quarta-feira, 15 de março de 2017

O Hospital dos Descobrimentos





1492
 O HOSPITAL DOS DESCOBRIMENTOS

I
OMBRO A OMBRO COM A HISTORIA

Século XVIII - Igreja da Misericórdia

A expansão ultramarina portuguesa, ini­ciada com a conquista de Ceuta, abriu a era das descobertas com a chegada ao Porto Santo, em 1417. Em 1512, António de Abreu chegava às Molucas e ao Pacífi­co, roçando a Austrália (1) e atingindo partes que Fernão de Magalhães alcançaria em 1522 pelo hemisfério espanhol. O Tratado de Saragoça (1529), deslo­cando 17 graus para Leste o meridiano de Tordesilhas, completava o abraço que os povos ibéricos deram à volta do mundo.

António de Abreu, no seu regresso a Portugal, veio morrer aqui nos Açores, e quem sabe se teria sido um dos moribundos acolhidos no Hospital do Santo Es­pírito, fundado duas décadas atrás.
É que – assim nos vamos distraindo de marcos da nossa História – foi no mesmo ano em que Colombo atingiu as Caraíbas, e até uns meses antes dessa via­gem, que se instituiu, na que então era a vila de Angra, um hospital sob a in­vocação do Espírito Santo. 
Passaram já mais de 500 anos sobre esta instituição. E é a comemoração deste acontecimento notável que nos reúne agora aqui.

O texto que se conhece como carta da fundação do hospital foi divulgado há mais de 20 anos pela mesa da Santa Casa da Misericórdia de Angra, segundo a leitu­ra dele feita por João Afonso, membro dela e do Instituto Histórica da Ilha Terceira.  É o seguinte :



«Anno do nascimtº de nosso Sor. Jesu Christo de mil, e quatro centos, e noventa e dous annos, aos quinze dias do mes demarço da ditta era em ailha Terçeira na villa dangra dentro em a caza de Santo espirito daditta vila estando o Sr joão Vaaz corte real capitão, e João Borges cavaleiro da ca­za DelRei nosso Snr., e João de laguos Juiz doditto hospital, e Afonso An­nes da Costa, e João de lameguo mordomo da ditta confraria e assi os con­frades da ditta confª, que forão todos chamados á campa tangida, e com elles Vasco Fz escudeiro delRei nosso Snr. que ora tem carreguo de prove­dor das capellas, e hospitaes, & Alberguarias em todas hestas ilhas dos assores. E loguo por todos os sobredittos juntam.te foi ditto que por ser­viço de Deus e louivor do espirito santo em hesta villa se ordenara de se fazer heste hospital, E porquanto pª semelhantes hospitaes e couzas que dão agrado e serviço de Deus era mtº necessario todallas couzas suas an­darem por regra, e ordenança em guiza que tudo viesse a boa arrecadação e nosso S.or for servido, e as almas delles todos que esta obra comessa­rão, e fazem e ordinario fazerem sejão satisfeitos e comprido pª sempre o que elles; e cada hu Delles mandão fazer nos encargos, comque dão suas fazendas pª o ditto hospital forem compridos, e andar todo emverdadeira ordem : assi o que aguora he aoprezente, como o que depois usar em tal guiza que toda seja a serviço de deus como ditto he : Disserão que era necessario fazer-se entre elles hu compromisso da ordem, e maneira, que se em o ditto hospital ha-de estar para sempre : e assi hu livro de tom­bo, em que todalas couzas hajão de ser muito declaradam.te, e os sobredit­tos todos fizerão, e ordenarão heste compromisso nesta maneira, que sese­gue.(...)» (2)
  
O Hospital começou, pois, como obra da irmandade do Espírito Santo. Só mais tarde – bastante mais tarde, diga-se – se juntou com a «Casa da Santa Mi­sericórdia». Foi em 1556, e o acordo sobre este ajuntamento também faz parte daqueles documentos publicados em 1970 : são agora os «capitolos, que sefize­rão pª o ajuntam.to das cazas do hospital, e misa. desta cidade de Angra dai­lha terceira» «aos doze de abril de mil, e quinhentos, sincoenta, e seis annos». Incluem minuciosas reservas, conservatórias dos antigos direitos da irmandade do Hospital, agora absorvida pela Misericórdia, de protecção real. Essas caute­las e ressalvas não vão ser agora aqui expostas, por falta de tempo, e só mais adiante se referirá um aspecto delas. Mas sente-se que houve uma conquista ­– um pouco como a sucessão filipina na coroa portuguesa e as garantias pres­tadas pelo rei espanhol nas Cortes de Tomar.


