domingo, 1 de abril de 2018

Almeida Garrett e a Terceira (1799-1854)

João Baptista da Silva Leitão de Almeida, mais tarde visconde de Almeida Garrett, nasceu no Porto, no dia 4 de Fevereiro de 1799, e faleceu em Lisboa em 1854. Seu pai, António da Silva Bernardo, selador da Alfândega do Porto e natural da ilha do Faial, refugiou-se com a família na ilha Terceira para evitar o flagelo da invasão francesa de 1810.

João Baptista é, então, um adolescente sensível e precoce. Em Angra faz as suas humanidades sob a tutela do tio D. Frei Alexandre da Sagrada Família, bispo de Angra. Ainda por influência deste, o jovem toma ordens menores, mas, na referida cidade, apaixona-se por Elisabeth Hewsson, uma inglesinha de família ligada ao comércio da laranja e já há alguns anos estabelecida na Terceira.

Os pais e o bispo, sabendo do namoro, resolvem afastar da jovem inglesa o futuro eclesiástico, mandando-o, em 1814, passar uns tempos na Graciosa em casa do tio João Carlos Leitão (irmão da mãe de Garrett), juiz de fora naquela ilha.

E é na Graciosa que João Baptista escreve os primeiros versos, já reveladores do seu talento de homem de letras. Segundo a tradição oral, o futuro escritor apaixonou-se por uma donzela graciosense, de nome Lília, a quem escreveu várias odes, mais tarde publicadas no livro Os primeiros versos de Garrett (Porto, Livraria Magalhães e Moniz, 1902), de Mendo Bem, a partir do manuscrito original que Garrett oferecera ao graciosense Francisco Homem Ribeiro, intitulado Odes Anacreonticas compostas e offerecidas ao senhor Francisco Homem Ribeiro por J.B.S.L. seu menor criado - Graciosa.

 
Durante a permanência do jovem poeta na ilha branca, ocorreu um episódio semiescandaloso, relatado por Francisco Gomes de Amorim, biógrafo de Garrett, e que ainda hoje faz parte do imaginário graciosense.
 
Um dia, o futuro Garrett ouve dizer que a pequena distância da vila de Santa Cruz se prepara uma festa religiosa a que concorre muita gente. Como não lhe falta a coragem, planeia aproveitar a ocasião para ensaiar os seus dotes oratórios. Em segredo vai oferecer-se ao mordomo da festa para dizer o sermão. O mordomo, vendo-o tão criança, não aceita a proposta, mas o jovem insiste:

 
- Olhem que eu sou sobrinho do bispo da diocese, e quem é sobrinho de bispo pode pregar.
- Mas o menino sabe latim?
- Mais do que muitos frades. Em Angra já eu tenho pregado muitos sermões.
 
O mordomo acredita ou deixa-se convencer e, chegado o dia da festa, João Baptista sobe ao púlpito com toda a segurança. Pasma o povo que enche a ermida de ver um garoto naquele lugar. Na sua voz infantil, afirma com rasgo teatral:
 
- Não ajuízem do sermão pela figura de quem o profere nem pela voz do pregador. Meditem bem nas minhas palavras porque nelas acharão só a verdade. A verdade, meus irmãos, tanto pode ser dita pelos velhos como pelas crianças.


 
Entusiasma-se o orador, e os ouvintes deixam-se dominar, esquecendo a idade de quem lhes fala. Depois de descrever a vida do orago, João Baptista entra no epílogo, condenando os vícios e exortando os fiéis à prática das virtudes cristãs, ele que ainda não sabe o que é o Mundo. Ao descer do púlpito, é saudado, à passagem, pelas exclamações do povo. O jovem sente a satisfação do triunfo e vai passear pelo arraial, sendo festejado por muita gente, incluindo pessoas da vila que foram ver a festa. Chega, por elas, a notícia aos ouvidos do tio que se zanga, não vá o bispo ofender-se. Mas D. Frei Alexandre, ao saber da ousadia do sobrinho, em vez de levar a mal, vê no facto uma prova da vocação do garoto para a vida eclesiástica.

 

Engana-se o bispo. Regressado à Terceira, o enamorado sobrinho, futuro diletante, dândi e janota que há-de ser príncipe dos salões mundanos, amoroso impenitente e homem de paixões, faz saber aos pais que já não quer ser padre. E, pouco tempo depois, parte para Lisboa com o objectivo de estudar leis em Coimbra. O futuro autor de Frei Luís de Sousa (1843) e Viagens na Minha Terra (1846) deixa, nas ilhas Terceira e Graciosa, idílios dos primeiros versos e dos primeiros amores...

