quarta-feira, 13 de junho de 2018

Santos Populares - Santo António



Santo António





Santo António nasceu em Lisboa em data incerta, numa casa, assim se pensa, próxima da Sé, às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja sob sua invocação. A tradição indica 15 de agosto de 1195, mas não há documento fidedigno que confirme esta data. Também foi proposto o ano de 1191, mas, segundo um seu biógrafo, o padre Fernando Lopes, as contradições em sua cronologia só se resolveriam se ele tivesse nascido em torno de 1188. Tampouco se sabe com certeza quem foram seus pais. Nenhuma das biografias primitivas os citam, e somente no século XIV, a partir de tradições orais, é que se começou a atribuir ao pai o nome de Martim ou Martinho de Bulhões, e à mãe, o de Maria Teresa Taveira.

Fixando-se esses nomes na memória popular, e com a crescente fama do santo, não custou a biógrafos tardios atribuírem também aos seus pais uma dignidade superior. Do pai foi dito ser descendente do celebrado Godofredo de Bulhões, comandante da I Cruzada, e da mãe, que descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas tal parentesco nunca pôde ser comprovado. A forma de seu nome de batismo é igualmente obscura, pode ter sido Fernando Martins ou Fernando de Bulhões.

Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior (hoje Sé de Lisboa), sob a direção dos cónegos da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho. Como era a prática da ordem, deve ter recebido instrução no currículo das artes liberais do trivium e do quadrivium, o que certamente plasmou seu caráter intelectual.

Ingressando ainda um adolescente como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, iniciou os estudos para sua formação religiosa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões.

Poucos anos depois pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, já que era constantemente visitado por amigos e parentes.

Coimbra era na época o centro intelectual de Portugal, e ali se deve ter envolvido profundamente no estudo das Escrituras e nos textos dos Padres da Igreja. Nesta época entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos, chegados em Portugal em 1217, e que estavam a caminho do Marrocos para evangelizar os mouros. Sua pregação do Evangelho no espírito de simplicidade, idealismo e fraternidade franciscana, e sua determinação missionária, devem ter tocado o sentimento de Fernando. 

Entretanto, uma impressão ainda mais forte ocorreu quando os corpos desses frades, mortos em sua missão, voltaram a Coimbra, onde foram honrados como mártires. Autorizado a juntar-se a outros franciscanos que tinham um eremitério nos Olivais, sob a invocação de Santo António do Deserto, mudou seu nome para António e iniciou sua própria missão em busca do martírio. 


Por essa altura, decidiu deslocar-se ele também a Marrocos, mas, lá chegando, foi acometido por grave doença, sendo persuadido a retornar. Fê-lo desalentado, já que não havia proferido um único sermão, não convertera nenhum mouro, nem alcançara a glória do martírio pela fé. No regresso, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Ali se quedou até a primavera de 1221, dirigindo-se com eles então para Assis a fim de participarem do Capítulo da Ordem - o último que seria feito com a presença do fundador. Em Assis encontrou-se com São Francisco de Assis e os seus primeiros seguidores, um evento de grande importância em sua carreira. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.

Pouco depois aconteceu uma ordenação de frades em Forlí, quando deixou o isolamento e para lá se dirigiu. Até então os franciscanos não sabiam de sua sólida formação, mas faltando o pregador para a cerimónia, e não havendo nenhum frade preparado para tal, o provincial solicitou a António que falasse o que quer que o Espírito Santo o inspirasse. Protestou, mas obedeceu, e dissertando para os franciscanos e dominicanos lá reunidos de forma fluente e admirável, para a surpresa de todos, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia. Entretanto, a prática franciscana desencorajava o estudo erudito, mas em Novembro de 1223 o papa Honório III sancionou a forma final da Regra da Ordem Franciscana, onde uma formação mais aprimorada se tornou autorizada, desde que submissa ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Recebendo a aprovação para a tarefa pastoral do próprio Francisco, fixou-se então em Bolonha, onde se dedicou ao ensino da teologia na universidade e à pregação. Deslocando-se em seguida para a França, ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também por Lomoges.

Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, após a morte de Francisco, seviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para apresentar-lhe a Regra da Ordem. Em 1227 foi indicado provincial da Romagna e passou os três anos seguintes pregando na região, incluindo Pádua, para audiências cada vez maiores. Nesse período colocou por escrito diversos sermões. Em 1230 solicitou ao papa dispensa de suas funções como provincial para dedicar-se à pregação, reservando algum tempo para a contemplação e prece no mosteiro que havia fundado em Pádua. Sempre trabalhando pelos necessitados, envolveu-se também em questões políticas, a exemplo de sua viagem a Verona para pedir a libertação de prisioneiros guelfos feitos pelo tirano gibelino Ezzelino, e em 1231 persuadiu a municipalidade de Pádua a elaborar uma lei que impedia a prisão por dívidas se houvesse a possibilidade de compensação de outras formas.
   

