terça-feira, 21 de agosto de 2018

Angra Cidade - 484 anos (1534-2018)









História de Angra

 

O local escolhido pelos primeiros povoadores foi uma crista de colinas, que se abria, em anfiteatro, sobre duas baías, separadas pelo vulcão extinto do Monte Brasil. Uma delas, a denominada "angra", tinha profundidade para a ancoragem de embarcações de maior tonelagem, as naus. Tinha como vantagem a proteção de todos os ventos, exceto os de Sudeste.





As primeiras habitações foram erguidas na encosta sobre essa angra, em ruas íngremes de traçado tortuoso dominadas por um outeiro. Neste, pelo lado de terra, distante do mar, foi iniciado um castelo com a função de defesa, à semelhança do urbanismo medieval europeu: o chamado Castelo dos Moinhos.

 

Álvaro Martins Homem
 Por carta passada pela Infante D. Beatriz em 2 de Abril de 1474, a capitania de Angra foi doada a Álvaro Martins Homem, que ao tomar posse dela deu início aos trabalhos da chamada Ribeira dos Moinhos, aproveitando a forças de suas águas e lançando as bases para o futuro desenvolvimento económico da povoação. A partir da proteção propiciada pelo Castelo dos Moinhos (atual Alto da Memória), o casario acompanhou a Ribeira dos Moinhos até à baía, primitivamente por ruas e vielas sinuosas - ruas do Pisão, da Garoupinha, de Santo Espírito, das Alcaçarias - cuja toponímia conservou a memória de suas actividades económicas. Martins Homem deu início à chamada Casa do Capitão, posteriormente acrescentada por João Vaz Corte Real, que também procedeu à canalização da Ribeira, à construção do primitivo Cais da Alfândega, da muralha defensiva da baía de Angra e do Hospital de Santo Espírito.


 
 


Ao mesmo tempo, liberava a área do vale para que, de acordo com os princípios do urbanismo do Renascimento, pudessem ser abertas ruas obedecendo a um plano ortogonal, organizadas por funções, de acordo com as necessidades do porto que crescia com rapidez. Nesse plano ortogonal serão abertas as ruas da Sé e Direita, ligando os principais elementos da cidade: o porto e a casa do capitão nos extremos do braço menor, os celeiros do Alto das Covas e a Câmara Municipal nos do braço maior. Ao longo do século XVI a cidade crescerá até ao Alto das Covas e a São Gonçalo, embora com ruas de traçado mais irregular.


Desse modo, em poucos anos, desde 1478, a povoação fora elevada à categoria de vila e, em 1534, ainda no contexto dos Descobrimentos, foi a primeira do arquipélago a ser elevada à condição de cidade. No mesmo ano, foi escolhida pelo Papa Paulo III para sede da Diocese de Angra com jurisdição sobre todas as ilhas dos Açores.
As razões para esse vigoroso progresso deveram-se à importância do seu porto como escala da chamada Carreira da Índia, centrado na prestação de serviços de reabastecimento e reaparelhamento das embarcações carregadas de mercadorias e de valores. Por essa razão desde as primeiras décadas do século XVI aqui foi instalada a Provedoria das Armadas, com essa função e a de apoiar a chamada Armada das Ilhas. Posteriormente, no contexto da Dinastia Filipina, a estes vieram justar-se os galeões espanhóis carregados de ouro e prata, oriundos das Índias Ocidentais, numa rota que se estendia de Cartagena das Índias, passava por Porto Rico e por Angra, e alcançava Sevilha. Para apoiar essas fainas, foram implantados os primeiros estaleiros navais, na Prainha e no Porto das Pipas, e as fortificações que fecham a baía: o chamado Castelo de São Sebastião e o de São João Batista.




 

A Cidade, mais de uma vez, teve parte ativa na história de Portugal: à época Agosto de 1580 a 6 de Agosto de 1582. O modo como expulsou os espanhóis entrincheirados na fortaleza do Monte Brasil em 1641 valeu-lhe o título de "Sempre leal cidade", outorgado por D. João IV de Portugal.
 
Posteriormente, aqui esteve D. Afonso VI de Portugal, detido nas dependências da fortaleza do Monte Brasil, de 21 de Junho de 1669 a 30 de Agosto de 1684.




Angra constitui-se na capital da Província dos Açores, sede do Governo-geral e em residência dos
Capitães-generais, por Decreto de 30 de Agosto de 1766, funções que desempenhou até 1832. Foi sede da Academia Militar, de 1810 1832.





