segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Astronomia em Portugal





A Astronomia em Portugal
(Breve história)

O aparecimento da Astronomia em Portugal não está bem localizado no tempo. Consta que o D. Afonso IV (1291-1357), responsável pela introdução dos estudos matemáticos em Portugal, se interessava por Astronomia. É ainda possível encontrar referências a uma observação da Lua atribuída D. Duarte (1391-1438).

No entanto os historiadores parecem estar de acordo com o facto de ter sido o Infante D. Henrique (1394-1460), filho de D. João I (1357-1433), a introduzir o estudo da Astronomia com o objectivo de apoiar as campanhas de navegação.

Em 1419 o Infante D. Henrique criou um observatório/academia náutica em Sagres com o objectivo de preparar pilotos de navegação. Um dos maiores problemas de então, para o desejo marítimo dos portugueses, era a falta de mestres para a formação de pilotos. Assim durante o séc. XV vários foram os reputados cosmógrafos estrangeiros que ensinaram em Portugal. Entre eles podemos destacar Jácomo de Maiorca, Martim de Behaim e, o mais famoso de todos, Abraão Zacuto que vem para Portugal em 1492.

As descobertas marítimas do séc. XV são assim o resultado do investimento:
  • Cabo Bojador, Gil Eanes (1434)
  • Ilhas de Cabo Verde, Cadamosto (1455-56)
  • São Tomé e Príncipe, João de Santarém e Pedro Escobar (1471-72)
  • Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias (1487)
  • Gronelândia e Terra Nova, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcelos (1492-98)
  • Calecute (India), Vasco da Gama (1497-99)
  • Brasil, Pedro Álvares Cabral (1500)
  • etc



E tal como diz Pedro Nunes "Não iam a acertar mas partiam os seus mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras (…)". Pedro Nunes foi um dos matemáticos mais reputados do seu tempo. Nasceu em Alcácer do Sal em 1502 e as suas contribuições para a cartografia e navegação são muito conhecidas.


Mas foi a sua obra astronómica "De crepusculis" que lhe trouxe definitivamente fama internacional. "De crepusculis" foi escrita com o objectivo de resolver uma importante problema da época relacionado com a duração do crepúsculo num qualquer local da Terra e num qualquer dia do ano. Este obra, onde Pedro Nunes apresenta o Nónio, teria recebido o elogio de Tycho Brahe.


Em 1574 Pedro Nunes foi nomeado cosmógrafo-mor do reino por D. Sebastião (1554-1578). Pedro Nunes morre em 1579 deixando um espólio científico de enorme relevo. O presente ano comemora-se o quinto centenário do seu nascimento e têm sido várias as iniciativas para assinalar a efeméride.

É comum fazer (simbolicamente) coincidir a morte de Pedro Nunes com o início de um período de decadência científica em Portugal que, na opinião de vários historiadores, irá atravessar todo o séc XVII e parte do séc. XVIII. O fim do período expansionista com a morte de D. Sebastião pode explicar este facto, uma vez que as descobertas foram um dos grandes motores do desenvolvimento científico em Portugal. A introdução da inquisição em Portugal em 1531, durante o reinado de D. João III, é também apresentada como uma das razões para esse período de decadência.

No entanto, é possível encontrar, no início do séc. XVII traços de uma actividade astronómica muito interessante desenvolvida no seio do colégio jesuita de Santo Antão em Lisboa onde existia uma cadeira de Astronomia e no Colégio das Artes em Coimbra. Cristovão Borro foi um dos seus mais notáveis professores. Assim, a generalização da ideia de um período de decadência do séc. XVII é actualmente algo no mínimo discutível.