Pouco depois da Páscoa de 1231 sentiu-se mal, declarou-se hidropisia e ele deixou Pádua para dirigir-se ao eremitério de Camposanpiero, nos arredores da cidade. Seus companheiros ergueram-lhe uma cabana no alto de uma árvore, onde permaneceu alguns dias. Percebendo que a morte estava próxima, pediu para ser levado de volta a Pádua, mas apenas tendo alcançado o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, ali faleceu, em 13 de junho de 1231. As clarissas reclamaram seu corpo, mas a multidão acabou sabendo de seu passamento, tomou-o e o levou para ser sepultado na Igreja de Nossa Senhora. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio, pelo papa Gregório IX. Os seus restos mortais repousam desde 1263 na Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização.

Quando sua tumba foi aberta para iniciar o processo de translado, sua língua foi encontrada incorrupta, e São Boaventura, presente no ato, disse que o milagre era prova de que sua pregação era inspirada por Deus. E incorrupta está até hoje, em exposição na Capela das Relíquias da Basílica.

Foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de Janeiro de 1946 e é comemorado no dia 13 de Junho.

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses e valdenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).


1895 - Santo António
Série Açores
Obliterada em Angra do Heroísmo

Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos como Aristóteles, Cícero, Catão, Sócratres, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tíbulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho, Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio,Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,


"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".

Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extracção do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina.

Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.

Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.

A devoção popular o colocou entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e lhe atribui até os dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas se multiplicam pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome.

Na tradição lusófona Santo António está acima de todos em prestígio. Sua veneração foi levada de Portugal para o Brasil, onde enraizou rápido e também dominou o coração do povo. Era tanta a familiaridade que o santo inspirava, que passou a ser uma espécie de "propriedade privada" de todos. Como relatou Grillot de Givry, "não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isso, a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo António". Estava em toda parte: "nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios". Também era invocado pelos senhores para recuperar escravos fugidos.

A mesma familiaridade criou práticas esdrúxulas no culto popular. Se um pedido não era atendido, a imagem do santo podia ser submetida a torturas e castigos. Deitavam-na de barriga para o chão e punham-lhe uma pedra em cima; escondiam-na num poço escuro, retiravam-lhe o Menino Jesus dos braços, ou arrancavam-lhe o resplendor. Acreditava-se que o castigo acelerava a concessão da graça, e explicavam a violência dizendo que em sua juventude o santo desejara morrer martirizado em nome da fé. Luminares do clero, como o Padre Vieira, também de certa forma reforçavam essas crenças. Num sermão disse:
   
"Não haveis de pedir a Santo António como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo António: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandado como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: por que atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o pedido em Santo António não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condená-la de todo, pelo que tem de piedade".
É um dos santos honrados nas popularíssimas Festas Juninas e diversos costumes folclóricos estão ligados ao santo. a título de exemplo, no Brasil moças casadoiras retiram o Menino Jesus das estátuas e só o devolvem quando arrumam casamento; uma prece especial, os "responsos", são feitas para que ele ajude a encontrar objetos perdidos; no dia de sua festa muitas igrejas distribuem um pão especialmente abençoado, os "pãezinhos de Santo António", que deve ser guardado em uma lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.


Ele teve inclusive uma brilhante carreira militar póstuma. Inúmeras cidades da Espanha, Portugal e Brasil lhe conferiram títulos militares, condecorações, insígnias e outras honrarias, iniciando-se o curioso hábito quando o regente Dom Pedro ordenou em 1668 que ele fosse recrutado e assentasse praça como soldado raso no II Regimento de Infantaria em Lagos, sendo promovido sucessivamente a capitão e coronel. Com o posto de tenente-coronel, sua imagem foi levada pelo XIX Regimento de Infantaria em Cascais à frente dos combates da Guerra Peninsular, recebendo depois uma condecoração. Dom João VI, após o feliz desembarque no Brasil em sua fuga da invasão napoleónica, o nomeou sargento-mor, promovendo-o depois a tenente-coronel. 

Fonte: Wikipédia


 
 
Ermida de Santo António no Monte Brasil
Angra do Heroísmo

Desenho de Emanuel Félix


Situada no interior das muralhas da fortaleza do Monte Brasil, fazia parte da Quinta de Regalo, uma zona de recreio criada pelo governador espanhol de então, D. Gonçalo Mexia, por volta de 1615, na encosta leste do monte voltada a Angra.
 
A Casa de Regalo ainda existe, também, mas a estrutura da quinta desapareceu.
 
A festa a Santo António originava romarias e incluiu, em algumas épocas, tiros de pólvora de pequenas peças de artilharia, a partir de dois baluartes decorativos cujos restos ainda se notam.



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Festas dos Santos Populares








Santos Populares
(Origens)
 





As “Maias”, originaram as festas dos três Santos Populares, Santo António, S. João e S. Pedro.