 

No século XIX, Angra constitui-se em centro e alma do movimento liberal em Portugal. Tendo abraçado a causa constitucional, aqui se estabeleceu em 1828 a Junta Provisória, em nome de D. Maria II de Portugal.
 
Foi nomeada capital do reino por Decreto a 15 de Março de 1830.

Aqui, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), D. Pedro IV de Portugal organizou a expedição que levou ao desembarque do Mindelo e aqui promulgou alguns dos mais importantes decretos do novo regime, como o que criou novas atribuições às Câmaras Municipais, o que reorganizou o Exército Português, o que aboliu as Sisas e outros impostos, o que extinguiu os morgados e capelas, e o que promulgou a liberdade de ensino no país.

Em reconhecimento de tantos e tão destacados serviços, o Decreto de 12 de Janeiro de 1837 conferiu à cidade o título de "mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo"e condecorou-a com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada.
 




 



 


A cidade sempre teve forte tradição municipalista, e a sua Câmara Municipal foi a primeira do país a ser eleita, já em 1831, após a reforma administrativa do Constitucionalismo (Decreto de 27 de Novembro de 1830).

 





 




 


Bilhete Postal comemorativo
do 25º aniversário de Angra do Heroísmo
Património da Humanidade


A classificação pela UNESCO da zona central de Angra do Heroísmo como Património da Humanidade, a 7 de Dezembro de 1983, fará ser a primeira cidade no país a ser inscrita na lista, reflete a sua importância histórica e cultural.






 


Bilhete Postal comemorativo
do 25º aniversário de Angra do Heroísmo
Património da Humanidade



Bilhete Postal comemorativo
dos 475 anos da elevação de Angra a Cidade



Bilhete Postal comemorativo
dos 475 anos da elevação de Angra a Cidade






Câmara Municipal de Angra do Heroísmo



Paços do Concelho até 1849


O edifício dos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo localiza-se no centro histórico da cidade e Concelho de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira.

Destaca-se por constituir, no país, num dos raros exemplos de um edifício camarário construído de raiz para a função que ocupa.
 


 
A sua implantação, na praça principal e mais central da cidade, contribuiu para que sempre houvesse sido o mais importante edifício civil da cidade, aí tendo se mantido ao longo de mais de 450 anos. Considerado o mais belo palácio municipal dos Açores, em suas salas encontram-se peças de inestimável valor histórico e patrimonial.


 
Aspecto da Praça e Casa da Câmara primitiva de Angra.
(na carta de João Hugo Linschoten, elaborada em 1589).

 
A Câmara Municipal de Angra ocupou três edifícios ao longo da História. O primeiro Senado de Angra data de 1474, tendo sido estabelecido por João Vaz Corte Real. O seu edifício situava-se sensivelmente no mesmo local do atual, com uma pequena praça defronte, como se pode reconhecer pela carta de Jan Huygen van Linschoten, em fins do século XVI.






O terramoto de 1608 causou enormes prejuízos no casario da cidade e, como consequência, a Praça onde se situava o edifício foi ampliada, e o edifício da Câmara remodelado em 1610. Em meados do século XIX o edifício foi uma vez mais remodelado, tendo sido escolhida a data da comemoração do 20º aniversário da Batalha da Praia, 11 de Agosto de 1849, para o lançamento da pedra fundamental. A inauguração solene ocorreu no mesmo dia, em 1866.


 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Igreja Matriz da Praia da Vitória


Igreja Matriz da Praia da Vitória


 
Fundada em 1456, erguida pelo primeiro capitão donatário, Jácome de Bruges, que aqui se fixou. Foi sagrada em 24 de Março de 1517 pelo bispo D. Duarte, que veio de visita aos Açores. Na ocasião, D. Duarte depositou várias relíquias numa caixa, na parede do altar-mor.

Reconstruída em 1577, nesta ocasião o rei D. Sebastião ofereceu-lhe as magníficas portadas de mármore em estilo manuelino. Sofreu alterações posteriores, nomeadamente em 1810 e 1942, em função dos grandes terramotos que assolaram a ilha em:

Ficheiro:Igr s cruz pr vitoria 4.jpg
Portal Manuelino
  • 24 de Maio de 1614;
  • 24 de Junho de 1810 de 1810;
  • 15 de Junho de 1841 e
  • 1 de Janeiro de 1980.
Do terrremoto de 1614, o padre António Vieira recordou, em sermão proferido na Bahia, em 1637:
"...tudo destruiu, com excepção do púlpito da Matriz, a Cadeia e o Hospital; símbolos da Verdade, da Justiça e da Misericórdia."
O seu órgão de tubos foi construído em madeira de mogno em 1793 por António Xavier Machado e Cerveira, tendo sofrido intervenção de restauro em 1991sob os cuidados de Dinarte Machado.








