sábado, 27 de junho de 2026

Sanjoaninas 2026 - 50 anos de Autonomia

 






Selo personalizado comemorativo
Emissão do NFAH


Autor: Tomé Ribeiro Gomes

Aos cinquenta anos, a autonomia regional merece ser celebrada. Celebrada não só no sentido cerimonial do termo, usado para ocasiões como os feriados nacionais, em que as figuras centrais da nossa vida nacional fazem discursos, as Forças Armadas desfilam perante o povo e todos se põem em sentido para ouvir o hino.

Merece isso, é certo, mas também merece outro tipo de celebração. Aquela que tem lugar quando fazemos anos ou casamos ou assistimos à vitória da nossa equipa: a celebração enquanto festa. Porque nos Açores, e em particular na Ilha Terceira, sem festa não há povo, e sem povo a autonomia não teria nada dentro.

Foi esse povo que, nesta e noutras ilhas, viveu o tumultuoso processo de criação da democracia, entre 1974 e 1976, debatendo o seu futuro entre muitos outros possíveis. O resultado foi um estatuto político-administrativo inédito no ordenamento jurídico português: a autonomia regional. As nove ilhas passaram a ser uma só entidade política, embora uma entidade composta por várias comunidades. É o mar que as isola, que as separa umas das outras e do resto do mundo.

No seu isolamento determinado pela geografia – que nos Açores “vale outro tanto como a história”, escreveu Nemésio – cada comunidade ganha os seus hábitos, as suas maneiras de falar, de ser e de pensar. Porém, o compromisso autonómico convoca-as para uma conversa sobre o destino comum do arquipélago.

Este debate sobre o nosso futuro partilhado é o cerne da autonomia. Se queremos saber para onde vamos, temos primeiro de saber de onde partimos. Ou seja, saber quem somos. Esta pergunta não encontra resposta no abstrato, mas sim da prática diária da açorianidade. A resposta esconde-se algures no nevoeiro, na gastronomia, nos sotaques, nas cantigas populares, na aflição dos sismos, no Espírito Santo, e em tantas outras coisas que tomamos por banais, mas que nos tornam únicos.

Tudo isto é nosso, mas também é para partilhar, não fosse o gosto de bem receber outro traço distintivo açoriano. Nestas festas, os angrenses abrem as portas da cidade às outras ilhas, ao continente, à diáspora, para que venham viver a sua riquíssima cultura. Durante estes dias, Angra é o ponto de encontro do arquipélago onde, com descontração, alegria e generosidade, se prova que os açorianos são um povo. O que é algo que nem todos podem dizer.



Carimbo comemorativo
CTT - Correios de Portugal



Sanjoaninas 2026
Bilhete-postal máximo comemorativo
Edição do NFAH

Texto e ilustrações (selo e postal)
de Rúben Quadros Ramos



Sanjoaninas 2026
Bilhete-postal comemorativo (frente)
Edição do NFAH

                                                       Texto e ilustrações (selo e postal)
                                                            de Rúben Quadros Ramos





Medalha comemorativa dos 50 anos da Autonomia Açoriana

Emissão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
Tirarem de 300 exemplares numerados à francesa (34/300)


                              

                                                         Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores

| 𝗦𝗲𝘀𝘀ã𝗼 𝗖𝗼𝗺𝗲𝗺𝗼𝗿𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗻𝗮𝗹𝗮 𝟱𝟬 𝗮𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗮𝘀 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗮𝘀 𝗲𝗹𝗲𝗶çõ𝗲𝘀 𝗹𝗲𝗴𝗶𝘀𝗹𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮𝘀 𝗱𝗼𝘀 𝗔ç𝗼𝗿𝗲𝘀
O Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo acolhe, no próximo dia 27 de junho, pelas 18h00, a Sessão Comemorativa dos 50 anos das primeiras eleições legislativas dos Açores, uma iniciativa integrada no programa oficial das comemorações dos 50 Anos da Autonomia dos Açores.
A sessão evoca um dos momentos mais marcantes da história democrática da Região Autónoma dos Açores: a realização, em 1976, das primeiras eleições para a Assembleia Regional dos Açores, marco fundador do exercício da autonomia política consagrada pela Constituição da República Portuguesa.
O programa inclui a Cerimónia de Obliteração da Emissão Filatélica "Açores: 50 Anos de Autonomia", promovida pelos CTT Correios de Portugal, assinalando simbolicamente esta importante efeméride da história autonómica açoriana através de uma emissão comemorativa especialmente dedicada ao cinquentenário da Autonomia.
A iniciativa contempla ainda a conferência "A Participação Democrática na Consolidação das Autonomias Regionais", que será proferida pelo advogado e professor universitário António Vitorino, personalidade de reconhecido prestígio nacional e europeu, cuja reflexão incidirá sobre o papel da participação cívica e democrática na afirmação e consolidação das autonomias regionais ao longo das últimas cinco décadas.


