sábado, 10 de março de 2018

Frei Diogo das Chagas (1584-1661)

 

 

Frei Diogo das Chagas


 [Santa Cruz das Flores, 1584? - Angra, depois de 1661?] Conhecido apenas pelo seu nome de religião, era filho do capitão-mor Mateus Coelho da Costa e de Catarina de Fraga Rodovalho. Foram seus irmãos Pedro de Fraga Rodovalho (capitão-mor e ouvidor das Flores e Corvo após a Restauração), pe. Inácio Coelho (vigário da matriz de Santa Cruz das Flores durante cerca de 30 anos, ouvidor eclesiástico, juiz dos resíduos das Flores e Corvo e padroeiro do convento franciscano fundado nas Flores em 1641), Maria Coelho Fagundes e o fr. Mateus da Conceição (primeiro provincial da Província de S. João Evangelista dos Açores). Oriundos da Terceira, seus avós paternos Baltasar Coelho da Costa ? filho de João Coelho, um dos companheiros de Jácome de Bruges ? e Violante Valadão, passaram às Flores «com o brazão da sua nobreza». Aqui nasceram sete dos seus dez filhos, entre os quais Mateus Coelho da Costa. Pelo lado materno, era neto de Inácio de Fraga ? descendente de Afonso Gonçalves Antona, que da Terceira também foi para as Flores ? e de Garcia Dias Fagundes, a quem dedicava uma particular afeição. É que, enviuvando aos 27 anos e, apesar de «lhe saírem muitos casamentos e bons», acabou por recolher-se a casa de sua filha, Catarina de Fraga Rodovalho e, após o falecimento desta, à da neta Maria Coelho Fagundes, onde veio a falecer em 1608 com 90 anos. Fr. Diogo das Chagas, com quem a avó partilhava a sua cama em pequeno, exalta as suas virtudes cristãs, especialmente as de oração, caridade e penitência. Coloca-a, mesmo, à cabeça «das pessoas que na ilha das Flores morreram com opinião de santos». Aliás, confessa que «nenhum pregador teólogo melhor me podia doutrinar», recordando a influência e, sobretudo, o exemplo que dela recebera (1989: 557-558).

Talvez em meados de 1588, Mateus Coelho da Costa resolveu mudar-se com a família para S. Pedro, em Angra, onde permaneceu até 1590. Os filhos e a mãe foram então crismados por D. Manuel de Gouveia porque, explica Diogo da Chagas (1989: 250) «quem não vem cá não se crisma porque não vão lá os bispos, coisa que eu tenho por mal feita». Fora padrinho de Baltasar ? o futuro Frei Mateus da Conceição ? o mestre-de-campo António Centeno, castelhano, «grande amigo de seu pai», anota Monte Alverne (1960-62, III: 39). Diogo das Chagas contava então 5 para 6 anos.
 
Mas «como seus pais, a fazenda que tinham nas Flores a não pudessem conduzir para a cidade de Angra», escreve o mesmo autor, Mateus Coelho da Costa regressou de novo às Flores. Porém a morte da esposa, ocorrida em 1594, fê-lo voltar a Angra, fixando-se agora na Rua do Rego. Em 1597 ou 1598, Mateus Coelho da Costa casou com Francisca Furtada de Mendonça, senhora por quem Diogo da Chagas parece não ter nutrido simpatia.
 

Pouco se conhece da infância do futuro frade, para além das parcas informações que sobre si mesmo dá. Educado nos princípios tradicionais da doutina e moral cristãs - «doutrina foi com que meus pais me criaram» - não deixa de manifestar o interesse cultural que o ambiente familiar lhe proporcionou e que documenta. Referindo-se, por exemplo, a uma obra manuscrita de Pedro Coelho sobre a crueldade de D. Pedro, escrevia: «esta relação que era em sátiras se leu muitas vezes em casa de meus pais, sendo eu menino» (1989: 324).
 
Diogo da Chagas terá certamente feito os seus primeiros estudos no colégio da Companhia de Jesus como seu irmão Mateus da Costa ou, eventualmente, com os franciscanos em Angra. Aliás aqui recebeu as ordens menores e, não havendo bispo nos Açores, partiu para o Reino em 1612 a fim de ser ordenado sacerdote. Regressado à Terceira, dois anos depois estava a cursar Artes na cidade e, em 1616 estudava em Coimbra, certamente Teologia. Na Quaresma de 1619 pregou no convento franciscano de Portalegre e no ano seguinte chegou aos Açores. Exerceu o magistério de teologia nos conventos franciscanos da Terceira e, em 1627, foi feito guardião do convento da Praia. Dois anos depois seria o pregador da custódia.
 

A fr. Diogo das Chagas e, sobretudo, a seu irmão fr. Mateus da Conceição, se ficou a dever a elevação da custódia franciscana dos Açores à categoria de província, separando-se, assim, da Província Franciscana dos Algarves e constituindo-se na Província de S. João Evangelista dos Açores. Com efeito, concedido o breve pelo Papa Urbano VII em 1638, só em 1641 e após o movimento da Restauração, teve execução efectiva, embora custando a fr. Mateus da Conceição mais de um ano de masmorra e a seu irmão «uma quaresma» de cativeiro (Monte Alverne (1960-62), I: 40-47).
 