Rua Direita em Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
2. Por isso, a igreja do Hospital é conhecida como a igreja da Misericór­dia. E provavelmente foi a Misericórdia que a construiu – e não só esta, em que estamos, mas a primitiva, que se implantava aqui também. A igreja actual, hoje a findar a sua reconstrução, é uma das mais modernas da cidade de Angra. Data do século XVIII e a sua traça interior assemelha-se aos vários templos de uma só nave e da mesma época que se encontram, por exemplo, na cidade de Lisboa. A igreja primitiva seria, provavelmente, já do século XVI. É certo que o segundo documento publicado pela mesa da Misericórdia em 1970 e que é de 1497 tem uma epígrafe que refere, como se fosse um título : «Seguemse os Assentos.e Acordos sobre as missas do hospital e confraria do Spirito Santo. E das mais couzas dellas pertencentes. E à igreja do Spirito Santo e Caza do hospltal. que se diga missa todas as quintas feiras do anno em louvor do Spi­rito Santo». Mas esta epígrafe não é o documento de 1497 o qual, após nomear os confrades presentes, se limita a dizer que «assentarão, que se digua missa do spirito santo todas as quintas feiras de cada hu ano por louvor do Spirito Santo». É, por isto e à falta de outros elementos, mais presumível que a missa das quintas feiras fosse  celebrada em uma capela do próprio hospital e não ainda na igreja que António Cordeiro nos descreve no roteiro da cidade de Angra: «Tem mais a dita cidade, ao entrar do porto, pela famosa Rua Direi­ta, e à mão direita também, a Real Misericórdia com o seu Hospital anexo, e tudo primo fundado por el Rei, e aumentado depois por várias pessoas; é igre­ja que corre com a rua, sem se afastar da direitura da casaria, e por isso muito larga, de três naves e três como altares mores, e outros vários à roda, e menos funda do que pedia a largura, por lhe correr por detrás a rua de San­to Espírito; mas ainda assim tem todas as casas e repartições que costuma ter uma nobre Misericórdia; e logo na rua de Santo Espírito tem seu Real Hospital, e com mais largueza para trás (...) e tem a Misericórdia tantos capelães com seus ordenados, que celebram cada dia os ofícios divinos em seu coro juntos» (3).

1903 - Igreja da Misericórdia
Aqui já se apercebe uma igreja, enquadrada por duas ruas da cidade e como que condicionada por elas – feita, portanto, quando essas ruas existiam já –; e com os seus capelães e actos de culto diários.
O que resta desta primeira igreja?

As obras de consolidação e restauro da actual revelaram o que parecem ser os caboucos da igreja anterior, efectivamente voltada à Rua Direita, lar­ga e curta. Esses caboucos podem visitar-se, pois se lhes tem acesso por de­baixo do sobrado da igreja agora restaurada. Vêem-se restos mortais de gente que foi enterrada nessa primeira igreja. E sentimo-nos tentados a supor que as duas capelas que se projectam sobre a Rua do Santo Espírito possam corres­ponder a dois daqueles «como altares mores» que António Cordeiro registou. 

O hospital, «anexo», como reza a descrição, ficava do outro lado da Rua, mas ligava-se à igreja por uma passagem coberta que atravessava a mesma rua, como um arco. Linschöten desenhou assim o Sprital na sua carta de Angra, de 1595.


II
OS AÇORES NOS DESCOBRIMENTOS

Brasão de Armas Real
3. «O Senhor João Vaz Corte Real, capitão»... Quando se reflecte naquilo a que João Vaz deveu a sua capitania de Angra, mergulhamos de chofre em um capítulo da história dos Descobrimentos portugueses. Um dos mais obscuros, para não dizer mesmo um dos mais misteriosos – e por isso mesmo merecedor de uma atenção mais cuidada – : o das viagens para o Ocidente.