Eram as “Maias” cantos litúrgicos dedicados no mês de Maio, à Virgem Maria, Porém, tendo-se adulterado o seu carácter religioso, com povo a fazer bailados  nas ruas das cidades, forma consideradas pagãs e assim, foram proibidas no século XIV, por ordem de El-Rei Dom João I. O povo que sempre gostou de cantar e bailar, passou todavia, a celebrar outra festa, oriunda da bênção dos primeiros frutos, em Quinta-Feira de Ascensão de Jesus Cristo: o “Dia da Espiga”, o povo vai aos campos para recolher, raminho de oliveira, rosmaninho, malmequer, papoila e trigo. Ainda hoje na «Quinta-Feira da Espiga»,  há esta tradição chegando a haver vendedores de rua a vender o “Raminho da Espiga” e que segundo a tradição é guardado em casa até ao ano seguinte.




Por meados do século XVIII,  os franceses durante o período napoleónico, iniciaram  a moda de dançar as marchas militares,  realizavam em Junho para celebrar a tomada da Bastilha a que chamavam “marche aux falambeaux ” em que o povo desfilava com uns archotes acesos na mão.

Este costume foi adoptado pelos portugueses que lhes passaram a chamar “Marcha ao flambó" (portanto adaptação do termo francês), só que nós os portugueses substituímos os «archotes revolucionários dos franceses» por "balões de papel" e "fogo de artificio", que  tinham sido costumes trazidos da China no século XVII, e que jà eram usados nos arraiais e feiras por todo o País, e assim  as antigas danças e cantares de "Maio à Virgem Maria"  que  entretanto tinham sido proibidas foram transpostas para o mês de Junho, passando a celebrar-se as festas dos «Santos Populares»,  “Santo António, São João e São  Pedro “.



Lisboa veste-se de cravos rubros que são esplendor em Junho festivo, de vasos com manjericos nas janelas, sendo costume colocar na copa do manjerico, um cravo encarnado com uma bandeirinha hasteada com uma quadra popular escrita.

Se eu fosse o cravo vermelho
Que trazes sobre o teu peito
Por muito que fosse velho
Não te guardava respeito



Cravo manjerico e vaso
E uma quadrinha singela
Tudo lhe dei... Não fez caso!...
Pronto! Não caso com ela


 


Ateia-se uma fogueira  para assar as sardinhas,  mas os rapazes e raparigas saltam e bailam á sua volta até ao raiar do dia.
 
A alcachofra brava, também tem o seu simbolismo nestas festividades, quem queria saber se era correspondida/o no amor pelo namorado, devia chamuscar na fogueira, a alcachofra em flor, e sea mesma  passados alguns dias voltasse a florir, era sinal que o amor era sincero e daria em casamento.

Sobre o saltar à fogueira, houve também muita inspiração para versos mais “malandrecos”

Ou ela não usa calças
Ou as tem na lavadeira
Dei por isso ontem à noite
Quando saltava à fogueira

As Marchas têm um ritmo diferente do Fado: mais cadenciado, mais vivo e de métrica poética menos uniforme, sempre enriquecida pelo «estribilho» , o refrão no Fado, mas arcos, balões, cravos manjericos, alcachofras, fogueiras e danças não deixam de ser motivos de inspiração para os letristas de Fado.






«Quando chega o mês de Junho
Mês dos Santos Populares
Reina uma santa alegria
Traduzida em mil cantares!

É Santo António?
Ou São João?
Será São Pedro
O de maior devoção?»


 
O nome de Junho deriva do latim Junius, de Júnio Bruto, ou deve-se ao facto de ser consagrado a Juno, rainha dos deuses e mulher de Júpiter, na mitologia romana. Equivale à deusa grega Hera e, como ela, era protectora das virtudes femininas, para além da rainha do céu, protectora do Estado, ao mesmo nível de Júpiter e Minerva, com quem formava a Tríade Capitolina. (O Monte Capitolino era o mais ilustre das colinas de Roma, sobre o qual se erguia o Templo de Júpiter, rodeado de Juno e Minerva).


 
Datas das efemérides (publicações próximas)

Santo António a 13 de Junho
São João a 24 de Junho
São Pedro a 29 de Junho


Fonte: http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/33309.html

domingo, 10 de junho de 2018

A Simbologia da Bandeira Portuguesa







 

História

É preciso ter em conta que as bandeiras eram usadas na época medieval para identificar os exércitos de cada senhor feudal. Assim, até o reinado de D. João II (1481-1495) as bandeiras eram armoriais, isto é, eram pedaços de tecidos quadrados que levavam apenas o escudo.

Igualmente, os pavilhões identificavam o soberano reinante. Por isso, cada rei tinha a sua própria bandeira que passavam por modificações quando o monarca falecia ou o reino incorporava novos territórios.

Este foi o caso quando o houve a mudança de estatuto do Brasil. Por decreto de D. João VI (1816-1826), a antiga colônia foi elevada à categoria de reino dentro da monarquia portuguesa.



Deste modo, outra bandeira foi estabelecida, a do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Foi introduzida uma esfera armilar em ouro sobre fundo azul representando o reino do Brasil.

Com a Revolução Liberal do Porto, que inaugura a monarquia constitucional, e a independência do Brasil, outra bandeira portuguesa será criada.