Mas é claramente durante o séc XVIII que se pode detectar um considerável desenvolvimento da Astronomia em Portugal. Antes de mais pela construção de observatórios astronómicos. Segundo J. Pereira Osório, na obra já aqui citada, podem contar-se uma dezena de estabelecimentos deste tipo criados durante o séc. XVIII, embora em alguns dos casos com um tempo de vida efémero

Parece assim clara a vontade de apostar na astronomia observacional. Um bom exemplo disso pode ser encontrado nos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) explicitamente se ordena a criação de um Observatório com uma particular relevância para as aulas práticas:

José Monteiro da Rocha (1734-1819) que, a convite do Marquês de Pombal, participou na elaboração dos estatutos da Universidade de Coimbra, foi um dos nomes maiores da ciência portuguesa. Segundo Gomes Teixeira deveu-se a Monteiro da Rocha a introdução em Portugal das novas doutrinas de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton.

Um dos mais interessantes exemplos do valor dado à observação concerne a criação do Observatório Astronómico de Lisboa. Em meados do séc. XIX a Europa da astronomia debatia-se com várias controvérsias relacionadas com diferentes medições de um mesmo objecto. Por exemplo a distância à estrela Groombridgs 1830 medida por distintos astrónomos dava resultados muito diferentes: O. Struve, do Observatório de Pulkovo, encontrava 36 parsecs e M. Faye, do Observatório de Paris, obtinha 0.9 parsecs ! Por volta 1850, Faye teria sugerido que Lisboa seria o local da Europa ideal para fazer a observação necessária para tirar todas as dúvidas.

Este foi o mote para a construção de um novo Observatório em Lisboa em 1878 com uma dotação especial de D. Pedro V, que permitiu a aquisição de instrumentos de grande precisão. Neste processo de criação e estabelecimento do Observatório de Lisboa, tiveram importância maior pessoas como Filipe Folque, Frederico Oom e M. Campos Rodrigues.

Entre 1700 e 1900 pode registar-se uma produtividade científica extremamente relevante, apesar de uma vivência com alguns períodos conturbados como o foram a expulsão dos Jesuítas (1759) ou a transferência da coroa portuguesa para o Brasil em 1807, depois da tentativa de invasão do território nacional pelas tropas napoliónicas.

De acordo com Rudolfo Guimarães (1909, "O Instituto" da Universidade de Coimbra) pode contar-se mais de 300 publicações nos mais diferentes domínios da Astronomia. Eis alguns exemplos:
  • "Observations des Léonides 1898", Campos Rodrigues, 1899
  • "Observations et explications de quelques phénomenes du disque du Soleil observé à l'Hotel de Cluny, à Paris, le 6 mai 1753 et leur application pour la perfection de l'astronomie", Soares de Barros e Vasconcellos, 1753
  • "O novo planeta Eros e a distância do Sol à Terra", Real Observatório Astronómico de Lisboa, 1901
  • "A questão dos planetas intramercurianos", D'Almeida Garrett, 1869
  • "Habitantes do planeta Saturno", Peixoto do Amaral, 1886


Ainda na mesma obra de Rudolfo Guimarães pode detectar-se um conjunto de artigos que podem ajudar a marcar o início do estudo da Astrofísica em Portugal. Eis alguns exemplos:
  • "The alleged changes of colours in Sirius", F. Oom, 1902
  • "Photometric measurment of star near Rigel", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of variables stars from january 1894 to january 1896", Morais Pereira, 1894
  • "Dr. Schwabe's algol variable", Morais Pereira, 1901
  • "Observations of Sun spots. Drawings and measurements of position and surface every available day from 1893 to 1898", Morais Pereira, 1894-1900

Já não é só a posição dos astros que interessa, são também as suas propriedades intrínsecas. A Astrofísica sofre em Portugal um novo incremento graças ao esforço de Francisco Costa Lobo, durante os anos 20, que instala no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra um espectroheliógrafo destinado à obtenção de imagens do Sol, fruto de uma estreita colaboração com o Observatório de Paris.

O séc. XX é a imagem da própria História da Astronomia em Portugal: períodos de claro avanço alternam com épocas mais ou menos longas de aparente inactividade. Hoje em dia a Astronomia em Portugal é uma área em franco desenvolvimento.