Câmara Municipal da Praia da Vitória

PRAIA DA VITÓRIA


Instalados definitivamente os primeiros povoadores na ilha Terceira, passou Jácome de Bruges, primeiro capitão donatário da ilha, ao lugar da Praia, onde fixou a sua residência, juntamente com seu lugar-tenente Diogo de Teive. A Praia constituiu-se assim na sede da capitania da Terceira entre 1456 e 1474, ano em que a ilha foi dividida em duas capitanias, pelo desaparecimento do donatário, ficando a capitania da Praia a cargo de Álvaro Martins Homem.


A região desenvolveu-se com rapidez, graças à cultura do pastel e do trigo. Desse modo, a Praia foi elevada a Vila, sede de Concelho, em 1480, ainda ao tempo de Álvaro Martins Homem.

No último quartel do século XVI, Gaspar Frutuoso assim descreve a vila:
"(...) e logo está a vila da Praia, nobre e sumptuosa e de bons edificios, edificados por muito bom modo, cercada de boa muralha, com os seus fortes e baluartes toda em redondo, povoada de nobres e antigos moradores, como uma das mais antigas povoações da ilha, rodeada de fermosas e ricas quintas de nobres e grandiosos fidalgos, com uma freguesia e sumptuosa igreja de três naves, com a capela-mor de abóbada e portais e pilares bem lavrados de pedra mármore, toda cercada de capelas de grandes morgados (...) sua invocação principal é de Santa Cruz (...)."
 
"(...) onde há casa de Misericórdia e hospital, com duas igrejas, uma do hospital do Espírito Santo e outra de Nossa Senhora, com uma nave pelo meio (...); e um fermoso mosteiro de S. Francisco em que continuamente residem dez ou doze religiosos, onde há muitas capelas de morgados semelhantes aos acima ditos; três mosteiros de freiras, o mais principal dos quais é de Jesus (...), de quarenta freiras de véu preto e os dois, um de Nossa Senhora da Luz e outro das Chagas, da obediência e da observância de S. Francisco, em que há menos religiosas." (FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra (Livro VI). Cap. I, p. 15.)
 
No contexto da dinastia Filipina, aqui se travou a batalha da Salga (1581). Foi na Praia que o pretendente ao trono de Portugal, D. António Prior do Crato, foi aclamado rei aquando do seu desembarque nesta localidade em 1582. 

Posteriormente, no contexto da Restauração da Independência Portuguesa, foi na Praia que se deu a aclamação de D. João IV de Portugal, quando da chegada de Francisco Ornelas da câmara à Terceira.


Ficheiro:VPV1.png

A povoação foi arrasada pelo grande terramoto de 1614, tendo o mar tragado as que lhe ficavam mais próximas. Durante o século XVII foi reconstruída, continuando presa de diversos abalos sísmicos menores.
 
No decorrer da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), aqui se travou ainda a batalha da Baía da Praia (11 de Agosto de 1829), quando frustrou a tentativa de desembarque de uma esquadra de tropas miguelistas. Esta vitória levou a que, por carta régia de 12 de Janeiro de 1837, como reconhecimento, lhe fossem outorgados os títulos de "Mui Notável" e "da Vitória" pela soberana.


 


A sua importância económica permaneceu, apesar do grande terramoto de 15 de Junho de 1841 (a chamada "Caída da Praia") que a destruiu parcialmente. A sua reconstrução, a partir dos meados do século XIX deveu-se à iniciativa do Conselheiro José Silvestre Ribeiro.

O padre Jerónimo Emiliano de Andrade, que viveu em meados do século XIX, refere:




"Apenas o viajante sai da freguesia do Cabo da Praia tem logo à vista a magnífica e majestosa Vila da Praia da Vitória, que lhe fica a uma distância de pouco mais de um quarto de légua. (...)"


A vila foi elevado à categoria de cidade a 20 de Junho de 1981, tendo se designado Vila da Praia da Vitória até 1983.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Astronomia em Portugal





A Astronomia em Portugal
(Breve história)

O aparecimento da Astronomia em Portugal não está bem localizado no tempo. Consta que o D. Afonso IV (1291-1357), responsável pela introdução dos estudos matemáticos em Portugal, se interessava por Astronomia. É ainda possível encontrar referências a uma observação da Lua atribuída D. Duarte (1391-1438).