Em 1646, fr. Diogo das Chagas foi feito vigário provincial dos franciscanos nos Açores, cargo que terá exercido até 1649. Nesta qualidade percorreu em quatro anos sucessivos todo o arquipélago, o que lhe deu um melhor conhecimento da terra e das gentes açorianas. Era já o «padre mais digno» da província em 1655, altura em que convocou os «definidores» da província a fim de elegerem um novo provincial. Em 1659 já não exercia o cargo, mas Diogo Barbosa Machado afirma que ainda vivia em 1661.

Fr. Diogo das Chagas tinha-se na conta de «grande português», adversário do domínio castelhano, confessando-se ainda crente na morte de D. Sebastião. Era amigo pessoal do capitão-mor Francisco de Ornelas da Câmara que foi, como se sabe, enviado de D. João IV para efeitos da sua aclamação nos Açores. Pouco ou nada teria conseguido este capitão, se não fossem a orientação e auxílio de fr. Diogo. Aliás, este arriscaria por vezes a sua vida na defesa do ideal pátrio que o animava. «Nunca houve ocasião de perigo em que eu o não acompanhasse», escrevia ele próprio, mais tarde, a respeito de Francisco de Ornelas da Câmara, na sua completa e esclarecida Relação. Também o pe. Manuel Luís Maldonado e, posteriormente, Francisco Ferreira Drumond deixariam testemunhos inequívocos da acção deste franciscano no movimento restaurador de 1640 e na expulsão dos espanhóis da ilha Terceira.

 
Além de Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, escreveu as seguintes obras históricas: Relação do que aconteceu na Cidade de Angra da ilha Terceira, depois da feliz aclamação d?el-rei D. João IV, que Deus guarde, na restauração do Castello de S. João Baptista do Monte Brasil, até se embarcarem os castelhanos que o occupavam... (publicado por José de Torres in Panorama, XV (1885) e Archivo dos Açores, X (1888). Segundo Diogo Barbosa Machado, terá escrito: Fundação da Provincia de São João Evangelista das Ilhas dos Açores. De natureza ascética escreveu: Meditação da luta do Diabo com Adam, pelo qual sahio Christo Senhor Nosso a lutar com o Diabo; Consolação da pobreza, e remedio para qualquer muito muito pobre, ser muito rico e De como se busca e acha a Bem aventurança.
 
 
Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores é a sua obra histórica principal, embora se desconheça ainda a Fundação da Provincia de S. João Evangelista..., se bem que Francisco Ferreira Drumond a tenha dado como existente na Biblioteca Nacional, no espólio de Manuel Severim de Faria.

Espelho Ccristalino foi escrito nos anos subsequentes à Restauração. É possível que só tivesse iniciado a sua redacção em 1646, terminando-a depois de 1654. Antes elaborara a relação do que aconteceu na Cidade de Angra..., e Fundação da Provincia..., obras que, aliás, cita amiúde ao longo do texto.


Fr. Diogo da Chagas é, naturalmente, um escritor influenciado pelo seu tempo. A primeira parte desta obra é, em termos metodológicos e até de conteúdo, profundamente inspirada na Monarquia Lusitana começada por fr. Bernardo de Brito e continuada por fr. António Brandão e fr. Francisco Brandão. A ideia de antiguidade do reino de Portugal e, por isso, da sua justificada independência, está presente neste livro, que é também expressão de um vivo sentimento antifilipino e de autonomia nacional. Mas, ele ainda reflecte a tendência que então se verificava para a epitomização e popularização da história de Portugal, fomentada por um largo público.
 
 
Em Espelho Cristalino também se detectam marcas das Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso, como já observara Baptista de Lima. Além das informações que colhe e algumas vezes critica, Diogo das Chagas, na descrição das ilhas, segue uma orientação próxima de Frutuoso. Mas não sobrepõe em absoluto épocas ou temas. Bem pelo contrário, desenvolve, sobretudo, períodos mais recentes ou desconhecidos cujos assuntos explana com objectividade.
 
«Não é meu intento fazer crónica» (1989: 97, 147, 417, 421), declara repetidamente o autor. Para ele a história terá de cumprir uma finalidade pragmática: perpetuar «as memórias daqueles que... nos deram o primeiro ser» (1989: 403). A noção de história ?mestra da vida? é bastas vezes evocada. Cultivando a historiografia de ?padrão e exemplo?, fr. Diogo das Chagas desenvolve por vezes a hagiografia tão propensa ao miraculoso e tantas vezes com duvidoso sentido de verosimilhança.
 
Privilegiando sobretudo as fontes originais manuscritas, serve-se dos tombos das câmaras de Angra, S. Sebastião, Ponta Delgada, Vila Franca e Ribeira Grande, dos livros paroquiais da matriz da Praia e Cabo da Praia, testamentos, escrituras, sentenças, diversa documentação camarária e dos cartórios dos órfãos, sé e conventos franciscanos da Terceira e outros. Mas, apara além da sua obra assentar numa investigação realizada sobretudo nos arquivos locais ou na bibliografia consultada, Diogo das Chagas é também um observador atento e um narrador que procura ser fiel e isento. Aspectos da geografia física e humana ou de natureza antropológica são por ele apontados. Aliás, a novidade do seu conteúdo, a objectividade e o rigor com que foi escrita conferem-lhe grande valor e credibilidade. Artur Teodoro de Matos (2001)
 
Obra (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. Ed. de Artur Teodoro de Matos, Secretaria Regional da Educação e Cultura / Universidade dos Açores.
 
Bibl. Lima, M. C. B. (1950), A Fenix Angrense do Padre Manuel Luís Maldonado. Boletim do Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, I, 2. Monte Alverne, A. (1960-62), Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I e III.

Fonte: DRC (Açores)