In: Portal do Astrónomo

O Alto da Memória


O ALTO DA MEMÓRIA


O Alto da Memória ou Outeiro da Memória localiza-se no cimo do Jardim Duque da Terceira, no centro histórico da cidade e Concelho de Angra do Heroísmo.

Neste local o capitão do donatário João Vaz Corte Real fez erguer a primeira fortificação da antiga Angra, o chamado Castelo dos Moinhos, cerca de 1474. Esta fortificação, longe do mar, traduzia uma concepção ainda tardo-medieval, europeia e mediterrânica, de defesa em acrópole.

O obelisco que o caracteriza atualmente foi erigido no século XIX em homenagem à passagem de D. Pedro IV de Portugal pela Terceira, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1824).

De evidente simbologia maçónica, teve a sua pedra fundamental lançada a 3 de Março de 1845, estando concluído em 1856. Essa primeira pedra foi recolhida no cais da cidade, sendo uma das que o imperador havia pisado quando de seu desembarque naquele local, em 1832. As pedras do antigo castelo foram reaproveitadas para a construção do obelisco.

Este monumento foi praticamente destruído pelo grande terramoto de 1980, que provocou enormes estragos nas ilhas do Grupo Central do arquipélago.

Foi reconstruído e reinaugurado pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo em 25 de Abril de 1985.

De seu miradouro o visitante desfruta de uma vista abrangente Angra do Heroísmo e a sua baía, bem como do Forte de São Sebastião, da Fortaleza de São João Batista, do Monte Brasil, da Serra do Moirão e da Serra da Ribeirinha.



A Memória foi o primeiro monumento erguido em Portugal para homenagear D. Pedro IV, o monarca que se deslocou aos Açores, em 1832, para liderar as tropas que lutavam pela implantação do regime liberal.

A ideia de erguer-lhe um monumento foi decidida em 1835, mas contratempos vários foram adiando o projecto. 





Rua da Sé

Uma cerimónia de grande pompa que movimentou todas as autoridades da ilha. Um cortejo saído da Câmara Municipal subiu a Rua da Sé, passando pela Rua do Rego em direcção à Miragaia para terminar no largo do antigo Castelo dos Moinhos.



Com os donativos que foram sendo recolhidos, a pirâmide ficou concluída em 1856. Após uma pausa nas obras, os trabalhos de ordenamento do espaço circundante iniciaram-se em 1862, desconhecendo-se a data em que foram concluídos. O lado do quadrado da base da pirâmide tem 6,82 m e a altura atinge os 21,76 m.









Vistas do Alto da Memória
 sobre Angra do Heroísmo


2017-06-10 - Inteiro Postal comemorativo do
65º aniversário do NFAH








sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A Festa Brava na Terceira


A FESTA BRAVA NA TERCEIRA
(Breve história da sua origem)

Tourada na Ladeira de São Bento
Angra do Heroísmo


Desde os primórdios do descobrimento das Ilhas açorianas, aquando da descoberta da terceira ilha, densa em florestação como as demais, foi largado gado vacum como outras tantas espécies domésticas, que se tornaram selvagens e típicas desta região, causadas pelas condições climatéricas e demográficas das nossas ilhas. Com o cruzamento de diversas raças de gado vacum em regime de total liberdade, a quando do povoamento desta ilha, as gentes oriundas do centro /sul do país, encontraram uma espécie pequena em dimensão e bravia devido ao seu estado selvagem. Imaginando a época vivida, século quinze, depressa se tira a conclusão de como os povoadores capturavam e matavam as reses para a sua alimentação.