No entanto os historiadores parecem estar de acordo com o facto de ter sido o Infante D. Henrique (1394-1460), filho de D. João I (1357-1433), a introduzir o estudo da Astronomia com o objectivo de apoiar as campanhas de navegação.

Em 1419 o Infante D. Henrique criou um observatório/academia náutica em Sagres com o objectivo de preparar pilotos de navegação. Um dos maiores problemas de então, para o desejo marítimo dos portugueses, era a falta de mestres para a formação de pilotos. Assim durante o séc. XV vários foram os reputados cosmógrafos estrangeiros que ensinaram em Portugal. Entre eles podemos destacar Jácomo de Maiorca, Martim de Behaim e, o mais famoso de todos, Abraão Zacuto que vem para Portugal em 1492.

As descobertas marítimas do séc. XV são assim o resultado do investimento:
  • Cabo Bojador, Gil Eanes (1434)
  • Ilhas de Cabo Verde, Cadamosto (1455-56)
  • São Tomé e Príncipe, João de Santarém e Pedro Escobar (1471-72)
  • Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias (1487)
  • Gronelândia e Terra Nova, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcelos (1492-98)
  • Calecute (India), Vasco da Gama (1497-99)
  • Brasil, Pedro Álvares Cabral (1500)
  • etc



E tal como diz Pedro Nunes "Não iam a acertar mas partiam os seus mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras (…)". Pedro Nunes foi um dos matemáticos mais reputados do seu tempo. Nasceu em Alcácer do Sal em 1502 e as suas contribuições para a cartografia e navegação são muito conhecidas.


Mas foi a sua obra astronómica "De crepusculis" que lhe trouxe definitivamente fama internacional. "De crepusculis" foi escrita com o objectivo de resolver uma importante problema da época relacionado com a duração do crepúsculo num qualquer local da Terra e num qualquer dia do ano. Este obra, onde Pedro Nunes apresenta o Nónio, teria recebido o elogio de Tycho Brahe.


Em 1574 Pedro Nunes foi nomeado cosmógrafo-mor do reino por D. Sebastião (1554-1578). Pedro Nunes morre em 1579 deixando um espólio científico de enorme relevo. O presente ano comemora-se o quinto centenário do seu nascimento e têm sido várias as iniciativas para assinalar a efeméride.

É comum fazer (simbolicamente) coincidir a morte de Pedro Nunes com o início de um período de decadência científica em Portugal que, na opinião de vários historiadores, irá atravessar todo o séc XVII e parte do séc. XVIII. O fim do período expansionista com a morte de D. Sebastião pode explicar este facto, uma vez que as descobertas foram um dos grandes motores do desenvolvimento científico em Portugal. A introdução da inquisição em Portugal em 1531, durante o reinado de D. João III, é também apresentada como uma das razões para esse período de decadência.

No entanto, é possível encontrar, no início do séc. XVII traços de uma actividade astronómica muito interessante desenvolvida no seio do colégio jesuita de Santo Antão em Lisboa onde existia uma cadeira de Astronomia e no Colégio das Artes em Coimbra. Cristovão Borro foi um dos seus mais notáveis professores. Assim, a generalização da ideia de um período de decadência do séc. XVII é actualmente algo no mínimo discutível.

Mas é claramente durante o séc XVIII que se pode detectar um considerável desenvolvimento da Astronomia em Portugal. Antes de mais pela construção de observatórios astronómicos. Segundo J. Pereira Osório, na obra já aqui citada, podem contar-se uma dezena de estabelecimentos deste tipo criados durante o séc. XVIII, embora em alguns dos casos com um tempo de vida efémero

Parece assim clara a vontade de apostar na astronomia observacional. Um bom exemplo disso pode ser encontrado nos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) explicitamente se ordena a criação de um Observatório com uma particular relevância para as aulas práticas:

José Monteiro da Rocha (1734-1819) que, a convite do Marquês de Pombal, participou na elaboração dos estatutos da Universidade de Coimbra, foi um dos nomes maiores da ciência portuguesa. Segundo Gomes Teixeira deveu-se a Monteiro da Rocha a introdução em Portugal das novas doutrinas de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton.