Gaspar Frutuoso, nas páginas que dedica a este homem – e em que, até pe­lo modo como o conta («alguns querem dizer», «dizem também») aparece a lenda e a confusão entre João Vaz e o seu próprio pai, Vasqueanes Corte-Real (4) é peremptório numa coisa : «Estando (a ilha Terceira) sem capitão, vieram Ter a ela dois homens fidalgos, por nome um deles João Vaz Corte Real e outro Á­lvaro Martins Homem, os quais vinham da Terra do Bacalhau que, por mandado de el-rei, foram descobrir e (...) a pediram de mercê por seus serviços à infan­ta D. Beatriz (...) a qual lhes fez mercê dela, e ambos a partiram pelo meio, e lograram, e possuíram seus descendentes (...)» (5).

Álvaro Martins Homem

Esta viagem ocorreu por 1472 e a doação das capitanias é de 2 de Abril de 1474; sendo que Angra se achava ao tempo já fundada e dotada mesmo de uma infra-estrutura industrial, que outra coisa não era a levada da Ribeira dos Moinhos. Por esta obra, devida a Álvaro Martins Homem – o verdadeiro fundador de Angra e seu inventor como futura cidade marítima – foi ele indemnizado quando teve de deixar a povoação ao seu companheiro mais qualificado, João Vaz, o principal daquela empresa à Terra do Bacalhau. 


Que significado teria a «descoberta» da Terra do Bacalhau, para tornar esses dois homens merecedores do prémio de uma capitania para cada um, com to­dos os seus poderes senhoriais?

4. Os historiadores contemporâneos, retomando a etimologia correcta, alargaram o conceito do adjectivo «Mediterrâneo» – inicialmente aplicado àque­le mar interior, fechado entre a Europa do Sul, a África do Norte e a Ásia Ocidental – à qualificação de outros mares entre outras terras que por via deles se relacionavam. É assim que se fala do «Mediterrâneo Nórdico» (o Mar do Norte com o Báltico) e do «Mediterrâneo Gaélico» (6).


Este último, cuja vida se anima durante a Idade Média, é um espaço marítimo que se estende da Península Ibérica à Escócia, pelo Golfo da Biscaia e o Mar da Irlanda. Ao longo deste espaço – que, nas terras circundantes, se traduz na presença de povos com raiz céltica – se desenvolveu, durante a primeira Dinastia portuguesa, boa parte das relações externas de Portugal.


João Vaz Corte Real

O pequeno país – reino, como então se dizia – que se emancipara de Leão e Castela no século XII cedo teve que se voltar para as actividades marítimas.
A sua longa costa tinha muitos portos e ancoradouros e do mar vieram importantes e decisivas ajudas para as conquistas dos primeiros réis. 
No tempo de D. Dinis, pescadores portugueses iam já pescar a águas inglesas, e os salvo­-condutos de 1294, confirmados em 1308, bem como a criação de uma bolsa de co­mércio na Flandres, atestam a intensidade destas relações (7). 

          Tais relações estreitam-se com a Inglaterra e a Flandres em termos polí­ticos durante a guerra dos 100 anos, que se estendeu de 1337 a 1453, definin­do uma linha de alianças que, de alguma maneira, apartou a um lado a Europa continental e, a outro, as (futuras) potências marítimas, marginais do solo europeu e dele excluídas pela própria natureza das coisas. Vale a pena reme­morar isto mesmo agora, com as clivagens que se vão desenhando relativamente à ainda problemática união europeia.

João Vaz Corte Real - Estátua existente no
 Museu de Angra do Heroísmo
Essas relações com a Inglaterra – e com os flamengos, seus aliados – ­atingem um ponto alto desde meados do século XIV. 
O Tratado de Londres, de 29 de Outubro de 1353, entre Eduardo III de Inglaterra e D. Afonso IV, depois o Tratado de Tagilde (10 de Julho de 1372) e o de Westminster (16 de Julho de 1373) entre Eduardo 111 e D. Fernando de Portugal, seguidos do Tratado de Windsor (9 de Maio de 1386) entre Ricardo II e D. João I, confirmam-no (8).

 Por outro lado, o casamento da Infanta Isabel com o Duque de Borgonha, senhor da Flandres, encontra-se nesta mesma linha. Este relacionamento económico-po­lítico vem a projectar-se nos Açores logo que, na segunda metade do século XV, as ilhas são povoadas e entram na História. Os flamengos estão presentes entre os primeiros povoadores. E a relação marítima com a Inglaterra tem, co­mo um dos seus expoentes, João Vaz Corte-Real, como depois teve com João Fer­nandes, o Lavrador.