Tourada no Largo de São Bento
Angra do Heroísmo
Os antigos diziam que a carne de um animal cansado era mais tenra e suculenta do que a de um animal descansado, ainda no tempo do meu avô se tomava como certa esta sentença, sendo assim e depois de serem laçados e capturados, era nos adros das Igrejas que se corriam e cansavam os animais bravios de então, para depois se proceder à sua matança. Esta tradição não era só típica da Ilha de Jesus Cristo, era praticada um pouco por todas as restantes ilhas que compõe o arquipélago açoriano, esta manifestação foi proibida pelo Bispo de Angra nas “Constituições Sinodais do Bispo de Angra” de 1559 onde se proibia de correr toiros nos adros das igrejas.

Tourada no Pico da Urze
Angra do Heroísmo
Com o passar do tempo, por ser Angra uma cidade nobre e burguesa e por ser o povo terceirense um entusiasta das festas populares, se continuou esta pratica de correr os toiros nas ruas de toda a ilha.

O culto do Divino Espírito Santo propagou-se por todo o arquipélago devido à fé inabalável dos açorianos na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade face às atrocidades do tempo, da vida e da terra. No caso da Ilha Terceira foi-se associando o religioso e o profano advindo daí ao que hoje se assiste nas festas profano religiosas um pouco por toda a Ilha. A tourada à corda evoluiu com o passar dos tempos, mas nem sempre a tourada à corda foi o que hoje se vê e se assiste nas estradas da Ilha Terceira, alguns escritores da época relataram algumas atrocidades cometidas pelos homens de então com os seus bordões de aguilhões montados. Como tudo na vida a evolução do homem e da cultura fizeram com que o espectáculo chegasse até aos dias de hoje e se tornasse no ícone da tauromaquia insular.

Tourada no Largo do Posto Santo
Angra do Heroísmo
Ao mesmo tempo que se desenvolveu a tauromaquia de rua, as touradas de praça, como são chamadas aqui para as diferenciar das outras, mantiveram-se na Ilha Terceira pela concentração da nobreza na capital da Ilha e pelo porto a ela associado, porto este importante na rota da prata. Os espectáculos e jogos taurinos eram realizados na praça principal da cidade de Angra, a chamada hoje Praça Velha, onde se colocavam palanques em volta, inseridos num rectângulo. Aí os nobres mostravam a sua destreza a cavalo alanceando os toiros, outras danças executadas por angrenses alegravam as festas, antes faziam-se cavalhadas em honra de São João, perfilavam-se duas alas de cavaleiros, uma para a Rua de São João e outra no sentido descendente da Rua da Sé, aí se celebrava no canto destas duas ruas, onde outrora existiu uma capela, uma missa em honra do patrono das hoje festas maiores do Concelho de Angra do Heroísmo.

Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo


Sempre houve da parte dos terceirenses uma paixão frenética pela festa dos toiros, desde os espectáculos de rua aos de praça, mas é nos primeiros que reside a sua maior aficion.
Praças de toiros houve várias, a da Canada do Barreiro, a do Espírito Santo na Miragaia, a de São João, onde hoje se situa o Centro Cultural de Angra, chegando até hoje e já com vinte e cinco anos de existência a Monumental Praça de Toiros Ilha Terceira.

Enfim a festa brava e os terceirenses juntos desde os primórdios da existência humana nestas ilhas atlânticas.




Fonte: Duarte Bettencourt in "Terceira Taurina"




Tourada no Largo de São João de Deus
Angra do Heroísmo
Tourada à corda, toirada à corda ou corrida de touros à corda, é um divertimento tauromáquico tradicional nos Açores, com particular expressão na ilha Terceira, acreditando-se ser a mais antiga tradição de folguedo popular do arquipélago. A modalidade tauromáquica é específica dos Açores e caracteriza-se pela corrida de 4 touros adultos da raça brava da ilha Terceira ao longo de um arraial montado numa rua ou estrada, num percurso máximo que regra geral é de 500 m. O animal é controlado por uma corda atada ao seu pescoço (daí a designação do tipo de tourada) e segura por 6 homens (os pastores) que conduzem a lide e impedem a sua saída para além do troço de via estipulado. A lide é conduzida por membros do público, em geral rapazes, embora seja admissível a presença de capinhas contratados. Após a lide, os animais são devolvidos às pastagens sendo repetidamente utilizados, embora com um período de descanso mínimo de 8 dias.



