia alemã DTA, hoje ocupados por organismos governamentais, que mantém a traça inicial, destacando-se a saia de baile, com vitrais, e o núcleo da companhia americana WUT, adaptado a hotel. A evolução tecnológica, ampliando a capacidade de transmissão de mensagens dos cabos telefónicos, o recurso à rádio e, mais tarde, a satélites vieram a determinar a progressiva extinção das companhias que operavam na Horta, realizando-se, em finais de 1969, a cerimónia de despedida da última empresa.




A epopeia dos hidroaviões.

A conquista do ar teve na Horta algumas das suas horas de glória. Tudo começou, em 1919, com a passagem pela cidade do minúsculo e frágil hidroavião "NC4", pilotado pelo americano Albert C. Read, aquando da primeira travessia aérea do Atlânlico Norte, com escalas. Anos mais tarde, outros pilotos - italianos, alemães, americanos, franceses - escolhem a Horta como ponto de escala para as suas tentativas, nem sempre bem sucedidas, de travessia do Atlântico. Em 1929 pousa na Horta o que era então o maior avião do mundo, o «Dornier DO-X», monstro de 30 toneladas e 12 motores, e em 1933 parte da esquadrilha italiana do marechal Balbo no regresso do "raid" aéreo Roma, Chicago, Roma.

Mas é com a passagem pela cidade, nesse mesmo ano, do aviador Charles Lindbergh que a Horta entra na história da aviação comercial. Nesse voo de reconhecimento, por conta da Pan American, o herói da travessia solitária do Atlântico pôde verificar o interesse da cidade come escala das futuras ligações regulares por hidroavião entre a Europa e a América.



A primeira companhia a utilizar a Horta como base de apoio foi a Lufthansa, que, de 1936 a 1938, realizavários voos com o recurso a navios-catapulta. A Imperial Airways (precursora da actual BA - Brilish Airways) e a Air France realizam voos entre 1937 e 1939. Com a introdução dos gigantescos hidroaviões "clipper" pela Pan American, a Horta é, de 1939 a 1945, escala das carreiras regulares entre a Europa e a América.


Fonte: Nina (Blogue)



António José de Ávila
Duque de Ávila e Bolama


António José de Ávila nasceu a 8 de Março de 1807, numa modestíssima habitação da Rua de Santo Elias, da freguesia da Matriz da então vila da Horta, Ilha do Faial, Açores, filho de Manuel José de Ávila, sapateiro de ascendência picoense, e de Prudenciana Joaquina Cândida, lavadeira, oriunda de famílias pobres da Matriz da Horta.

Dos dez filhos do casal, apenas quatro sobreviveram até atingir a idade adulta, o que diz das condições de vida da família. Entre os filhos que atingiram a idade adulta, António José, o futuro duque, era o rapaz mais velho, apenas precedido por sua irmã Joaquina Emerenciana (nascida em 1804). Os outros sobreviventes foram Maria do Carmo (nascida em 1815) e Manuel José, o último filho do casal (nascido em 1817).

Durante a infância de António José as condições económicas da família melhoraram substancialmente, tendo o pai enveredado pelo comércio e conseguido amealhar alguns recursos. Tanto assim é que, quando António José termina com excepcional brilho os poucos estudos então disponíveis no Faial, já o pai dispunha de meios suficientes para lhe permitir estudos fora da ilha, o que então era privilégio de poucos.
Brasão do Duque de Ávila e Bolama

Assim, com apenas 15 anos, Ávila matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde estudou filosofia natural e os preparatórios de Matemática. Frequentou também naquela Universidade o primeiro ano de Medicina. Dos tempos de estudante não se lhe conhece qualquer militância política.

Com o início da Guerra Civil de 1832-34, regressou aos seus Açores, onde se achava o governo liberal no exílio, tornando-se um político local de grande sucesso.

Após o fim da guerra (1834, foi eleito pela primeira vez para as Cortes, pelo círculo dos Açores; durante 26 anos consecutivos, foi deputado da Nação ao Parlamento.

Com o fim dos ciclo de governos setembristas (com a subida ao poder, pela primeira vez, do cartista Joaquim António de Aguiar, em 1841. Ávila tornou-se ministro das Finanças, cargo que manteve durante os governos de Costa Cabral e do Duque da Terceira. Só com a subida ao poder de Saldanha, abandonou o governo. Em 1857, no primeiro governo do Duque de Loulé, voltou a assumir a pasta da Fazenda.