TESTEMUNHOS



Dr. João Caboz Santana, Diretor de Filatelia dos CTT Correios de Portugal
Apresentação da série comemorativa, seguindo-se a obliteração e assinaturas testemunhais.







  

                   
Dr. Luís Manuel Garcia, Presidente da Assembleia Legislativa da
Região Autónoma dos Açores




Dr. José Manuel Bolieiro, Presidente do Governo Regional dos Açores


Sra. Eng.ª Fátima Amorim, Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo



Testemunhas do lançamento

Dr. João Caboz Santana
Dr. José Manuel Bolieiro
Dr. Luís Manuel Garcia
Eng.ª Fátima Amorim


50 anos da Autonomia dos Açores
Emissão comemorativa dos CTT - Correios de Portugal

27 de Junho de 1976

Primeiras Eleições Legislativas Regionais






A 2 de abril de 1976, a autonomia dos Açores foi consagrada na Constituição da República Portuguesa, reconhecendo o direito dos açorianos ao autogoverno e à gestão democrática dos seus interesses próprios.

Desde então, a autonomia tem sido um instrumento decisivo para valorizar as pessoas, respeitar as especificidades do território, reforçar a coesão entre as ilhas e impulsionar o desenvolvimento económico, social e cultural da Região, no contexto do Estado português e da construção europeia.

Celebrar a autonomia é reconhecer o caminho percorrido, mas também reafirmar os valores que a sustentam como a democracia, a participação, a solidariedade e o futuro.


Datas históricas


2 de Abril de 1976 - Aprovação da Constituição da República Portuguesa.

27 de Junho de 1976 - Primeiras Eleições Legislativas Regionais

27 de Junho de 1976 - Eleição do General Ramalho Eanes como Presidente da República

20 e 21 de Julho de 1976 - Instalação da Assembleia Legislativa dos Açores

4 de Setembro de 1976 - Sessão Solene inaugural da Assembleia Regional dos Açores

8 de Setembro de 1976 - Tomada de Posse do 1.º Governo Regional dos Açores





50 anos da Autonomia dos Açores
Emissão comemorativa dos CTT - Correios de Portugal
Sobrescrito de 1.º dia de circulação com carimbo de Angra do Heroísmo









António Vitorino defende que compensar as assimetrias das regiões autónomas é um ato de justiça

Nos 50 anos das primeiras eleições legislativas dos Açores, o ex-comissário europeu defendeu a revisão da Lei das Finanças Regionais e destacou o valor estratégico do arquipélago.

O antigo comissário europeu António Vitorino defendeu este sábado que é justo compensar as assimetrias das regiões autónomas, mas destacou também as oportunidades que existem para os Açores na Europa, nas áreas da defesa e dos oceanos.

“Há que reconhecer, desde logo, os constrangimentos e especificidades regionais, que impõem e justificam mecanismos diferenciadores de acesso aos recursos públicos em termos que se adaptam aos condicionalismos da própria região, mas corrigir e compensar as assimetrias é não só um ato de justiça, mas também uma forma de demonstrar que o resultado final beneficia todos, aqueles que contribuem e aqueles que recebem”, afirmou, referindo-se à revisão da Lei das Finanças Regionais.