Praça de Toiros do Espírito Santo
Angra do Heroísmo
O primeiro registo conhecido da realização de uma tourada à corda data de 1622, ano em que a Câmara de Angra organizou um daqueles eventos, enquadrado nas celebrações da canonização de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loiola. Contudo, presume-se que as corridas de touros à corda nos folguedos populares já ocorressem há muito, o que justifica a inclusão daquele evento numa festividade oficial.




Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo
A realização de corridas de touros à corda foi adquirindo ao longo dos tempos um conjunto de características, fixadas por normas e regras de cariz popular que hoje se encontram legalmente codificadas. Aquelas normas estabelecem os procedimentos de saúde e bem-estar animal a seguir em relação aos touros, os sinais correspondentes aos limites do arraial (riscos no chão), os sinais a utilizar na largada e recolha do touro (foguetes). Para protecção dos espectadores os touros não estão "em pontas", isto é, têm sempre a ponta dos chifres cobertas por algo que proporcione a protecção do espectador, as regras a seguir na armação dos palanques e na protecção dos espectadores e ainda a actuação dos capinhas (toureiros improvisados que executam sortes recorrendo a um guarda-sol, uma varinha, um bordão enconteirado ou uma samarra).


PRAÇA DE TOIROS
 DA ILHA TERCEIRA

Inaugurada em 1986




MONUMENTO AO TOIRO






Sobrescrito de 1º. dia comemorativo da inauguração do
Monumento ao Toiro e do 45º. aniversário da
Tertúlia Tauromáquica Terceirense

Selo Personalizado


Bilhete Postal de Boas Festas
Casa Agrícola José Albino Fernandes

Sobrescrito comemorativo da 1ª. Corrida, no Campo Pequeno, de
uma ganadaria açoriana (Rego Botelho)

Selo Personalizado

Bilhete Postal comemorativo da
lide no Campo Pequeno


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Santos Populares - Santo António



Santo António





Santo António nasceu em Lisboa em data incerta, numa casa, assim se pensa, próxima da Sé, às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja sob sua invocação. A tradição indica 15 de agosto de 1195, mas não há documento fidedigno que confirme esta data. Também foi proposto o ano de 1191, mas, segundo um seu biógrafo, o padre Fernando Lopes, as contradições em sua cronologia só se resolveriam se ele tivesse nascido em torno de 1188. Tampouco se sabe com certeza quem foram seus pais. Nenhuma das biografias primitivas os citam, e somente no século XIV, a partir de tradições orais, é que se começou a atribuir ao pai o nome de Martim ou Martinho de Bulhões, e à mãe, o de Maria Teresa Taveira.

Fixando-se esses nomes na memória popular, e com a crescente fama do santo, não custou a biógrafos tardios atribuírem também aos seus pais uma dignidade superior. Do pai foi dito ser descendente do celebrado Godofredo de Bulhões, comandante da I Cruzada, e da mãe, que descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas tal parentesco nunca pôde ser comprovado. A forma de seu nome de batismo é igualmente obscura, pode ter sido Fernando Martins ou Fernando de Bulhões.

Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior (hoje Sé de Lisboa), sob a direção dos cónegos da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho. Como era a prática da ordem, deve ter recebido instrução no currículo das artes liberais do trivium e do quadrivium, o que certamente plasmou seu caráter intelectual.

Ingressando ainda um adolescente como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, iniciou os estudos para sua formação religiosa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões.

Poucos anos depois pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, já que era constantemente visitado por amigos e parentes.