Por decreto de 18 de Outubro de 1830, durante o reinado de Dona Maria II (1834-1853), define-se que o pavilhão fosse bipartido verticalmente em branco e azul, ficando o azul junto da haste e as armas reais colocadas no centro da bandeira.

Com a proclamação da República em 1910, muitos republicanos quiseram apagar alguns símbolos do antigo regime. A bandeira monárquica trazia as cores branca e azul.

Esta bandeira foi usada até a proclamação da República em 1910.





Desta maneira estas cores foram substituídas pelo verde e vermelho que significam a esperança e a coragem, respetivamente.






No entanto, em Portugal remetiam às cores do Partido Republicano Português e a maçonaria que foram aqueles que iniciaram o golpe que derrubou o rei.

É importante ressaltar que o verde ocupa 1/3 da bandeira e o vermelho 2/3, pois isto lembra ao projeto de integralismo ibérico. Assim, o verde seria Portugal e o vermelho, a Espanha, unidos na forma de um federalismo utópico.



Esfera Armilar

A esfera armilar foi introduzida pelo rei D. Manuel I (1495-1521) e representava o monarca como rei dos cinco continentes.




A esfera armilar era a estilização dos antigos globos usados no século XVI. Também era o símbolo pessoal do Infante D. Henrique, o Navegador, que tanto fez pelo desenvolvimento das navegações.



 

Escudo Português


O escudo é o símbolo mais antigo de Portugal e remete à própria origem do país quando este ainda era Condado Portucalense.

 
Na borda vermelha se encontram sete castelos e no centro, em fundo branco, cinco escudos azuis com cinco besantes brancos dispostos em forma de cruz.

Castelos


A origem dos castelos é controversa, pois foram reinterpretados de várias maneiras ao longo da história.


D. Afonso Henriques



Há estudiosos que afirmam que são os cinco reis mouros vencidos pelo primeiro rei português, D. Afonso Henriques (1139-1185).



D. Afonso III


Outros afirmam que sua utilização teria início com o rei Afonso III, sobrinho da Rainha de Castela e que incorporou o símbolo no seu escudo pessoal.
Atualmente são sete castelos amarelos, cada um com três torres, disposto em um fundo vermelho.

Besantes


O termo besante denominava as moedas de ouro usadas no Império Bizantino. Inicialmente foram utilizadas para representar a riqueza do reino de Portugal. Foi o rei Afonso Henriques, que os incorporou no escudo.


Mais tarde com o “Milagre de Ourique”, antes da Batalha de Aljubarrota, foi reinterpretado como as cinco chagas de Cristo. Somente com o rei Afonso III (1248-1279) este escudo ganhou sua forma de cruz ligando Portugal à sua origem cristã.



Texto parcial in:Todamatéria

Dia de Portugal (10 de Junho)






O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrado a 10 de Junho, é o dia em que se assinala a morte de Luís Vaz de Camões em 1580, e também um feriado nacional em Portugal.

Este feriado foi adaptado pela Igreja Católica no país como Dia do Santo Anjo da Guarda de Portugal.

Durante o regime ditatorial do Estado Novo de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, era celebrado como o Dia da Raça: a raça portuguesa ou os portugueses.


Origens


Na sequência dos trabalhos legislativos após a Proclamação da República Portuguesa de 5 de Outubro de 1910, foi publicado um decreto em 12 de Outubro estipulando os feriados nacionais.

Alguns feriados foram eliminados, particularmente os religiosos, de modo a diminuir a influência social da igreja católica e laicizar o Estado.

Neste decreto ficaram consignados os feriados de 1 de Janeiro, Dia da Fraternidade Universal; 31 de Janeiro, que evocava a revolução falhada do Porto, e portanto foi consagrado aos mártires da República; 5 de Outubro, Dia dos Heróis da República; 1 de Dezembro, o Dia da Autonomia (Restauração da Independência) e o Dia da da Bandeira; e 25 de Dezembro, que passou a ser considerado o Dia da Família, laicizando a festa religiosa do Natal.

O decreto de 12 de Junho dava ainda a possibilidade de os municípios e concelhos escolherem um dia do ano que representasse as suas festas tradicionais e municipais.

Dia de Camões


   

Luís de Camões representava o génio da Pátria na sua dimensão mais esplendorosa, significado que os republicanos atribuíam ao 10 de Junho, apesar de nos primeiros anos da república ser um feriado exclusivamente municipal.





Com o 10 de Junho, os republicanos de Lisboa tentaram invocar a glória das comemorações camonianas de 1880, uma das primeiras manifestações das massas republicanas em plena monarquia.

 

 

Dia da Raça e Dia das Comunidades






O 10 de Junho começou a ser particularmente exaltado com o Estado Novo, o regime instituído em Portugal em 1933 sob a direcção de António Oliveira Salazar. Foi a partir desta época que o dia de Camões passou a ser festejado a nível nacional. A generalização dessas comemorações deveu-se bastante à cobertura dos meios de comunicação social.