António Vitorino falava este sábado, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, numa sessão comemorativa das primeiras eleições legislativas dos Açores, que se realizaram há 50 anos.

Numa altura em que se volta a discutir a revisão da Lei das Finanças das Regiões Autónomas, reivindicada pelos Açores e pela Madeira, o antigo ministro disse que a alocação de recursos é “sempre um teste à maturidade do estado de desenvolvimento e consolidação das autonomias regionais” e um teste à “disponibilidade e vontade de solidariedade e coesão nacional de todos os protagonistas”.

António Vitorino considerou que a autonomia regional evoluiu das “desconfianças iniciais” à “maturidade atual”, mas ressalvou que é “um processo de construção gradual”, que tem de ser “uma realidade viva, adaptada às circunstâncias, às necessidades e também às oportunidades”.

Para o antigo comissário europeu, os Açores têm oportunidades em duas áreas que ganham destaque na Europa: a defesa e os oceanos.

O posicionamento da atual administração norte-americana trouxe uma “crise de confiança na relação transatlântica”, numa altura em que o eixo de gravidade da União Europeia já se tinha deslocado para leste, alegou António Vitorino.

Para o orador, este cenário coloca aos países de vocação atlântica, como Portugal, “uma responsabilidade acrescida na busca de soluções políticas e operacionais”, que evitem uma “rutura” dos Estados Unidos com a Europa, que minimizem um “progressivo descomprometimento americano” e que valorizem “a relevância do Atlântico na defesa e segurança de todo o continente europeu”.

“Basta pensar, aliás, aqui onde estamos hoje, nas operações dos submarinos russos no Atlântico, no papel da ‘shadow fleet’ russa na violação das sanções impostas à venda de petróleo da Federação Russa por parte da União Europeia e dos Estados Unidos e, sobretudo, na função crítica dos cabos submarinos que garantem as comunicações entre todo o continente europeu e as Américas”, apontou.

O antigo comissário europeu defendeu, por isso, que a frente atlântica “não pode ser descurada” nas prioridades de defesa e segurança europeias, salientando que “os Açores representam, neste contexto, uma componente essencial da defesa e segurança da União Europeia”.

Outra “área de grande interesse para os Açores”, segundo António Vitorino, é a Agenda Europeia dos Oceanos, que levou mais de cinco anos a ser preparada e foi agora adotada.

No dia em que se comemoraram 50 anos das primeiras eleições legislativas regionais nos Açores, o antigo ministro lembrou a “elevada taxa de participação nesse ato eleitoral”, com “mais de dois terços dos açorianos” a dirigirem-se às urnas, e destacou a evolução da autonomia.

“Creio que podemos dizer, com sinceridade, que vencidas aquelas resistências iniciais, as últimas décadas têm demonstrado que a progressiva consolidação das autonomias regionais permitiu aquilo que hoje é a consolidação e um grau de maturação, cujas vantagens estão à vista de todos”, avançou.

António Vitorino destacou a introdução do círculo de compensação nas eleições legislativas regionais, que considerou “uma solução inovadora no contexto nacional”, citada no continente como “fonte de inspiração, tendo em vista garantir a representatividade, mas também a ligação dos eleitos aos eleitores”.

“O sistema eleitoral vigente aqui nos Açores, especialmente depois da alteração introduzida em 2006, pretende responder a este complexo de interesses e de valores de representação, de interesses territoriais, pluralismo na representação democrática e dos interesses sociais, tudo isto tendente a reforçar a própria autonomia. Se me permitem a opinião de um continental neste tema sensível, eu acho que este sistema eleitoral tem provado bem”, frisou.

A sessão, que decorreu no salão nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, incluiu também uma cerimónia de obliteração de uma emissão filatélica dos CTT dedicada aos 50 anos da autonomia dos Açores.

In: Observador (28-06-2026)




segunda-feira, 22 de junho de 2026

Largo 22 de Junho (1828)

 



** LARGO 22 DE JUNHO ***
~ Palácio dos Capitães Generais ~

Na noite de 21 de Junho de 1828, reagindo à aclamação de D. Miguel, o Batalhão de Caçadores n.º 5, que estava a guarnecer a Fortaleza de São João Baptista, em Angra, tornou-se um pilar fundamental para a instauração do liberalismo.