Coimbra era na época o centro intelectual de Portugal, e ali se deve ter envolvido profundamente no estudo das Escrituras e nos textos dos Padres da Igreja. Nesta época entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos, chegados em Portugal em 1217, e que estavam a caminho do Marrocos para evangelizar os mouros. Sua pregação do Evangelho no espírito de simplicidade, idealismo e fraternidade franciscana, e sua determinação missionária, devem ter tocado o sentimento de Fernando. 

Entretanto, uma impressão ainda mais forte ocorreu quando os corpos desses frades, mortos em sua missão, voltaram a Coimbra, onde foram honrados como mártires. Autorizado a juntar-se a outros franciscanos que tinham um eremitério nos Olivais, sob a invocação de Santo António do Deserto, mudou seu nome para António e iniciou sua própria missão em busca do martírio. 


Por essa altura, decidiu deslocar-se ele também a Marrocos, mas, lá chegando, foi acometido por grave doença, sendo persuadido a retornar. Fê-lo desalentado, já que não havia proferido um único sermão, não convertera nenhum mouro, nem alcançara a glória do martírio pela fé. No regresso, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Ali se quedou até a primavera de 1221, dirigindo-se com eles então para Assis a fim de participarem do Capítulo da Ordem - o último que seria feito com a presença do fundador. Em Assis encontrou-se com São Francisco de Assis e os seus primeiros seguidores, um evento de grande importância em sua carreira. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.

Pouco depois aconteceu uma ordenação de frades em Forlí, quando deixou o isolamento e para lá se dirigiu. Até então os franciscanos não sabiam de sua sólida formação, mas faltando o pregador para a cerimónia, e não havendo nenhum frade preparado para tal, o provincial solicitou a António que falasse o que quer que o Espírito Santo o inspirasse. Protestou, mas obedeceu, e dissertando para os franciscanos e dominicanos lá reunidos de forma fluente e admirável, para a surpresa de todos, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia. Entretanto, a prática franciscana desencorajava o estudo erudito, mas em Novembro de 1223 o papa Honório III sancionou a forma final da Regra da Ordem Franciscana, onde uma formação mais aprimorada se tornou autorizada, desde que submissa ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Recebendo a aprovação para a tarefa pastoral do próprio Francisco, fixou-se então em Bolonha, onde se dedicou ao ensino da teologia na universidade e à pregação. Deslocando-se em seguida para a França, ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também por Lomoges.

Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, após a morte de Francisco, seviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para apresentar-lhe a Regra da Ordem. Em 1227 foi indicado provincial da Romagna e passou os três anos seguintes pregando na região, incluindo Pádua, para audiências cada vez maiores. Nesse período colocou por escrito diversos sermões. Em 1230 solicitou ao papa dispensa de suas funções como provincial para dedicar-se à pregação, reservando algum tempo para a contemplação e prece no mosteiro que havia fundado em Pádua. Sempre trabalhando pelos necessitados, envolveu-se também em questões políticas, a exemplo de sua viagem a Verona para pedir a libertação de prisioneiros guelfos feitos pelo tirano gibelino Ezzelino, e em 1231 persuadiu a municipalidade de Pádua a elaborar uma lei que impedia a prisão por dívidas se houvesse a possibilidade de compensação de outras formas.
   

Pouco depois da Páscoa de 1231 sentiu-se mal, declarou-se hidropisia e ele deixou Pádua para dirigir-se ao eremitério de Camposanpiero, nos arredores da cidade. Seus companheiros ergueram-lhe uma cabana no alto de uma árvore, onde permaneceu alguns dias. Percebendo que a morte estava próxima, pediu para ser levado de volta a Pádua, mas apenas tendo alcançado o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, ali faleceu, em 13 de junho de 1231. As clarissas reclamaram seu corpo, mas a multidão acabou sabendo de seu passamento, tomou-o e o levou para ser sepultado na Igreja de Nossa Senhora. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio, pelo papa Gregório IX. Os seus restos mortais repousam desde 1263 na Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização.