 

Durante o Estado Novo, o 10 de Junho continuou sendo o Dia de Camões. O regime apropriou-se de determinados heróis da república, não no sentido laico que os republicanos pretendiam, mas num sentido nacionalista e de comemoração colectiva histórica e propagandista.






Até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, este último epíteto criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional do Jamor em 1944.


A partir de 1963, o 10 de Junho tornou-se numa homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.

Com uma filosofia diferente, a Terceira República, em 1978, converteu-o no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.



 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Naufrágios na Baía de Angra




Naufrágios na Baía de Angra

Os primeiros povoadores da ilha Terceira, em face das exportações de produtos cerealíferos e tintureiros que se passaram a operar poucos anos após o início da colonização, tiveram de se estabelecer em entrepostos portuários capazes de albergar toda uma frota de embarcações, reinóis ou estrangeiras, que demandava cada vez mais a ilha Terceira, em busca desses mesmos produtos.

Assumindo que os factores naturais se mantêm mais ou menos constantes, ao longo dos séculos, podemos partir do princípio que desde meados do século XV se têm afundado regularmente navios na baía de Angra. Tal suposição é-nos permitida em virtude dos dados históricos de que dispomos e que, infelizmente, datam de apenas dos meados do século XVI. Quais são então os naufrágios históricamente documentados na baía de Angra?


Século XVI - Baía de Angra (1580)

O século XVI

Segundo a Relação das Naos da Índia pertencente à British Library, Códice Add. 20902, o naufrágio mais antigo documentado na baía de Angra é o da nau cognominada Grifo, capitaneada por Baltazar Jorge e dada por perdida em 1542. A mesma relação aponta a perda, em 1555, da nau Assumpção, comandada por Jácome de Melo, que também deu à costa.

No mesmo ano de 1555, perde-se no regresso das Índias a nau alcunhada de Algarvia Velha, a crer nas palavras de Faria de Sousa, escritas na sua Ásia Portuguesa. A saga dos naufrágios da Carreira das Índias continua, segundo os Anais do Clube Militar Naval, com a perda simultânea, a 6 de Agosto de 1556, das naus Nossa Senhora da Vitória e Nossa Senhora da Assunção.

Em 1560 surge o primeiro naufrágio de uma nau espanhola, da qual o historiador naval espanhol oitocentista, Fernandez Duro, não guardou o nome. Vinte e três anos depois, a 21 de Outubro de 1583, os três patachos confiscados pelos espanhóis à armada do Prior do Crato acabam os seus dias sob o jugo do vento Carpinteiro no areal da Baía de Angra. Os espanhóis continuam na sua maré de azar com o naufrágio, a 17 de Setembro de 1586, da nau Santa Maria, provinda de S. Domingo, que acabou por dar de través no baixio à saida de Angra. No dia a seguir e devido a tormenta ocorrem outros três naufrágios espanhóis, nomeadamente o de uma nau capitânia de 30 canhões de bronze, que sossobrou quando ancorada e o da nau Nuestra Señora de la Concepción, da qual se recuperou, posteriormente, parte da carga, segundo o que se afirma no Legayo 5108 do Arquivo General de las Indias.



Novamente a Relação das Naos da Índia, da British Library, nos confirma um outro sinistro sucedido, em 1587, com o galeão português Santiago, que capitaneado por Francisco Lobato Faria e provindo de Malaca, acabou por se perder na amarra, salvando-se a gente e a fazenda. Também no ano de 1587 naufragou uma nau espanhola provinda do Novo Mundo, tendo-se resgatado a carga de ouro e prata num valor total de 56 000 escudos. Um ano depois, em Agosto de 1588, dá à costa a nau São Tiago Maior, da Armada de 1586.

Com a perda, a 4 de Agosto de 1589, do galeão São Giraldo, provindo de Malaca e sossobrado dentro das fortalezas, inícia-se o período Linschoten. É ele também que, vítima de naufrágio, nos relata na sua Histoire de la Navigation o afundamento , a 20 de Outubro do mesmo ano, da nau espanhola Nuestra Señora de Guia, posta a pique por corsários até ao topo do mastro real, com 200 000 ducados em ouro, prata e pérolas a bordo. Relata também o naufrágio à entrada de Angra da nau espanhola Trinidad, vinda do México, um acontecimento descrito também pelo Abbé Prévost, na sua Histoire des Voyages.

Em 1590 ocorrem outros três afundamentos com naus espanholas, naufragando nomeadamente uma embarcação da Armada da Biscaia, em Janeiro, nos rochedos à entrada de Angra.






Século XVII - Baía de Angra

O século XVII

Em 1605 chega a vez da nau do Capitão Manuel Barreto Rolim se perder nos mesmos rochedos à entrada de Angra. No ano seguinte, a Carreira da Índia faz mais uma contribuição para a história trágico-marítima açoriana com a perda da nau São Jacinto, provinda de Goa.