Terra do Lavrador
Bristol – a antiga Brygstowe, depois Bristowe – desenvolveu-se como por­to mercantil fundamental do Mediterrâneo Gaélico. No fim do século XIV era o segundo porto da Inglaterra – o primeiro, Londres, voltava-se mais para o Me­diterrâneo Nórdico – Bristol ficava no centro de uma linha de tráfego por onde saiam panos ingleses e por onde passavam pescado do Mar do Norte, vinho, azeite e mesmo ferro da Península Ibérica (9).

 Navios portugueses lidavam nes­te tráfego e o próprio Cristóvão Colombo, na sua estância em Portugal, por ele andou, indo até à Islândia e recolhendo informes das viagens que se fa­ziam e tinham feito por essas partes do Norte. João Vaz Corte Real era homem do mar e andou por Inglaterra. Se foi ele ou o pai, Vasco Anes (Vasqueanes) o cavaleiro da Jarreteira – como refere Frutuoso – não é bem claro (10). Mas não pode negar-se a prática deste homem quanto aos mares ao Norte da Penínsu­la. Foi numa dessas viagens que João Vaz raptou, na Galiza, Maria de Abarca, com quem casou. E, em 1472, porventura em articulação com uma expedição dina­marquesa, há a viagem à Terra do Bacalhau (11). 

Arquipélago dos Açores
Esta viagem retomava a antiga rota dos normandos que, no século VI, se haviam estendido da Islândia à Gronelândia e de lá a terras ocidentais, onde fundaram uma colónia (Vinland) depois abandonada. Na costa da Gronelândia man­teve-se uma pequena colónia dinamarquesa até ao fim do século XIV, altura em que se extinguiu, à míngua de forças, de interesse prático e de ligação às metrópoles de origem (12).

 Havia, pois, bem 100 anos que os estabelecimentos nórdicos para esses lados estavam abandonados. Os islandeses, marítimos por longa tradição, pescavam no Mar do Norte, que todo ele é um grande banco, com os seus fundos não excedendo os 500 metros. Conservariam na sua memória co­lectiva esses mares ocidentais onde o bacalhau abundava – predador natural de águas pouco profundas, onde se encontravam uma corrente quente e uma cor­rente fria –. Mas quem reabriu essa rota e a actividade pesqueira que ela facultava foram os portugueses, justamente nos fins do século XV.
A Partilha do Mundo
          5. Dos Açores viajava-se para Ocidente praticamente desde o princípio do Povoamento. A viagem de Diogo de Teive e de Pero Velasco (Pedro Vazquez de la Frontera) é referida pelos biógrafos de Colombo, e está documentada em testemunhos produzidos em processos que ele sustentou em Espanha (13).

     Esta viagem, durante a qual se «descobriram» as Flores e o Corvo, parece estar na ori­gem de um interesse, mais do que curiosidade, em procurar por esses lados uma passagem para a Ásia. Paolo daI Pozzo Toscanelli, em 1429 (14) havia sido consultado precisamente sobre este assunto.

 A carta de Toscanelli ao cónego Fernão Martins é de 1474 – e recomenda que se persista no rumo do Oci­dente para atingir a Ásia. É neste contexto – anterior à concessão e à viagem de Fernão Teles (1475) e às de Fernão Dulmo (1486), e à grande viagem de três anos de Pero Pinheiro de Barcelos e de João Fernandes, o lavrador (1492/95) – que se realiza a viagem de Corte Real e de Álvaro Martins Homem, logo pre­miados com as capitanias da Terceira, que ambos ganharam.


A Terra dos Corte Reais
Há, assim, um período de meio século durante o qual se persiste nesse rumo ocidental, mas sempre segundo a rota nórdica – que até, vista a esfericidade da terra, seria sempre a mais curta –. Colombo, que viajou com os portugueses até à Islândia, deu-se conta disso. E não é difícil, antes se impõe, arti­cular estas viagens com o relacionamento marítimo entre Portugal e a Inglater­ra, que neste país se fazia sobretudo por Bristol, donde se ligava às pescas do Norte. Ao norte estava a Islândia, estavam os seus pescadores batidos nos mares boreais. Foi justamente em Bristol que João Fernandes veio a instalar­-se após a sua viagem com Pero de Barcelos. Das informações que trazia, re­sultou o apetite do rei de Inglaterra – já então Henrique VII Tudor – em ex­plorar também a rota do Ocidente. O seu instrumento foi outro genovês, João Caboto, que viajou para a Terra Nova, também em busca da Ásia, em 1497 (15).