Fonte: Victor Rui Dores
 

Almeida Garrett (1799-1854), embora tivesse nascido no Porto, era filho de um açoriano e viveu na Terceira, na sua juventude. Liberal convicto, aderiu à Revolução de 1820, mas foi obrigado, como muitos outros, a exilar-se após o controlo do poder pelos miguelistas. A reviravolta que os liberais terceirenses imprimiram a todo este processo, em 1828, permitiu que os exilados fossem regressando do estrangeiro e estabelecessem na ilha o seu quartel-general. 

Placa na fachada da casa na Rua de São João, Angra do Heroísmo,
onde viveu Almeida Garrett.

Durante a sua permanência em Angra, Garrett exerceu funções governativas, junto de Mouzinho da Silveira e, em 1832, acompanhou D. Pedro na conhecida expedição dos Bravos do Mindelo

Consolidado o regime liberal exerceu vários cargos na governação e foi eleito deputado por Angra.



 É da sua autoria a redacção do decreto de 1837 que atribuiu a Angra o sobrenome de Heroísmo e o título de Sempre Constante e à Praia o sobrenome de Vitória e o título de Muito Notável.


Por todas estas razões ficou ligado à ilha Terceira. Por altura da comemoração do centenário da sua morte, a Comissão Central escolheu as cidades a que mais havia estado ligado, para promover as comemorações, onde se incluiu Angra do Heroísmo.


O programa das comemorações, organizado pelo grupo Amigos da Terceira e pela Câmara Municipal, iniciado em Novembro de 1954, contou com a presença do Professor Catedrático, António de Almeida Garrett, representante da Comissão Central e familiar do homenageado. Desse programa, destaco dois momentos.

O primeiro ocorreu com a inauguração da "glorieta" em sua homenagem no jardim de Angra. A efígie é da autoria do escultor Xavier da Costa e ficou enquadrada num projecto do arquitecto Fernando de Sousa.


Das várias inscrições que nela constam saliento a seguinte: "Não tive a fortuna de nascer naquele torrão, mas a minha pátria, mas a de meus pais, mas o meu património, mas tudo quanto constitui a pátria dum homem, é a minha saudosa ilha Terceira, um dos mais nobres padrões da glória portuguesa".
Homenagem a Garrett na Cidade da Praia da Vitória


Na Praia da Vitória, foi também descerrada uma placa, em cerimónia oficiosa, junto à Avenida Beira-mar. No texto, concebido por Vitorino Nemésio, pode ler-se: "A Garrett, que em menino andou por esta praia e em 1829 a cantou no seu exílio de Londres: E a Praia é só/Apenas se ouve a bulha compassada/Da ressaca, gemendo e murmurando".



Placa na Praia


Foram colocadas ainda outras placas: uma na Rua de São João, na casa onde viveu, e outra numa quinta da família, no Caminho do Meio, em São Pedro.

A homenagem (Angra, Jardim Duque da Terceira) a Garrett em 1954


Dado que o Estado Novo tudo fez para que fosse esquecido o percurso histórico liberal, nestas comemorações foi essencialmente privilegiada a faceta do escritor romântico e do poeta. O único terceirense que, nesta ocasião, teve a ousadia de evocar Garrett como homem de pensamento liberal foi Luís da Silva Ribeiro.
 

Homenagem a Garrett no Jardim "Duque da Terceira"