Trinta e seis anos depois, no auge da guerra da Restauração, os espanhóis socorrem-se dos víveres embarcados a bordo de uma pequena embarcação fundeada na baía de Angra. Esta acaba por ser desviada pelos sitiados para junto das muralhas da fortaleza de São Filipe. O temporal que posteriormente sobreveio acabou por, juntamente com estragos a ela infligidos pela artilharia portuguesa, a fazer sossobrar junto da encosta do Monte Brasil.

Segundo Drummond e os seus Anais da Ilha Terceira, naufraga a 12 de Fevereiro de 1649, uma frota 4 navios provindos do Brasil. Um ano depois perde-se também a nau Santo António, vinda de São Cristóvão, salvando-se toda a mercadoria. Em 1663, o desastre sucedido com uma frota de 11 navios provindos do Brasil em, que sob a tormenta nem um escapou, provoca a interdição real da arribada a Angra o que leva ao declínio económico da ilha, que se vê assim afastada dos circuitos de comércio atlântico em detrimento de ancoradouros mais seguros como, por exemplo, o porto da Horta.

Em 1674, segundo o arquivo dos Affaires Etrangères, perde-se uma embarcação holandesa de 50 canhões, também nos baixios de Angra. A 26 de Março 1690, naufraga sobre a amarra uma nau destinada a Cabo Verde, carregada com sinos e cal destinados à construção de uma igreja. Sete anos depois perde-se mais uma frota, desta vez de quatro navios carregados de trigo. Finalmente, um ano depois, sucede aquele que é o último naufrágio documentado do século XVII, o do navio francês St. François, que ocorre em Junho de 1698, que dá o mote para o início do século dos naufrágios franceses.


Século XVIII - Baía de Angra
O século XVIII

A 10 de Dezembro de 1702, a fragata francesa Fla Orbanne, naufraga nos baixios de Angra. Este acontecimento, registado nos Affaires Etrangères, B1.652, Fº 64, deixou também algumas informações nos livros de óbitos da freguesia da Sé, aquando da inumação dos náufragos dados à costa da cidade.

Também em Dezembro, mas de 1721, mais um navio francês, o Le Elisabeth, dá a sua contribuição para os cemitérios da ilha. Finalmente, o mesmo volta a suceder com o naufrágio, em 1750, da fragata francesa Andromade, provinda de São Domingo. É de notar que, durante este século, o número de naufrágios históricamente documentados sofre uma redução drástica o que estará ligado, sem dúvida, à redução também ela drástica do número de escalas na ilha Terceira.


Século XIX - Baía de Angra (1835)

O século XIX

A 4 de Dezembro de 1811, naufraga no porto da cidade toda uma frota de sete navios. No Arquivo Geral da Marinha, encontramos referências aos naufrágios, a 18 de Fevereiro de 1832, do Iate Nerco e, em 1841da escuna D. Clara. Também nesse ano, uma tempestade ocorrida a 10 de Março, faz encalhar duas escunas inglesas, a Mirthe no areal do Porto Novo e a Louise na Prainha.

            Curiosamente, exactamente quatro anos depois, uma outra tempestade a 10 de Março faz encalhar outra escuna inglesa, a Belle of Plymouth, no areal do Porto Novo. A 1 de Março de 1856 a galera inglesa Europe, encalha na Prainha. Numa outra tempestade, ocorrida a 19 de Janeiro de 1858, naufragam a escuna Palmira e o patacho Desengano. Quatro dias depois, já na fase final da fúria dos elementos, sossobra também a escuna inglesa Daring.

A 25 e a 26 de Janeiro de 1861, os barcos da laranja continuam a vergar-se à maldição da baía de Angra. Naufragam, de uma só assentada, a escuna Gipsy, encalhada na Prainha, o patacho Micaelense, de 111 toneladas, o patacho Adolin Sprague, de 211 toneladas, a chalupa inglesa Water Witch, de 49 toneladas, a escuna inglesa Wave Queene, de 75 toneladas e o lugre Destro Açoriano, de 224 toneladas. Dois anos depois,dava à costa a escuna Breeze, a 18 de Fevereiro. Em 1864, ocorriam dois naufrágios com embarcações inglesas, a escuna Gurden Rebow, que dava também à costa e o brigue Washington a quem, a 12 de Outubro, sucedia o mesmo. Em 1865, eis que surgia o primeiro navio a vapor a conhecer os fundos da baía, o inglês Runher, que encalhava no cais da cidade.


A 11 de Fevereiro de 1867 dava à costa a galera inglesa Ferozepore. A 4 de Agosto de 1872, surgia o primeiro navio alemão, o patacho Telegraph. A 16 de Fevereiro de 1878, o primeiro brasileiro, o vapor Lidador, encalhado no cais da Figueirinha. Devido à acção de mais um ciclone, dava à costa em 1893, a embarcação Segredo dos Açores. Três anos depois, o vento Carpinteiro voltava a fazer das suas. A 13 de Outubro, naufragavam o patacho Fernão de Magalhães, de 180 toneladas, o lugre Príncipe da Beira, de 275 toneladas e o lugre Costa Pereira, de 196 toneladas.