Índia
Mas as viagens sucediam-se. O Oriente é que não estava ali. Muito embo­ra o mapa de Cantino (1502) chame à Gronelândia «a ponta da Ásia», o curioso é que ele mostra, a sudoeste dessa ponta, uma Terra do Rei de Portugal : mos­tra-a como uma ilha, sem qualquer ligação às Antilhas, também no novo mapa assinaladas já como sendo do rei de Castela. Essa referência à ponta da Ásia traz-nos inevitavelmente à ideia da passagem do Noroeste, que na verdade se­ria a mais curta se fosse praticável e não houvesse os grandes obstáculos que são as imensidões geladas do Ártico. 

Desta avançada portuguesa, feita de tenteios persistentes, e sempre reto­mando a rota normanda abandonada, não resultou encontrar-se o caminho do Ori­ente, que levaria à Índia e às suas riquezas. Mas resultou localizarem-se, ou reconhecerem-se, os grandes bancos da Terra Nova, que são os maiores pesquei­ros de bacalhau do mundo, superiores aos do Mar do Norte, ao tempo então os únicos explorados pelos escandinavos e escoceses.

Novo Mundo
Destas viagens, que procuravam «ilhas, terra firme por costa», quiçá a «ilha das sete cidades», e com elas o Oriente, que bem podia confundir-se com umas e outras, ficou uma presença portuguesa nos mares do bacalhau. Esta presença foi hegemónica, se bem que não exclusiva, durante um século. Ela permite inclusi­vamente entender os bons três anos da expedição de Barcelos e do lavrador (16) e as tentativas de povoamento, a partir dos Açores e do continente português  da costa canadiana. Tal como sucedera com os normandos da Vinland e da Terra Verde, esta colonização falhou pelo dureza do clima e o isolamento da Europa. Descendentes de Pero de Barcelos tentaram-na no século XVI. E o me­lancólico nome de Porto de Enganos, ao Norte da ilha de Cabo Bretão – depois transformado em Ninganis e hoje em Ingonish, ficou a atestar essa coloni­zação frustrada e finalmente extinta (17). 

Mas não a actividade piscatória. Tão intensa que já em 1506 o rei de Por­tugal a taxava com direitos de importação. A Terra de Corte Real manteve o seu nome nos mapas de então e a hegemonia piscatória portuguesa foi aí res­peitada (18). Até que em 1583 os ingleses estabeleceram na Terra Nova a sua primeira colónia. Curiosamente, no mesmo ano em que a herdeira dos Corte­-Reais, casada com Cristóvão de Moura, orientava a família ilustre para Espanha e para o valimento de Filipe II, finalmente vencedor da Terceira e das restantes seis ilhas que o haviam posto em xeque durante os três anos da sua longa, porventura ingénua e sem dúvida sacrificada resistência, por fidelidade a um rei português.


III
O HOSPITAL DO MAR

Rampa de acesso à Igreja da Misericórdia
6. Em 1492 estava-se ainda longe destes últimos acontecimentos. A dinâmi­ca portuguesa era ascensional. A 15 de Março desse ano, data da instituição do hospital, talvez já Pero de Barcelos e o lavrador houvessem partido para a sua demorada expedição à Terra do Bacalhau, por onde João Vaz, o principal da confraria fundadora, navegara 20 anos atrás. Colombo ainda nem preparava a sua frota de três caravelas (18-A) que sairia de PaIos de Moguer apenas em 3 de Agosto seguinte. Em 15 de Maio, dois meses depois da instituição do hospital de Angra, lançava­-se em Lisboa a primeira pedra do Hospital de Todos os Santos, que tinha a fachada principal para o Rossio e se desenvolvia em grande parte no espaço que é hoje o da Praça da Figueira.


A dinâmica era ascensional e era marítima. O novo hospital da Terceira localizou-se, por isso, à beira do mar e chegava-se a ele subindo a rampa que havia, e há, a seguir ao cais da Alfândega. Este cais era diferente do actual. Enraizava-se no lado poente da antiga foz da ribeira dos Moinhos, que Álvaro Martins Homem transformara em fonte de energia motriz e passara a desaguar por uma boca estreita mais a nascente, à beira da rocha do Corpo Santo. A ponta deste cais virava-se a sul. E era mais baixo, com paredes oblíquas, pa­ra serem facilmente galgadas pelo mar e assim melhor resistirem a ele. O cais actual pretendeu «opor-se» ao mar. Por isso este periodicamente o destrói e deixa a descoberto as pedras do primitivo, que em boa parte ainda lá estão...