No dia 22 Junho de 1828 - o Capitão General Tovar (o 9º capitão General) vinha tomando medidas de repressão dos liberais na Terceira, deportando, vigiando e perseguindo alguns, possivelmente uma das razões pelas quais se deu a revolta de 22 de Junho de 1828, pois ao saberem que estavam previstas novas deportações, um grupo de liberais comandou um conjunto de operações que, na noite de 21 de Junho, prende o governador no castelo de S. João Baptista, e o Capitão General Tovar, no Palácio.
A 22 de Junho de 1828 aclama-se D. Pedro como rei legítimo de Portugal, bem como sua filha, D. Maria, de acordo com a Carta Constitucional – o Largo que se encontra na fachada Oeste do Palácio recebe como nome essa data.



~ Património Histórico ~

O edifício foi inicialmente concebido como o Colégio da Companhia de Jesus de Angra, fundado em 1570 por alvará do rei D. Sebastião de Portugal.
No entanto, a sua construção só teve início entre 1608 e 1609, sendo a ocupação definitiva registada apenas por volta de 1620.
O conjunto arquitetónico, que combina influências do Maneirismo e do Barroco, apresenta uma planta retangular regular, com dois andares organizados em torno de um pátio central. A igreja, de uma só nave e dedicada a Santo Inácio de Loyola, está situada na extremidade sudeste do edifício.
O edifício conta também com um jardim, situado na antiga cerca, que se destaca pelos amplos passeios, flora variada e árvores imponentes. Um chafariz elegante, que verte água para um grande tanque, confere serenidade ao espaço.
Este colégio foi um importante centro de educação nos Açores, promovendo o ensino de latim, filosofia, teologia e escolástica.
Em 1760, com a expulsão dos jesuítas, o edifício foi confiscado pela Fazenda Real. Mais tarde, em 1766, durante as reformas do Marquês de Pombal, seria adaptado para sede da recém-criada Capitania Geral, função que desempenhou até à sua extinção em 1830.
Durante a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), o palácio acolheu a Junta Provisória e, posteriormente, abrigou o governo da Regência do Reino de Portugal, em nome da rainha D. Maria II. Serviu também como Paço Real em dois momentos significativos: em 1832, durante a estadia de três meses de D. Pedro IV, e em 1901, ao receber D. Carlos I e D. Amélia de Portugal na Visita Régia à Madeira e aos Açores.
No final da monarquia e já sob o regime republicano, o palácio serviu de assento a vários serviços públicos, nomeadamente ao Governo Militar, à Junta Geral do Distrito Autónomo e ao Governo Civil. Foi também o local onde jantaram, em 1971, Georges Pompidou, presidente da França, e Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos, a convite de Marcelo Caetano, chefe do governo português, por ocasião da Cimeira Atlântica.
Após a criação da Região Autónoma dos Açores em 1976, o palácio passou a integrar os bens regionais, abrigando diversos departamentos governamentais e, no andar nobre, a residência oficial do Presidente do Governo Regional na ilha Terceira.
Desenho do artista terceirense, caríssimo amigo Emanuel Félix, a quem muito agradeço, fazendo parte, a partir de hoje, do meu espólio.


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Santos Populares - São João

São João


O cristãos há muito interpretam a vida de João Batista como uma preparação para o Advento de Jesus e as circunstâncias de seu nascimento, relatados no Novo Testamento, são também milagrosos. O único relato bíblico sobre o nascimento do profeta está no Evangelho de Lucas.

Os pais de João, Zacarias - um sacerdote judeu - e Isabel não tinham filhos e já haviam passado da idade de tê-los.

Durante uma jornada de trabalho servindo no Templo de Jerusalém, ele foi escolhido por sorteio para oferecer incenso no Altar Dourado no Santo dos Santos. O Arcanjo Gabriel apareceu para ele e anunciou que ele e sua esposa iriam dar à luz uma criança e que ele deveria chamá-lo de João. Porém, por não ter acreditado na mensagem de Gabriel, ele ficou mudo até o nascimento de seu filho. Os seus parentes quiseram então dar-lhe o nome do pai e Zacarias, sem poder falar, escreveu: "Seu nome é João" e sua voz voltou .