Século XX - Baía de Angra (1913)
                               O século XX

Já no século XX, surgem apenas os relatos dos naufrágios do iate Rio Lima no baixio do Portinho Novo, a 30 de Setembro de 1906 e do Lugre Maria Manuela, a 28 de Abril de 1921, na ponta do Castelinho.


Ainda hoje lá estão... debaixo de uma camada insondável de areia.



Século XX - Caís da Alfândega (1945)

1984 - Baía de Angra
Património Mundial

Baía de Angra do Heroísmo (actualmente)




Angra - Sítio arqueológico

Ao todo, são treze os sítios arqueológicos que compõe o Parque Arqueológico Subaquático de Angra do Heroísmo, doze deles relativos a embarcações naufragadas e uma zona de deposição de âncoras.




– O “Angra A” corresponde a um naufrágio localizado entre o cais da Figueirinha e a Prainha e depositado a cinco metros de profundidade com uma mancha de destroços visível ao longo de quarenta metros de extensão.

– O “Angra B” corresponde a um naufrágio onde é possível observar dois núcleos de destroços: o primeiro é composto por um aglomerado de pedras de lastro e algumas madeiras do casco do navio, como a quilha.

– O “Angra C” foi localizado sob uma espessa camada de um metro de sedimento, tendo sido transladado para uma zona da baia fora do alcance das obras da marina.

– O "Tumulus" de “Angra C e D” são peças integrantes dos dois navios foram registadas in situ e posteriormente retiradas, tendo sido criado no local um túmulo artificial para estas peças, que se encontram cobertas por sacos de areia para protecção.

“O Angra D” reporta-se a um casco bem preservado, depositado sob uma espessa camada de pedras de lastro e sedimento arenoso, com um total 35 metros de comprimento, provavelmente de origem hispânica.

– O “Angra E” tem três núcleos visíveis de madeiras, tendo sido recuperado deste local um caldeirão em bronze, um cabo de faca em osso e alguns fragmentos cerâmicos.

– O “Angra F” está junto ao naufrágio do Lidador, a cerca de 8 metros de profundidade e é composto por uma extensão de pedras de lastro de mais de 30 metros.

– o “Angra G” foi o último núcleo arqueológico a ser descoberto na baía de Angra, composto por duas grandes âncoras, madeiras e artefactos diversos, apontando para um naufrágios da carreira da Índia (séc. XVI-XVII.

– O “Lidador”, encalhado paralelamente ao Cais da Figueirinha, pertence a um dos dois locais visitáveis do Parque Arqueológico, representando um dos últimos naufrágios a ocorrer na Baía de Angra.




– O “Run'her”, navio inglês, foi encontrado sob o casco do navio “Angra D”, estando disperso as suas peças.



– No “Cemitério das Âncoras”, o segundo local visitável, estão depositadas entre a cota dos -15 a -35 metros de profundidade um vasto conjunto de âncoras que estende-se por uma área de cerca de 500 metros ao longo do Monte Brasil.




“Canhões”: estes são igualmente os bens mais encontrados na Baía.








“Vestígios Dispersos”: um pouco por toda a baía de Angra são encontrados vestígios arqueológicos, oriundos dos muitos navios que ali escalaram ou se perderam


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Parque Arqueológico Subaquático de Angra do Heroísmo



O Lidador

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O naufrágio do vapor
Lidador

Em 1878, naufraga na Baía de Angra do Heroísmo, o vapor brasileiro Lidador, aqui representado numa reconstituição feita por Valdemar Reis a partir de uma gravura da época. Hoje, o que resta do casco e das máquinas é conhecido pelos mergulhadores locais como o Barco do Sal.

            Os anos de 1877 e 1878 foram marcados por dois naufrágios relacionados com a navegação açoreana. Com efeito, a 14 de Maio de 1887, o vapor Atlântico da Empresa Insulana de Navegação abalroa o cruzador Vasco da Gama e afunda-se de imediato. Este vapor misto de dois mastros e de 1302 toneladas de arqueação fora construído na Escócia em 1866 e durante cinco anos ligara regularmente o arquipélago dos Açores e o continente.

A emigração açoreana para o Brasil

Noutro âmbito e noutra carreira se insere o naufrágio do Lidador. Com efeito, desde 1617 que a colonização do estado autónomo do Maranhão, Pará e Ceará se tinha iniciado com a ida de centenas de casais açoreanos.

Mais tarde, a partir de 1670, a própria Coroa promove a emigração de açoreanos para o sul do Brasil, nomeadamente para Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro, Porto Alegre e São Pedro do Rio Grande. Esta emigração era fundamentalmente ditada pela necessidade que Portugal sentia em ocupar efectivamente um território cobiçado pelas grandes potências europeias da altura, entre as quais se incluía a Espanha.

As ilhas de São Miguel, da Terceira, da Graciosa, São Jorge e Pico eram a fonte principal desta autêntica hemorragia em capital humano. Esta emigração, caracterizada pela procura de zonas insulares e lacustres e pela implantação de zonas urbanas viradas para o interior, prolongou-se até ao século XIX e exigiu, naturalmente, um esforço por parte dos armadores marítimos de maneira a que se pudessem organizar carreiras regulares entre o Brasil e os Açores.