Por Alvará de Mercê Nova de 9 de Outubro de 1860, concederam-se a António José de Ávila as seguintes Armas de Ávila: esquartelado, o 1.º e o 4.º de ouro, com uma águia estendida de negro, o 2.º e o 3.º de prata, com três faixas de vermelho, acompanhadas de quatro olhos sombreados de azul, alinhados em banda; timbre: a águia do escudo.

1941 - Sobrescrito comemorativo do 1º voo de Horta
para Bolama (Guiné Portuguesa)
Quando, em 4 de Janeiro de 1868, se deu a Janeirinha, que pôs termo ao governo de coligação a que presida Joaquim António de Aguiar, Ávila foi chamado a exercer as funções de presidente do Conselho.

Enquanto chefe de governo, Ávila revogou o imposto que causara a impopularidade e queda do governo anterior, mas tal agravou as dificuldades financeiras do Estado, pelo que acabaria por cair em 22 de Julho do mesmo ano.

Voltaria ainda a ser ministro das Finanças, e de novo presidente do Conselho entre 29 de Outubro de 1870 e 13 de Setembro de 1871, altura em que foi substituído por Fontes Pereira de Melo. Foi então designado para presidir à Câmara dos Pares, em substituição do Duque de Loulé.

Em 1877, devido ao descontentamento popular, o governo Fontes caiu, e Ávila foi de novo chamado a formar governo, o qual durou dez meses, até Fontes voltar ao Poder.

No ano seguinte, foi nobilitado com o título de 1.º Duque de Ávila e Bolama, em recompensa pelos serviços prestados ao País, e como gratificação pelas negociações por si encetadas, tendo em vista a posse da ilha de Bolama, na Guiné,, por Portugal.


Dr. Manuel D'Arriaga



Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue (Horta, 8 de Julho de 1840 - Lisboa, 5 de Março de 1917) foi um advogado, professor, escritor e político de origem açoriana. Grande orador e membro destacado da geração doutrinária do republicanismo português, foi dirigente e um dos principais ideólogos do Partido Republicano Português. A 34 de Agosto de 1911 tornou-se no primeiro presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo na chefia do Estado ao Governo Provisório presidido por Teófilo Braga. Exerceu aquelas funções até 29 de Maio de 1915, data em que foi obrigado a demitir-se, sendo substituído no cargo pelo mesmo Teófilo Braga, que como substituto completou o tempo restante do mandato.

Manuel de Arriaga nasceu na casa do Arco, no centro da cidade da Horta, filho de Sebastião José de Arriaga Brum da Silveira e de sua esposa Maria Cristina Pardal Ramos Caldeira. Pertencente à melhor sociedade faialense, o pai era um dos mais ricos comerciantes da cidade, último administrador do morgadio familiar e grande proprietário. A família, com pretensões aristocráticas, traçava as suas origens até ao flamengo Joss Van Aard, um dos povoadores iniciais da ilha. Foi neto do general Sebastião José de Arriaga Brum da Silveira, que se distinguira na Guerra Peninsular, e sobrinho-neto do desembargador Manuel José de Arriaga Brum da Silveira, que em 1821 e 1822 fora deputado pelos Açores às Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa.











O Vulcão dos Capelinhos

Primeira fase eruptiva

De 16 a 27 de Setembro de 1957, registou-se uma crise sísmica na ilha com mais de 200 sismos, de intensidade não superior a grau V da Escala de Mercalli. No dia 23 de Setembro de 1957, a água do mar começou a fervilhar. Três dias depois, a actividade aumentou intensamente havendo emissão de jatos negros de cinzas vulcânicas com cerca de 1 000 metros de altura (atingindo a altitude máxima de 1 400 metros) e uma nuvem de vapor de água que subia por vezes a mais de 4 000 metros.

A 27 de Setembro, teve início pelas 06.45 horas uma erupção submarina, a 300 metros da Ponta dos Capelinhos (ou seja, a 100 metros dos Ilhéus dos Capelinhos). A partir de 13 de Outubro, a emissão de gases e as explosões de piroclastos, ainda que violentas, passaram a ser menos frequentes. Estas foram rapidamente sucedidas por explosões violentas, atirando bombas de lava e grandes quantidade de cinzas para o ar, enquanto que, por baixo, correntes de lava escorriam para o mar. A erupção continuou intensa até 29 de outubro, com constantes chuvas de cinzas sobre o Faial que destruíram culturas agrícolas e forçaram a evacuação das populações das zonas mais próximas do vulcão.