Depois de ter obedecido o comando de Deus, ele recebeu o dom da profecia e previu o futuro de João. O cântico que Zacarias profere em seguida, chamado Benedictus, é utilizado até hoje nos serviços litúrgicos de diversas denominações cristãs.

Na Anunciação, quando o Arcanjo Gabriel apareceu para a Virgem Maria para informá-la que ela iria conceber seu filho Jesus através do Espírito Santo, ele também a informou de que Isabel, sua prima, já estava grávida de seis meses, Maria então viajou para visitar Isabel.

O Evangelho de Lucas relata que o bebê "chutou" no ventre de Isabel quando ela cumprimentou Maria.

O Dia de São João é um dos mais antigos festivais do cristianismo, já aparecendo no concílio de Agde, em 506 d.C., como um dos principais festivais da época, um feriado e, como o Natal, era celebrado com três missas: uma pela manhã, uma ao meio-dia e outra no pôr-do-sol.

O nascimento de João Batista no dia de 24 de junho ocorre três meses depois da celebração da Anunciação, em 25 de março e seis meses antes do Natal, que celebra o nascimento de Jesus. Obviamente, o objectivo das festas não é marcar a data exacta destes eventos, mas sim comemorá-los de forma interligada.

O nascimento de São João Batista é um feriado importante no calendário dos santos, mantido pelas Igrejas Católica, Anglicana e Luterana.

O dia da morte de um santo é geralmente comemorado na sua festa, com exceção de Jesus, da Virgem Maria e de João Batista, embora a morte deles também seja celebrada no calendário litúrgico (Jesus na Sexta-Feira Santa, Maria na Assunção de Maria e João na Decapitação de João Batista). A razão - na doutrina católica - é que São João, como Jeremias e a Virgem, foi purificado do pecado original antes de seu nascimento, embora o nascimento de João não seja imaculado como no caso da Virgem.
A festa do Batismo de Jesus comemora o batismo realizado por João em Jesus.



Na Igreja Ortodoxa e em outras Igrejas Orientais, São João Batista é geralmente chamado de São João, o Precursor, um título utilizado também no ocidente (em grego: Πρόδρομος e em latim: Precursor). Este título indica que o objetivo do seu ministério era preparar o caminho para o advento de Jesus. No oriente também, o dia de São João é celebrado em 24 de junho. É uma festa maior e é celebrado como uma vigília de noite inteira e com uma pós-festa de um dia.

A questão naturalmente surge sobre o motivo da celebração se realizar no dia 24 ao invés do dia seguinte, se o objectivo é cair precisamente seis meses antes do Natal. Já foi por vezes alegado que as autoridades da Igreja queriam cristianizar as celebrações pagãs do solstício e, por isto, colocaram a festa de São João como substituta. Esta explicação é questionável, pois durante a Idade Média o solstício acontecia no meio de Junho por conta da inacuracidade do calendário juliano. Foi apenas em 1582, com a introdução do calendário gregoriano, que o solstício retornou ao dia 21 de Junho como acontecia no século IV.

Portanto, uma explicação mais provável do motivo pelo qual a festa cai em 24 e junho está no modo de contagem romano, que procedia de trás para frente a partir das "calendas" (primeiro dia) do mês seguinte. O Natal era "o oitavo dia das calendas de janeiro" (Octavo Kalendas Januarii). Consequentemente, o nascimento de São João foi colocado no "oitavo dia antes das calendas de Julho". Porém, como Junho tinha apenas 30 dias, a festa caiu finalmente no dia 24 de junho.

Igreja de São João Batista
em Angra do Heroísmo
De qualquer forma, o significado da festa caindo por volta do solstício é considerado como significativo, relembrando as palavras do próprio João Batista sobre Jesus: «É necessário que ele cresça, e que eu diminua» (João 3:30).