O Lidador e a carreira do Brasil

No final de Janeiro de 1878 chegava ao porto do Faial o vapor brasileiro de dois mastros de nome Lidador, pertencente à Empresa Transatlântica de Navegação. Tipicamente característico de uma época de transição, dividido entre a motorização a vapor e o recurso ao velame, este navio era propulsionado por uma única turbina e um único hélice.

Após o embarque dos emigrantes e dos passageiros faialenses que tinham o Brasil como seu destino final, o vapor rumou à Terceira naquela que seria a sua última escala. Ao chegar à vista da cidade de Angra, o navio ancorou por fora das fortalezas - ou seja, para o exterior do alinhamento formado pela Ponta de Santo António, no Monte Brasil, e pelo Forte de São Sebastião.

No porto encontravam-se já outros três barcos, todos à vela e todas de madeira: o patacho Angrense, o patacho inglês Jane Wheaton e o lugre, também inglês, Zebrina. As lanchas do porto imediatamente se dirigiram ao Lidador e depressa se iniciou o embarque dos emigrantes e das respectivas bagagens. Ao anoitecer do dia 6 de Fevereiro, com as operações de embarque ainda a metade realizadas, o vento principiou a soprar com mais violência e a rondar para o quadrante sul. Pouco mais tarde, o vento soprava de sueste e tornava-se no tão temido vento Carpinteiro. Preso na armadilha, ao Lidador restava apenas recorrer àquilo que o tornava diferente dos barcos que anteriormente se tinham deparado, nesta zona, com a mesma situação. Com efeito, a energia da máquina a vapor possibilitava às embarcações dela dotadas o fugirem da costa de modo a aguentarem, ao largo, o correr do mar. O perigo residia, não na tormenta, mas sim na proximidade da costa.

O naufrágio

Na ânsia de se escapar à tempestade, a equipagem do Lidador deixa descair a âncora e não a consegue, atempadamente, recolher. Devido a este percalço, o navio gira em torno da amarração e acaba por embater, a 7 de Fevereiro, no recife submerso que se prolonga pela ponta do Forte de São Sebastião por mais de duzentos metros. Esta restinga, responsável por inúmeras perdas de embarcações no passado, desfere um autêntico golpe fatal ao navio. Com efeito, a colisão provoca um rombo no casco e a submersão da máquina pela água do mar, o que apaga as caldeiras explodindo, quase de imediato, a caldeira devido à sobrepressão do vapor. O navio fica à deriva e à mercê do vento que o impele, inexoravelmente, em direcção a terra, fazendo-o colidir com o Jane Wheaton e quebrando-lhe o mastro do gurupés. Finalmente, acaba por encalhar paralelamente ao cais da Figueirinha, a não mais de cinquenta metros de distância da costa.

Os náufragos, em pânico, são evacuados pelos botes dos navios ancorados e pela lancha da cidade, não sem experimentarem alguma dificuldade devido à agitação do mar no interior da Baía. O mesmo não se passou, contudo, com a carga e as bagagens dos passageiros e tripulantes. As divergências havidas entre o representante da agência da Empresa Transatlântica de Navegação e o Consulado Brasileiro deram azo a que nada se fizesse acerca do material que ainda se encontrava por salvar e, assim, tudo o mar levou.

7.MAIO.1875 - Carta circulada do Brasil
para São Miguel, a bordo do Lidador
A situação dos náufragos não era, também, a melhor. O prelado da diocese abriu uma subscrição para ajudar as vitimas e o Visconde de Bettencourt acolheu na sua casa oito homens e dezanove mulheres. Tal levou a que, mais uma vez, a política viesse a terreiro. De facto, a guarida dada pelo Visconde a estes náufragos caiu bem junto da população o que levou o Barão do Ramalho - governador civil de Angra - a tomar-se de brios para com o Visconde e o seu partido progressista e nada fazer em prol dos náufragos.

O barco do sal

            Hoje em dia, o Lidador ainda se revela imponente por sob as águas da Baía. Com efeito, o que resta do seu casco prolonga-se por cerca de oitenta metros numa direcção noroeste-sudoeste, com a proa apontada à Prainha. Ainda bem visível, a sua engrenagem revela a turbina e o veio do hélice, ao qual se unem as bóias de amarração do Clube Náutico.

            Situado, em média, entre a batimétrica dos -5 metros e a batimétrica dos -9 metros, o Lidador é facilmente acessível ao mergulho em apneia e tornou-se bem conhecido de quantos já alguma vez praticaram mergulho amador na Baía tendo sido apelidado, por razões obscuras, de Barco do Sal.

            Com parte do casco ainda em bom estado, o Lidador constitui um bom testemunho da navegação do século passado e proporciona um vivo testemunho daquele que foi um dos últimos naufrágios a ocorrer na Baía de Angra.

Autor do texto: Paulo Monteiro