Mapa de Linschoten
Como se vê da gravura de Linschöten, a mais antiga que desta zona se conhe­ce, ao lado cais havia bicas de água; à direita, o matadouro, junto à boca da ribeira; à esquerda, as casas da Alfândega; e acima, o hospital. Frutuoso relata: «Saindo da porta do mar à rua direita principal está uma formosa ca­sa da Misericórdia, com seu hospital anexo (...) grande e proveitoso refúgio de muitos enfermos e pobres da terra, e de muitos mais que pelo mar vêm de fo­ra, de muitas partes, por ser o porto desta cidade escala de muitas navega­ções" (19).
Quando Gaspar Frutuoso escreveu isto, o hospital tinha (já !) 100 anos. A sua criação, na altura em que se deu, mostra uma visão – e antevisão – das coisas que nos deixa surpreendidos e que não é propriamente timbre dos portu­gueses de hoje e mesmo dos de ontem... A esse tempo, somente a volta da Mi­na tinha Angra como escala de retorno e mais algum navio da Madeira ou da cos­ta africana.


Baía de Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
Talvez também da Terra Nova, desenhando a elipse setentrional (20), com os seus frutos, que eram do mar e não da terra, e que João Vaz, o capitão de Angra, e Álvaro Martins Homem, o seu verdadeiro fundador, haviam revelado ao mundo de então. Esta vocação de hospital portuário, oásis na ter­ra para os homens do mar, ressalta da sua localização. Mais tarde, quando a Irmandade do Espírito Santo e a Misericórdia se «ajuntaram», os confrades do hospital fizeram questão de salvaguardar uma séria de condições que mostram muitas coisas, incluindo a garantia desta vocação e as especificidades que ela impunha. «Capítulos» lhes chamaram. Eles ficaram escritos e o provedor da Santa Casa – era João da Silva do Canto, filho e irmão do Provedor das Armadas, neto de Duarte Galvão, o cronista-mór do reino e pai de Violante do Canto – de­clarou aceitá-los, com os demais irmãos.


Vista parcial de Angra do Heroísmo
(ao fundo a Igreja da Misericórdia)
 Às tantas nesses Capítulos lê-se o seguinte:

«Que os infermos, que seouverem de recolher no ditto hospi­tal, pera se nelle curarem, senão recebão, senão na ditta meza da quinta feira, oqual estara prezente com oditto Juiz, mordomo, escrivão o ftzico da caza pa ver, e repairar, diguo pª ver, E ex aminar, se se pode o tal infermo curar na ditta caza, ou não, e assi pera dar informação de toda­las couzas, que tocarem de cura dos dittos infermos, epera mais não – E os ditos offes. tão bem farão Exame, Se otal infermo tem fazenda, por on­de se cure, porque tendoa, não he razão que acaza guaste a sua com elles, pois senão fundou, senão pª pobres. E tanto que for recolhido otal infer­mo, se escreverá em Livro, que pª isso avera, no qual se pora odia, e anno, em que serecolhe, e o seu nome, e sobre nome, e deque terra he, co­mo sechama seo pai, e sua may, Eluogo se entreguara ao mordomo, pª que o mande {...), e prover, e ante delhe fazerem mezinha algua corporal, cha­marão ao capellão da caza que o venha confessar, e dar o santissimo sacra­mento da Eu charystia; e tanto que assi for confessado e communguado, En­tão o comessara a fazer de curar, segundo acalidade desua infirmidade o requerer. (...) Porque muitas vezes aconteçe, e principalm.te noverão, quan­do vem as naos da. India,_e navios daguine, e armadas, trazerem m.tos in­fermos à caza do hospital, que tem muita neçessidade de ser curados, epor virem ao dia de quinta frª, correrião periguo, se por ella esperassem, Em tal cazo o mordomo com o fizico reco lhera os taes infermos, e lhe fa­ra os remedios neçessarios com toda charidade; E porem a quinta frª loguo seguinte dara razão na mo (...) dos dittos infermos que assi quaes, equan­tos são, pª hi serem examinados pelo Juiz, e officiaes, pera verem, sesão dos que acaza he obriguada a curar, e se fazerem sobre isso as mais dili­gençias neçessarias, e segundo o que se então na ditta meza assentar, as­si se uzara, e fara com os dittos infermos.» (21).