Junto com a Festa de São Pedro e São Paulo e a Festa de Santo António, a Festa de São João é celebrada por todos os países lusófonos como parte das festas juninas, onde o sincretismo do significado religioso e pré-cristão é mais evidente.

Fonte: Wikipédia







 MUSEU EM EXPOSIÇÃO

Santos com história: São João Baptista


Em 1642, depois de ter mantido um cerco que obrigou as forças castelhanas confinadas no então Castelo de S. Felipe, a renderem-se, o povo da ilha Terceira, reunido na Câmara de Angra, solicitou a D. João IV, que mudasse o nome desta fortaleza de S.Felipe para S. João, em honra ao recém-aclamado rei, e que autorizasse a construção de uma igreja com evocação a S. João Baptista. O monarca acedeu e, por alvará de 1643, autorizou a edificação da nova igreja, concedendo o título de "sempre leal" à cidade de Angra, bem como outros privilégios e mercês aos seus cidadãos. Esta imagem, que pertence à Unidade de Gestão de Belas-Artes do Museu de Angra do Heroísmo, terá sido uma das primeiras a ocupar o altar mor da igreja então edificada, integrando agora o altar da Capela de Luiz Gonzaga da Igreja de Nossa Senhora da Guia.

S. João Baptista é o primeiro mártir da Igreja e o último dos profetas. O seu prestígio justifica o fato de, no calendário hagiológico, se ter feito coincidir o seu nascimento com as ancestrais comemorações do solstício de verão e de ser muito valorizado como padroeiro e protetor. Deve o seu cognome a ter batizado Cristo cujo nascimento e sacrifício anunciou. Daí ser representado ostentando um bastão em forma de cruz e segurando o “Cordeiro de Deus que tira os pecados do Mundo”. As suas vestes de pele de camelo, animal de temperamento hostil e capaz de resistir por longo tempo à sede no deserto, seguras por uma tira de couro, remetem simbolicamente para a renitência dos homens em aceitar a palavra de Deus e para a sua subjugação ao pecado.

 

sábado, 13 de junho de 2026

Santos Populares - Santo António



Santo António





Santo António nasceu em Lisboa em data incerta, numa casa, assim se pensa, próxima da Sé, às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja sob sua invocação. A tradição indica 15 de agosto de 1195, mas não há documento fidedigno que confirme esta data. Também foi proposto o ano de 1191, mas, segundo um seu biógrafo, o padre Fernando Lopes, as contradições em sua cronologia só se resolveriam se ele tivesse nascido em torno de 1188. Tampouco se sabe com certeza quem foram seus pais. Nenhuma das biografias primitivas os citam, e somente no século XIV, a partir de tradições orais, é que se começou a atribuir ao pai o nome de Martim ou Martinho de Bulhões, e à mãe, o de Maria Teresa Taveira.

Fixando-se esses nomes na memória popular, e com a crescente fama do santo, não custou a biógrafos tardios atribuírem também aos seus pais uma dignidade superior. Do pai foi dito ser descendente do celebrado Godofredo de Bulhões, comandante da I Cruzada, e da mãe, que descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas tal parentesco nunca pôde ser comprovado. A forma de seu nome de batismo é igualmente obscura, pode ter sido Fernando Martins ou Fernando de Bulhões.

Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior (hoje Sé de Lisboa), sob a direção dos cónegos da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho. Como era a prática da ordem, deve ter recebido instrução no currículo das artes liberais do trivium e do quadrivium, o que certamente plasmou seu caráter intelectual.

Ingressando ainda um adolescente como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, iniciou os estudos para sua formação religiosa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões.

Poucos anos depois pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, já que era constantemente visitado por amigos e parentes.

Coimbra era na época o centro intelectual de Portugal, e ali se deve ter envolvido profundamente no estudo das Escrituras e nos textos dos Padres da Igreja. Nesta época entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos, chegados em Portugal em 1217, e que estavam a caminho do Marrocos para evangelizar os mouros. Sua pregação do Evangelho no espírito de simplicidade, idealismo e fraternidade franciscana, e sua determinação missionária, devem ter tocado o sentimento de Fernando. 