Considerado o primeiro autor romântico em Portugal, João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799. Passou a sua infância nas propriedades do pai, ao sul do Porto.
Em 1809 foi obrigado a abandonar esta cidade, como consequência da invasão francesa de Soult. Mudou-se para Lisboa com a família e mais tarde para a ilha Terceira (Açores).
Em Angra do Heroísmo, sob a direcção de um tio, o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, recebeu a educação clássica que marca os seus primeiros versos.
Aos 17 anos está de novo no continente e estuda Direito em Coimbra, conclui o curso em 1821. É desta época de Coimbra que datam as primeiras tentativas de teatro. Garrett toma como modelos Voltaire, de Maffei e de Alfieri.
Um ano depois, uma reacção miguelista leva-o ao exílio, primeiro em Inglaterra e depois em França. Nos meios literários desses países contacta com o movimento romântico e vai ser o seu introdutor em Portugal.
Garrett envolveu-se directamente nas rupturas político-ideológicas que assinalam a transição do Antigo Regime para o Portugal moderno que é o do Liberalismo. Ao mesmo tempo viveu a tensão que se instalou entre o legado neoclássico e o advento do romantismo.
Entre 1826 e 1828 regressa a Portugal, mas as alternativas de luta entre miguelistas e liberais obrigam o autor a um novo exílio.
Em 1836 encontra-se na ilha Terceira, onde colabora com Mouzinho da Silveira nas reformas que iriam transformar por completo a estrutura do país.
Mais tarde, no cerco do Porto, como soldado, defende o seu ideal político (liberalismo). Depois da vitória toma o cargo de Cônsul-geral em Bruxelas. Frequenta durante dois anos a alta roda e estuda a literatura alemã.
De novo em Lisboa, promoveu a fundação do Conservatório de Arte Dramática e a criação do Teatro Nacional e da Inspecção-geral dos teatros.
A sua personalidade é psicológicamente polifacetada, divide-se entre a vida política, a criação literária e as vivências amorosas. As directrizes do seu comportamento são a instabilidade e a relatividade (de valores, de experiências, de estéticas). Desde a infância foi marcado pelo estigma do exílio. A sua formação e o amadurecimento estético-cultural estão associados a factores de natureza política e ideológica.
Garrett foi uma das mais influentes figuras políticas do país. Como deputado, a partir de 1837, revelou excepcionais dotes de orador. Em 1852 foi ministro do gabinete presidido por Saldanha. Dois anos mais tarde morre, em Lisboa, a 9 de Dezembro.

 


1957-07-27 - Primeiro sobrescrito editado pelo Núcleo Filatélico de
Angra do Heroísmo, onde foi escolhida a estampilha postal de Garrett,
obliterada com o carimbo comemorativo da visita presidencial.

 

Cronologia de Almeida Garrett         

          
          1799 – Almeida Garrett nasce no Porto.
1809 – Parte para a ilha Terceira por causa das invasões francesas. Aí recebe de um tio, bispo de Angra do Heroísmo, uma educação religiosa e clássica.
1816 – Matricula-se no curso de Direito em Coimbra. Adere às ideias liberais e começa a escrever algumas peças de teatro.
1820 – Escreve a tragédia Catão, representada em Lisboa no ano seguinte.
1821 – Já formado, casa com Luísa Midosi e publica o Retrato de Vénus, que lhe valeu um processo judicial e um julgamento de que foi absolvido.
1823 – Com a Vila-Francada, exila-se em Inglaterra, onde contacta com a literatura romântica (Byron e Walter Scott).
1824 – Parte para o Havre, em França, como correspondente.
1825 – Publica em Paris Camões.
1826 – Publica ainda em Paris D. Branca. Regressa a Portugal após a outorga da Carta Constitucional, dedicando-se ao jornalismo político.
1828 – Exila-se de novo em Inglaterra devido à aclamação de D. Miguel.
1830 – Inicia a compilação do Romanceiro.
1832 – Integra-se no exército liberal de D. Pedro IV, desembarca no Mindelo e participa no cerco do Porto, escrevendo aí a primeira pare do Arco de Santana.
1834 – Após a guerra civil, Almeida Garrett é nomeado cônsul geral em Bruxelas. Estuda a língua e a literatura alemãs (Herder, Schiller e Goethe).
1836 – Regressa a Portugal e separa-se de Luísa Midosi, que em Bruxelas o teria traído. Passos Manuel encarrega-o de reorganizar o teatro nacional, nomeando-o inspector dos teatros.
1837 – Perde o cargo de inspector dos teatros por demissão de Passos Manuel. Apaixona-se por Adelaide Deville, que morrerá em 1841 e de quem terá uma filha, Maria Adelaide.
1838 – Publica Um Auto de Gil Vicente.
1841 – Publica O Alfageme de Santarém.
1842 – Costa Cabral instaura um governo de ditadura, contra o qual Garrett luta na oposição parlamentar.
1843 – Escreve o drama Frei Luís de Sousa que será publicado no ano seguinte. Começa também a escrever o romance Viagens na Minha Terra, que publica em folhetins na Revista Universal Lisbonense.
1845 – Publica o romance Arco de Santana e a colectânea de poemas Flores sem Fruto. Inicia-se a paixão por Rosa Montufar, a Viscondessa da Luz.
1846 – É publicado em dois volumes o romance Viagens na Minha Terra.
1850 – É representado no Teatro Nacional o drama Frei Luís de Sousa.
1851 – É nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros e recebe o título de Visconde e Par do reino. Conclui a compilação do Romanceiro.
1853 – Publica Folhas Caídas, colectânea poética que causou escândalo na época.
1854 – Almeida Garrett morre a 9 de Dezembro em Lisboa.


Nota de 20$00 de 1915