A erupção evoluiu formando primeiro uma pequena ilha a 10 de Outubro, chamada de "Ilha Nova" (ou "Ilha dos Capelinhos", e ainda, "Ilha do Espírito Santo"), com 600 metros de diâmetro e 30 metros de altura, ficando com a cratera aberta ao oceano. Dada a temperatura, a emissão de materiais revelou um tom acinzentado. A ilha atingiria por fim os 800 metros de diâmetro e 99 metros de altura. Esta primeira pequena ilha afundou-se na cratera, no dia 29 de Outubro.

Munido da sua câmara de filmar, Carlos Tudela e Vasco Hogan Teves, repórteres da RTP, desembarcaram a 23 de Outubro na ilha recém-nascida, na vertente do vulcão activo. Acompanhado do jornalista Urbano Carrasco, do Diário Popular, arriscaram as suas vidas num pequeno barco a remos (movido por Carlos Raulino Peixoto) para colocar a bandeira nacional na "Ilha Nova".


Segunda fase eruptiva

A 4 de Novembro de 1957, a erupção vulcânica recomeça e rapidamente se formou uma nova ilha. Com a formação de um istmo, no dia 12 de Novembro, a ilha ligou-se à ilha do Faial. A actividade eruptiva aumentou progressivamente, atingindo o seu máximo na primeira quinzena de dezembro, surgindo um segundo cone vulcânico. A 16 de Dezembro, depois de uma noite de chuvas torrenciais e abundante queda de cinzas, cessou a actividade explosiva e começou a efusão de lava incandescente, a que se juntaram, três dias depois, as explosões com jactos de cinzas e muitos blocos de pedra. Precisamente no dia 29 de Dezembro, a actividade eruptiva conheceu uma nova e breve pausa.

Terceira fase eruptiva

De janeiro a abril de 1958, reapareceram jatos pontiagudos de cinzas, geralmente acompanhados de fumos brancos ou acastanhados. Em março, os Ilhéus dos Capelinhos já haviam desaparecido definitivamente sob manto das cinzas e areias, tendo estas formado dois areais de apreciável dimensão, chegando a atingir vários metros de espessura junto ao farol e nas áreas adjacentes, o que levou ao soterramento de casas e à ruína dos telhados de muitas habitações próximas, ainda hoje visíveis.




No início de 1958, John Scofield, repórter da revista National Geographic, e o famoso fotógrafo Robert F. Sisson, passaram um mês a documentar as várias fases da erupção.

Depois da violenta crise sísmica na noite de 12 para 13 de maio, em que houve mais de 450 sismos, a erupção dos Capelinhos sofreu reajustamentos profundos no edifício vulcânico e na estrutura tectónica. A partir de 14 de Maio, a actividade passou ao tipo estromboliano, com fortes ruídos, acompanhados de ondas infra-sónicas que fizeram estremecer portas e janelas em toda a ilha e, por vezes, nas ilhas próximas, e com a projecção de fragmentos de lava incandescente que iam a mais de 500 metros de altura. Também nesse dia, surgiram fumarolas no fundo da Caldeira (vulcão central da ilha), que emitiam vapor de água com cheiro a enxofre e com lama em ebulição.

A erupção constituiu "um espectáculo grandioso", um misto de belo e horrendo que jamais será esquecido por quem o presenciou. É legado transmitido para as gerações seguintes. A erupção prosseguiu por mais uns meses, consistindo em explosões moderadas do tipo estromboliano com várias correntes de lava, a última das quais a 21 de Outubro, sendo observado no dia 24 de Outubro, pela última vez a emissão de fragmentos incandescentes.





Assembleia Legislativa Regional


1987 -  Projecto do arquitecto Manuel Correia Fernandes

A Assembleia Legislativa Regional dos Açores localiza-se na cidade e concelho da Horta, na ilha do Faial. Constitui-se no órgão legislativo e de fiscalização parlamentar da Região Autónoma dos Açores.


1859/2009 - 150 anos da
Sociedade "Amor da Pátria"

Sociedade Amor da Pátria
Funcionou, desde a inauguração da autonomia até 1980 no edifício da loja maçónica "Sociedade Amor da Pátria" e, dessa data até 1990, em local vizinho à atual sede, no local onde existiu a chamada "colónia alemã".

Hoje encontra-se instalada num edifício de linhas contemporâneas, construído de raiz com essa finalidade com projeto do arquiteto Manuel Correia Fernandes, e inaugurado em junho de 1990. Exteriormente apresenta características minimalistas. No seu interior destaca-se a sala do plenário, no centro do edifício, iluminada por uma grande cúpula central, visível do exterior.

1986 - 10 anos da ALRA


1895/1995 - 100 anos de Autonomia

1976/1996 - 20 anos da ALRA