Entretanto, uma impressão ainda mais forte ocorreu quando os corpos desses frades, mortos em sua missão, voltaram a Coimbra, onde foram honrados como mártires. Autorizado a juntar-se a outros franciscanos que tinham um eremitério nos Olivais, sob a invocação de Santo António do Deserto, mudou seu nome para António e iniciou sua própria missão em busca do martírio. 


Por essa altura, decidiu deslocar-se ele também a Marrocos, mas, lá chegando, foi acometido por grave doença, sendo persuadido a retornar. Fê-lo desalentado, já que não havia proferido um único sermão, não convertera nenhum mouro, nem alcançara a glória do martírio pela fé. No regresso, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Ali se quedou até a primavera de 1221, dirigindo-se com eles então para Assis a fim de participarem do Capítulo da Ordem - o último que seria feito com a presença do fundador. Em Assis encontrou-se com São Francisco de Assis e os seus primeiros seguidores, um evento de grande importância em sua carreira. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.

Pouco depois aconteceu uma ordenação de frades em Forlí, quando deixou o isolamento e para lá se dirigiu. Até então os franciscanos não sabiam de sua sólida formação, mas faltando o pregador para a cerimónia, e não havendo nenhum frade preparado para tal, o provincial solicitou a António que falasse o que quer que o Espírito Santo o inspirasse. Protestou, mas obedeceu, e dissertando para os franciscanos e dominicanos lá reunidos de forma fluente e admirável, para a surpresa de todos, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia. Entretanto, a prática franciscana desencorajava o estudo erudito, mas em Novembro de 1223 o papa Honório III sancionou a forma final da Regra da Ordem Franciscana, onde uma formação mais aprimorada se tornou autorizada, desde que submissa ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Recebendo a aprovação para a tarefa pastoral do próprio Francisco, fixou-se então em Bolonha, onde se dedicou ao ensino da teologia na universidade e à pregação. Deslocando-se em seguida para a França, ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também por Lomoges.

Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, após a morte de Francisco, seviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para apresentar-lhe a Regra da Ordem. Em 1227 foi indicado provincial da Romagna e passou os três anos seguintes pregando na região, incluindo Pádua, para audiências cada vez maiores. Nesse período colocou por escrito diversos sermões. Em 1230 solicitou ao papa dispensa de suas funções como provincial para dedicar-se à pregação, reservando algum tempo para a contemplação e prece no mosteiro que havia fundado em Pádua. Sempre trabalhando pelos necessitados, envolveu-se também em questões políticas, a exemplo de sua viagem a Verona para pedir a libertação de prisioneiros guelfos feitos pelo tirano gibelino Ezzelino, e em 1231 persuadiu a municipalidade de Pádua a elaborar uma lei que impedia a prisão por dívidas se houvesse a possibilidade de compensação de outras formas.
   

Pouco depois da Páscoa de 1231 sentiu-se mal, declarou-se hidropisia e ele deixou Pádua para dirigir-se ao eremitério de Camposanpiero, nos arredores da cidade. Seus companheiros ergueram-lhe uma cabana no alto de uma árvore, onde permaneceu alguns dias. Percebendo que a morte estava próxima, pediu para ser levado de volta a Pádua, mas apenas tendo alcançado o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, ali faleceu, em 13 de junho de 1231. As clarissas reclamaram seu corpo, mas a multidão acabou sabendo de seu passamento, tomou-o e o levou para ser sepultado na Igreja de Nossa Senhora. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio, pelo papa Gregório IX. Os seus restos mortais repousam desde 1263 na Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização.

Quando sua tumba foi aberta para iniciar o processo de translado, sua língua foi encontrada incorrupta, e São Boaventura, presente no ato, disse que o milagre era prova de que sua pregação era inspirada por Deus. E incorrupta está até hoje, em exposição na Capela das Relíquias da Basílica.

Foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de Janeiro de 1946 e é comemorado no dia 13 de Junho.

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses e valdenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).