7. Ajuntadas que foram as casas, o hospital permaneceu. E permaneceu com o seu nome, que era o da invocação sob que nascera – e que tinha força tamanha que ficou na própria rua (do Santo Espírito) para a qual abria e por cima da qual passou a comunicar com a sua igreja –. 



É de recordar que, no século XV, o Espírito Santo correspondia provavel­mente ao mais intenso culto português : e exprimia uma concepção inteiramente católica, porque universal, de um Cristianismo destinado a abarcar o mundo, to­dos os homens, por diferentes que fossem – e logo nessa altura em que, numa suces­são vertiginosa, novas terras, novas raças, novas gentes iam sendo encontra­das (22).


NOTAS

(1) K. G. MCINTYRE, «A descoberta secreta da Austrália», 66. O A. releva a prio­ridade para os portugueses na chegada ao Pacífico (Balboa só o alcançou no ano seguinte, nas costas ocidentais da América Central).
(2) «O Hospital de Angra nos Séculos XV e XVI», 4/5.
(3) «História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas no Oceano Ocidental», 280.
(4) «Saudades da Terra», Lº VI, capº 8º; cf. ERNESTO DO CANTO, «Os Corte Reais», in «Arqº dos Açores» (AA), 1V, 394, com base em genealogistas portugueses.
(5) «Saudades...» cit., cap. 9º.
(6) F. MAURO, «Les Açores et la Dynamique de l'Atlantique du XV ème siècle à nos jours», in «BoI. do Instit. Histº da Ilha Terceira» (BIHIT), XLV, 1º, 12.
(7) CALVET DE MAGALHÃES, «Breve História Diplomática Portuguesa», 35/36.
(8) Ibid., 35/40.
(9) S. E. MORISON, «The European Discovery of America – The Northern Voyages», 161/166.
(10) E. CANTO, loc. cit., 386/390. Vasqueanes (pai) é que era o homem das for­ças lendárias; teria sido também o primeiro a entrar em Ceuta, e talvez um dos Doze de Inglaterra. Era filho de Vasco Anes da Costa, companheiro de D. João I.
(11) Sobre o nome «Terra do Bacalhau», E. CANTO (loc. cit., 415) duvida que lhe tenha sido dado nesse tempo. Porém LUÍS DE ALBUQUERQUE ("Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses, Séculos XV e XVIII», I, 150) refere que o nome já existia em Portugal no seco XV.
(12) S. E. MORISON, op. cit., 60/61.
(13) J. CORTESÃO, «A Expansão Portuguesa no Período Henriquino», 187/221.
(14) E. CANTO (AA, XVI, 355) situa a consulta no mesmo ano da resposta -147~~; Porém J. CORTESÃO demonstrou que em 1459 já Toscanelli tinha contactos com embaixadores do rei de Portugal («Descobrimentos Portugueses», 1141).
(15) S. E. MORISON, op. cit., 159 e ss..          
(16) E. CANTO, «Quem deu o nome ao Labrador?», AA, XII, 357 e ss. (docs. a pp.
        369 e 529).
(17) M. C. BAPTISTA DE LIMA, «A Ilha Terceira na Colonização do Continente Americano no Século XVI», BIHIT, XVIII, 5/37, e Adenda, I a XIII.
(18) V. MAGALHÃES GODINHO, «Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar», 237 e 480; F. MAURO, loc. cit., 23.
(18-A) As Capitulações de Santa Fé são de Abril. A escolha dos navios, de 30/31 de Maio. O recrutamento dos marinheiros está a decorrer a 15 de Julho (JACQUES ATTALI, «1492», 153/158, 161/162, 170.
(19) G. FRUTUOSO, loc. cit., 27 (cap. 3º).
(20) V. M. GODINHO, op. cit., 77,99, 103, 240.
(21) «O Hospital de Angra...» cit., 15/16.
(22) A. MONJARDINO, «Uma dinâmica espiritual», in BIHIT, XLV, tomo 1º, 93 e ss..

Transcrição parcial do texto do Dr. Álvaro Monjardino, escrito em 1992