Um dos mais interessantes exemplos do valor dado à observação concerne a criação do Observatório Astronómico de Lisboa. Em meados do séc. XIX a Europa da astronomia debatia-se com várias controvérsias relacionadas com diferentes medições de um mesmo objecto. Por exemplo a distância à estrela Groombridgs 1830 medida por distintos astrónomos dava resultados muito diferentes: O. Struve, do Observatório de Pulkovo, encontrava 36 parsecs e M. Faye, do Observatório de Paris, obtinha 0.9 parsecs ! Por volta 1850, Faye teria sugerido que Lisboa seria o local da Europa ideal para fazer a observação necessária para tirar todas as dúvidas.

Este foi o mote para a construção de um novo Observatório em Lisboa em 1878 com uma dotação especial de D. Pedro V, que permitiu a aquisição de instrumentos de grande precisão. Neste processo de criação e estabelecimento do Observatório de Lisboa, tiveram importância maior pessoas como Filipe Folque, Frederico Oom e M. Campos Rodrigues.

Entre 1700 e 1900 pode registar-se uma produtividade científica extremamente relevante, apesar de uma vivência com alguns períodos conturbados como o foram a expulsão dos Jesuítas (1759) ou a transferência da coroa portuguesa para o Brasil em 1807, depois da tentativa de invasão do território nacional pelas tropas napoliónicas.

De acordo com Rudolfo Guimarães (1909, "O Instituto" da Universidade de Coimbra) pode contar-se mais de 300 publicações nos mais diferentes domínios da Astronomia. Eis alguns exemplos:
  • "Observations des Léonides 1898", Campos Rodrigues, 1899
  • "Observations et explications de quelques phénomenes du disque du Soleil observé à l'Hotel de Cluny, à Paris, le 6 mai 1753 et leur application pour la perfection de l'astronomie", Soares de Barros e Vasconcellos, 1753
  • "O novo planeta Eros e a distância do Sol à Terra", Real Observatório Astronómico de Lisboa, 1901
  • "A questão dos planetas intramercurianos", D'Almeida Garrett, 1869
  • "Habitantes do planeta Saturno", Peixoto do Amaral, 1886


Ainda na mesma obra de Rudolfo Guimarães pode detectar-se um conjunto de artigos que podem ajudar a marcar o início do estudo da Astrofísica em Portugal. Eis alguns exemplos:
  • "The alleged changes of colours in Sirius", F. Oom, 1902
  • "Photometric measurment of star near Rigel", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of variables stars from january 1894 to january 1896", Morais Pereira, 1894
  • "Dr. Schwabe's algol variable", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of Sun spots. Drawings and measurements of position and surface every available day from 1893 to 1898", Morais Pereira, 1894-1900

Já não é só a posição dos astros que interessa, são também as suas propriedades intrínsecas. A Astrofísica sofre em Portugal um novo incremento graças ao esforço de Francisco Costa Lobo, durante os anos 20, que instala no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra um espectroheliógrafo destinado à obtenção de imagens do Sol, fruto de uma estreita colaboração com o Observatório de Paris.

O séc. XX é a imagem da própria História da Astronomia em Portugal: períodos de claro avanço alternam com épocas mais ou menos longas de aparente inactividade. Hoje em dia a Astronomia em Portugal é uma área em franco desenvolvimento.




In: Portal do Astrónomo

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Brianda Pereira (1550-1620)





BRIANDA PEREIRA

Brianda Pereira (Vila de São Sebastião, c. 1550 — Vila de São Sebastião, c. 1620) foi uma mulher açoriana elevada pela historiografia da Batalha da Salga e dos acontecimentos que a rodearam ao papel de heroína da resistência da ilha Terceira contra Filipe II de Espanha. Embora sem base histórica que o sustente, a figura de Brianda Pereira foi mitificada pelo movimento romântico a partir de finais do século XIX, sendo elevada ao estatuto de heroína pela propaganda do Estado Novo, no contexto da afirmação do nacionalismo português dos açorianos. A figura popularizou-se, sendo feita matrona de diversas instituições e dando origem a múltiplas peças de teatro popular, cantigas e danças de Carnaval.

Brianda Pereira nasceu provavelmente na cidade de Angra (ou alternativamente no Porto Judeu ou na vila de São Sebastião, conforme a tradição popular), filha de Álvaro Anes de Alenquer e de Maria Pereira de Sousa. O pai foi juiz ordinário da Câmara de Angra em 1553 e descendia de Pero Anes de Alenquer, um dos primeiros colonos da ilha Terceira e, tal como a mãe, tinha ascendentes nobres.

Casou com Bartolomeu Lourenço, indo residir para o vale da Salga, na zona litoral da vila de São Sebastião, onde o casal era dono de terras e tinha uma abastada casa agrícola.