1895 - Santo António
Série Açores
Obliterada em Angra do Heroísmo

Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos como Aristóteles, Cícero, Catão, Sócratres, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tíbulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho, Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio,Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,


"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".

Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extracção do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina.

Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.

Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.

A devoção popular o colocou entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e lhe atribui até os dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas se multiplicam pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome.

Na tradição lusófona Santo António está acima de todos em prestígio. Sua veneração foi levada de Portugal para o Brasil, onde enraizou rápido e também dominou o coração do povo. Era tanta a familiaridade que o santo inspirava, que passou a ser uma espécie de "propriedade privada" de todos. Como relatou Grillot de Givry, "não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isso, a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo António". Estava em toda parte: "nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios". Também era invocado pelos senhores para recuperar escravos fugidos.

A mesma familiaridade criou práticas esdrúxulas no culto popular. Se um pedido não era atendido, a imagem do santo podia ser submetida a torturas e castigos. Deitavam-na de barriga para o chão e punham-lhe uma pedra em cima; escondiam-na num poço escuro, retiravam-lhe o Menino Jesus dos braços, ou arrancavam-lhe o resplendor. Acreditava-se que o castigo acelerava a concessão da graça, e explicavam a violência dizendo que em sua juventude o santo desejara morrer martirizado em nome da fé. Luminares do clero, como o Padre Vieira, também de certa forma reforçavam essas crenças. Num sermão disse:
   
"Não haveis de pedir a Santo António como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo António: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandado como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: por que atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o pedido em Santo António não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condená-la de todo, pelo que tem de piedade".
É um dos santos honrados nas popularíssimas Festas Juninas e diversos costumes folclóricos estão ligados ao santo. a título de exemplo, no Brasil moças casadoiras retiram o Menino Jesus das estátuas e só o devolvem quando arrumam casamento; uma prece especial, os "responsos", são feitas para que ele ajude a encontrar objetos perdidos; no dia de sua festa muitas igrejas distribuem um pão especialmente abençoado, os "pãezinhos de Santo António", que deve ser guardado em uma lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.


Ele teve inclusive uma brilhante carreira militar póstuma. Inúmeras cidades da Espanha, Portugal e Brasil lhe conferiram títulos militares, condecorações, insígnias e outras honrarias, iniciando-se o curioso hábito quando o regente Dom Pedro ordenou em 1668 que ele fosse recrutado e assentasse praça como soldado raso no II Regimento de Infantaria em Lagos, sendo promovido sucessivamente a capitão e coronel. Com o posto de tenente-coronel, sua imagem foi levada pelo XIX Regimento de Infantaria em Cascais à frente dos combates da Guerra Peninsular, recebendo depois uma condecoração. Dom João VI, após o feliz desembarque no Brasil em sua fuga da invasão napoleónica, o nomeou sargento-mor, promovendo-o depois a tenente-coronel. 

Fonte: Wikipédia


 
 
Ermida de Santo António no Monte Brasil
Angra do Heroísmo

Desenho de Emanuel Félix


Situada no interior das muralhas da fortaleza do Monte Brasil, fazia parte da Quinta de Regalo, uma zona de recreio criada pelo governador espanhol de então, D. Gonçalo Mexia, por volta de 1615, na encosta leste do monte voltada a Angra.
 
A Casa de Regalo ainda existe, também, mas a estrutura da quinta desapareceu.
 
A festa a Santo António originava romarias e incluiu, em algumas épocas, tiros de pólvora de pequenas peças de artilharia, a partir de dois baluartes decorativos cujos restos ainda se notam.





Ermida de Santo António
Monte Brasil - Angra






Altar da Ermida de Santo António
Monte Brasil - Angra






A 13 de Junho de 1888 nascia em Lisboa o imortal e o mais universal poeta português.




Fernando Pessoa

SANTO ANTÓNIO


Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

Mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma auréola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instinto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro título de glória,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido tais quando aqui andámos,

Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que há na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nulidade, a que se chama história,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retrato, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vai alta a lua

Num plácido e legítimo recorte,

Atira risos naturais à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?


(Fernando Pessoa)