Quando sua tumba foi aberta para iniciar o processo de translado, sua língua foi encontrada incorrupta, e São Boaventura, presente no ato, disse que o milagre era prova de que sua pregação era inspirada por Deus. E incorrupta está até hoje, em exposição na Capela das Relíquias da Basílica.

Foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de Janeiro de 1946 e é comemorado no dia 13 de Junho.

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses e valdenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).


1895 - Santo António
Série Açores
Obliterada em Angra do Heroísmo

Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos como Aristóteles, Cícero, Catão, Sócratres, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tíbulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho, Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio,Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,


"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".

Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extracção do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina.

Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.

Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.

A devoção popular o colocou entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e lhe atribui até os dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas se multiplicam pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome.

Na tradição lusófona Santo António está acima de todos em prestígio. Sua veneração foi levada de Portugal para o Brasil, onde enraizou rápido e também dominou o coração do povo. Era tanta a familiaridade que o santo inspirava, que passou a ser uma espécie de "propriedade privada" de todos. Como relatou Grillot de Givry, "não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isso, a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo António". Estava em toda parte: "nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios". Também era invocado pelos senhores para recuperar escravos fugidos.

A mesma familiaridade criou práticas esdrúxulas no culto popular. Se um pedido não era atendido, a imagem do santo podia ser submetida a torturas e castigos. Deitavam-na de barriga para o chão e punham-lhe uma pedra em cima; escondiam-na num poço escuro, retiravam-lhe o Menino Jesus dos braços, ou arrancavam-lhe o resplendor. Acreditava-se que o castigo acelerava a concessão da graça, e explicavam a violência dizendo que em sua juventude o santo desejara morrer martirizado em nome da fé. Luminares do clero, como o Padre Vieira, também de certa forma reforçavam essas crenças. Num sermão disse:
   
"Não haveis de pedir a Santo António como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo António: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandado como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: por que atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o pedido em Santo António não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condená-la de todo, pelo que tem de piedade".
É um dos santos honrados nas popularíssimas Festas Juninas e diversos costumes folclóricos estão ligados ao santo. a título de exemplo, no Brasil moças casadoiras retiram o Menino Jesus das estátuas e só o devolvem quando arrumam casamento; uma prece especial, os "responsos", são feitas para que ele ajude a encontrar objetos perdidos; no dia de sua festa muitas igrejas distribuem um pão especialmente abençoado, os "pãezinhos de Santo António", que deve ser guardado em uma lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.


Ele teve inclusive uma brilhante carreira militar póstuma. Inúmeras cidades da Espanha, Portugal e Brasil lhe conferiram títulos militares, condecorações, insígnias e outras honrarias, iniciando-se o curioso hábito quando o regente Dom Pedro ordenou em 1668 que ele fosse recrutado e assentasse praça como soldado raso no II Regimento de Infantaria em Lagos, sendo promovido sucessivamente a capitão e coronel. Com o posto de tenente-coronel, sua imagem foi levada pelo XIX Regimento de Infantaria em Cascais à frente dos combates da Guerra Peninsular, recebendo depois uma condecoração. Dom João VI, após o feliz desembarque no Brasil em sua fuga da invasão napoleónica, o nomeou sargento-mor, promovendo-o depois a tenente-coronel. 

Fonte: Wikipédia
 
 
Ermida de Santo António no Monte Brasil
Angra do Heroísmo

Desenho de Emanuel Félix


Situada no interior das muralhas da fortaleza do Monte Brasil, fazia parte da Quinta de Regalo, uma zona de recreio criada pelo governador espanhol de então, D. Gonçalo Mexia, por volta de 1615, na encosta leste do monte voltada a Angra.
 
A Casa de Regalo ainda existe, também, mas a estrutura da quinta desapareceu.
 
A festa a Santo António originava romarias e incluiu, em algumas épocas, tiros de pólvora de pequenas peças de artilharia, a partir de dois baluartes decorativos cujos restos ainda se notam.