Residiam nesse local quando a 25 de Julho de 1581, no contexto da luta entre partidários de Filipe II de Espanha e de D. António I de Portugal, se travou na baía da Salga, em cuja arriba se situava a casa do casal, a batalha da Salga.




A batalha iniciou-se pelo desembarque de uma força espanhola que de imediato incendiou as searas e as casas existentes nas imediações, entre as quais muito provavelmente a de Brianda Pereira, aprisionando os homens que encontrou. Entre os prisioneiros figurava Bartolomeu Lourenço, que se encontraria ferido.

As fontes da época são omissas quanto ao papel de Brianda Pereira na contenda, havendo apenas menção a uma Ângela Pereira (Brianda tinha uma irmã com este nome) numa Relação coeva, de autor anónimo, a qual diz:


Vivia ali um Bartolomeu Lourenço com mulher e filhos; a mulher andava em corpo, sendo mulher nobre e moça, e seu marido lavrador rico entre a gente da terra, dizendo que ela fugira de entre as mão deles [os soldados do partido espanhol] cuidando que seu marido fizera o mesmo, e que o já tinham cativo ferido, fugindo um seu filho que o viera contar. A pobre mulher andava como doida, e os soldados da armada de posse de sua casa e de toda a sua fazenda [...]

Quando a pobre mulher, por nome Ângela Pereira, viu arder a sua casa e os frescais da eira, e seu marido cativo e ferido, e sua casa e fazenda em poder dos soldados, e ela com pressa em saia escapou, parecia uma doida e com as lástimas que dizia animava os portugueses para que melhor pelejassem, e a tinham por mão porque se queria ir meter em sua casa: e porque era moça e nobre e bem parecida, e mulher muito galharda, sem falta sua honra e vida por resistir seria acabada. E a fizeram recolher, com outras mulheres a cima a uma igreja de São João.

Foi a partir desta descrição, já que o outro relato contemporâneo dos acontecimentos que se conhece, devido a frei Pedro de Frias, a não menciona, que se iniciou a mitificação da heroína Brianda Pereira.
A construção do mito deve-se em boa parte a Francisco Ferreira Drumond, que nos Anais da Ilha Terceira, aparentemente fazendo fé na tradição oral da sua vila natal, já a descreve como uma nova Lucrécia:

... onde se achava, e ainda existe, a quinta, ou casa, de Bartolomeu Lourenço, lavrador abastado, que nela vivia com sua mulher Brianda Pereira, moça nobre e assaz formosa, da qual tinha filhos. Parece que a sua beleza fora nos dias antecedentes objecto da curiosidade dos castelhanos, porque foi o primeiro despojo que eles quiseram saquear de sua casa. Felizmente pode esta nova Lucrécia escapar-se às mãos dos soberbos Tarquínios que a pretendiam, e já levavam prisioneiro ao marido, a quem haviam ferido gravemente, e a um filho; e achando-se já senhores da casa, e de tudo que nele havia, saqueavam, destruíam e convulsavam à sua vontade todos os móveis, chegando finalmente ao excesso de largarem fogo aos frescais de trigo que estavam na eira..



A partir daqui estava lançado o mote: Brianda Pereira era a heroína, a ela se atribuindo os mais diversos feitos, desde participar na peleja até ter sido a autora da estratégia de enviar vacas em tropel sobre os espanhóis. José Joaquim Pinheiro, nas suas Épocas Memoráveis da Ilha Terceira, já diz que Brianda Pereira:

... mostrou o seu ânimo varonil, armando com dardos as mulheres que tinham corrido à peleja com seus maridos e filhos, e persuadindo com argumentos de virtuosa esposa e mãe desvelada a gente terceirense, leva as do seu sexo a carregarem sobre o inimigo com tal denodo que puderam alcançar a salvação do prisioneiro ancião e de se filho, ambos bastante feridos. Só não pôde esta heróica espartana evitar o incêndio que lavrava na casa e na eira...

O capítulo final da glorificação de Brianda Pereira é escrito por Gervásio Lima, que na sua prosa inflamada a alpendura aos píncaros da virtude e da heroicidade nacionalistas. Os escritos de Gervásio Lima, que gozaram de grande popularidade até meados do século XX, com a posterior ajuda da bem oleada máquina de propaganda do Estado Novo, fizeram de Brianda Pereira um figura popular, particularmente por apelar à heroicidade dos habitantes da ilha Terceira e assim alimentar o sentimento bairrista que ali se viveu.